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Pormenor da capa do livro.

Livro

Um convite à leitura da obra “Algo Inteiramente Novo” – inspirado no seu epílogo

O 7MARGENS publica o presente texto de apresentação do livro Algo Inteiramente Novo. Os evangelhos no seu contexto histórico, político e literário, escrito pelo próprio autor. Publica-se no final o prefácio ao livro, da autoria de Timóteo Cavaco, ex-presidente da direção da Aliança Evangélica Portuguesa.

 

“Até parecia estranho e impossível a Aliocha viver como dantes. Foi dito: ‘Reparte tudo e segue-me se queres ser perfeito.’ Disse então Aliocha para si mesmo: ‘Não posso, em vez de ‘tudo’, oferecer dois rublos e, em vez de ‘segue-me’, ir apenas à missa.’”

(Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov – I, Editorial Presença, 2002, p. 40)

 

A obra Algo Inteiramente Novo propõe uma introdução aos textos dos evangelhos lidos no seu contexto histórico, político e literário de modo a extrair desse contexto o ímpeto revolucionário da mensagem e da vida de Jesus Cristo, o rabi judeu. Organizada como uma série de estudos temáticos, a obra percorre aspetos diversos e ricos dos evangelhos, como o significado do anúncio do Reino de Deus, a questão da identidade deste rabi judeu, certas idiossincrasias literárias nas narrativas evangélicas, a relação entre a Lei de Moisés e a doutrina do rabi, sem perder de vista a importância do pano de fundo greco-romano e a forma como Jesus quis reconfigurar o ambiente sociológico daquele tempo, acolhendo gentios, mulheres e crianças. O efeito cumulativo destes estudos pretende suscitar a convicção de que Jesus mudou de facto o curso da História e, mais ainda, quer transformar também o rumo das nossas histórias pessoais.

Essa transformação é profunda, radical e exigente, tal como concluiu Aliocha, personagem chave d’Os Irmãos Karamazov, intemporal obra literária de Fiódor Dostoiévski. De entre os três irmãos Karamazov, Aliocha é aquele que tem coração sensível ao transcendente; talvez até possamos dizer que tem coração sensível ao Reino de Deus. Aliocha e o seu irmão Ivan procuram distanciar-se do perfil e do exemplo depravado do pai Fyodor Pavlovich Karamazov; mas Ivan mantém-se descrente e até irascível em relação à fé, enquanto Aliocha encontra Deus e abraça de forma consistente a fé e a esperança. Às tantas, enquanto aprendiz do monge e líder espiritual Zozima, ele compreende que Deus requer entrega total. Pois, se o testemunho que nos chega da pessoa e da obra de Cristo é verdadeiro, então não tem nexo segui-lo e servi-lo apenas a meio gás. Não é possível entregar-lhe meio coração. Não podemos servir a dois senhores. Não podemos oferecer-lhe o domingo e permanecer donos da segunda-feira. Não podemos dar-lhe o dízimo e abocanhar o restante para projetos e devaneios desalinhados do Reino. Não dá para viver plenamente na ombreira do Reino, hesitantes, querendo participar dele mas cedendo ainda à força gravitacional de Roma, ou do espírito “nós” vs “eles”, ou das filosofias vãs, ou dos sonhos megalómanos e egocêntricos.

Através dos estudos esboçados nesta obra, também eu procuro escancarar a radicalidade e a exigência da proposta que nos chega do rabi judeu de modo a que o leitor subscreva a conclusão de Aliocha. A história de Jesus no centro da História desafia-nos ao desapego, convida-nos a um caminho que, muitas vezes, é feito em contramão face às expectativas, objetivos, prioridades, métodos e estratégias vigentes na nossa sociedade. Contudo, se atentarmos àquilo que os evangelistas revelam e se crermos convictamente nessa revelação, então também sabemos que este caminho está, na verdade, em sintonia com a realidade no seu estado mais puro. Os seguidores do rabi judeu palmilham, de facto, o trilho da “felicidade” (bem-aventurados os que choram, os que são perseguidos, etc. etc.), recebem a dádiva da “paz” (não como o mundo a dá, mas paz de outro quilate, cf. João 14:27), estão alicerçados no amor incomensurável de Cristo (cf. Efésios 3:17-19).

Assim, o referencial para mapear corretamente as coordenadas da nossa história não nos é fornecido pelo zeitgeist atual, ou seja, pelo espírito do tempo moderno, produto de ideias e de projetos humanos. O referencial é-nos dado, sim, pela revelação, pelo ensino, pelo exemplo e pela vida do rabi judeu doada graciosamente por nós.

Mas como é que podemos usar este referencial em pleno século XXI? Como seguir o rabi judeu no tempo atual? Como desbravar uma “terceira via” no meio das guerras culturais? Como ser fazedores de paz num tempo de tanto combate retórico e conflito armado? Como discernir, proteger e falar a verdade num tempo de notícias falsas desavergonhadas? Como ser submissos ao Espírito Santo num tempo em que a dinâmica da polarização, fortemente promovida pelas redes sociais, gera, ela própria, certos estados de espírito—ou certos espíritos malignos!—que querem também apoderar-se ferozmente de nós? Como promover e ser “verdadeira humanidade”, à imagem de Cristo, numa era de Inteligência Artificial e devaneios transhumanistas? Como ser gracioso quando temos tamanha escassez de graça nas relações horizontais e nas ideologias que nos querem alistar à esquerda e à direita? Como exercer mansidão num clima em que a agressividade é premiada com assentos nos parlamentos e cargos nos governos dos povos? Como ser um povo de esperança num clima de cinismo e angústia? Como?

No momento em que escrevi estas linhas, em finais de 2025, pergunto-me como será a vida dos meus filhos nas próximas décadas. O globo tem mudado a um ritmo muito acelerado e não tenho a certeza de que a fé e os princípios que eu lhes posso transmitir são suficientemente robustos, suficientemente aguçados, suficientemente encarnados nas exigências do tempo atual, para que eles possam responder aos desafios que o amanhã lhes reserva – aqueles que posso antecipar e ainda mais aqueles que nenhum de nós consegue adivinhar. Mas é imperativo que, pelo menos, tentemos esboçar respostas, teóricas e práticas, às questões prementes do presente, de modo a deixar à próxima geração algum tipo de legado que seja minimamente adequado ao contexto vigente. “Quem é Jesus Cristo para nós hoje?” – perguntou Dietrich Bonhoeffer a partir de uma prisão nazi. A pergunta ecoa e renova-se a cada geração, cada uma tentando discernir de que modo Jesus nos fala, de que modo o seu Reino está presente, onde é que ele nos impele a ir, o que é que ele nos incita a dizer a cada momento, em função das crises e dos dramas que, como vagas sucessivas, vão assolando a humanidade e os indivíduos.

Ao concluir a escrita desta obra e ao virar as agulhas para o presente e para o futuro, as questões são imensas e são difíceis. O caminho para encontrar respostas passa, necessariamente, pela nossa (re)formação enquanto cidadãos do Reino de Deus. Se queremos de facto seguir o rabi judeu, então a nossa vida consiste numa formação contínua, quotidiana, completa em cidadania do Reino; ou, dito de outro modo, a nossa vida consiste num processo diário de conversão ao rei. A este respeito subscrevo sem reservas a tese do filósofo e autor cristão James K. A. Smith quando ele insiste que a formação espiritual cristã, ou seja, o discipulado, tem de incidir na reforma dos nossos desejos:

A ordem de Jesus para o seguirmos é uma ordem para alinharmos os nossos amores e anseios com os seus – para querer o que Deus quer, para desejar o que Deus deseja, para ter fome e sede daquilo que Deus tem fome e sede e para desejar ardentemente um mundo no qual ele seja tudo em todos – uma visão que é encapsulada pela abreviatura ‘o reino de Deus.’[1]

Nos seus livros e palestras, Smith fala apaixonadamente sobre a importância formativa da liturgia: quer queiramos quer não, todos nós somos seres propensos a adorar algo ou alguém, ou seja, todos nós somos, de algum modo, religiosos; somos formados (e, muitas vezes, deformados) pelos rituais a que aderimos de forma mais ou menos consciente. As nossas instituições – Universidades, empresas, famílias, estados – têm os seus próprios rituais. A nossa cultura é feita de práticas que têm muito de devocional: ir a concertos, ao futebol, ao centro comercial, etc. A forma como vivemos estas práticas (a expectativa que as antecede, os sub-rituais que elas incluem, a alegria que elas prometem oferecer) confere-lhes uma aura de práticas litúrgicas e, por isso, práticas que moldam os nossos valores, princípios e prioridades. No meio desta vida semi-religiosa, Smith sugere que sejamos também extremamente intencionais na forma como adotamos liturgias que nos formem nos valores do Reino e na história do rei. Liturgias dominicais na comunidade eclesiástica que incluam a centralidade da estória dos evangelhos, a confissão (“Jesus é Rei e Senhor”), o lamento (a terra não reconhece que Jesus é Rei e Senhor…), a esperança (um dia a terra se encherá do conhecimento e da beleza do Senhor!). E também liturgias pessoais, familiares, comunitárias que firmem os nossos passos, as nossas palavras, os nossos corações e os nossos desejos nas verdades basilares em que dizemos acreditar.

Deste modo, por meio de uma vida litúrgica que nos recentra constantemente no Reino de Deus, e enquanto procuramos respostas para as questões difíceis do presente, olhamos também para trás. A fé cristã estende-se, estica-se, desenvolve-se ao longo de dois milénios mas continua a ter o seu epicentro na estória incontornável, surpreendente e desconcertante do rabi judeu. Por isso, regressamos vez após vez, domingo após domingo, ou mesmo dia após dia, a essa estória…

Recuando à própria introdução da obra: “Tudo começou na província romana da Galileia durante o reinado de Tibério, imperador romano entre os anos 14 e 37 d.C. Longe dos holofotes e dos centros de poder da época, um carpinteiro judeu reuniu alguns seguidores de entre os seus compatriotas judeus e passou a anunciar a chegada do Reino de Deus. Com o passar do tempo, a mensagem deste judeu e a fama dos sinais extraordinários que acompanhavam essa mensagem atraíram multidões e deram origem a alvoroço e oposição. Quem era este judeu e qual era de facto a sua mensagem? O que estaria ele a preparar?…”

Ele estava a preparar, nada mais nada menos, do que a aurora deste “algo inteiramente novo” que dá pelo nome de Reino de Deus. É disto que trata o livro, com um olhar para o passado, revisitando a história do rabi judeu a partir dos textos canónicos que a contam tão magistralmente e encontrando ali a sua imensa e surpreendente relevância para hoje. O meu desejo e oração é que a leitura da obra ajude os leitores a vislumbrar com mais nitidez essa aurora de algo novo e a abraçar a mensagem e a pessoa do rabi judeu como esse referencial tão necessário para quem quer trilhar um caminho de esperança, beleza e sentido no tempo presente.

[1] James K. A. Smith, You Are What You Love: The Spiritual Power of Habit, Brazos Press, 2016, p. 2.

 

David Cóias Raimundo é matemático de formação, tendo concluído o doutoramento em Análise Algébrica pela Universidade de Lisboa (2013). Trabalhou no desenvolvimento de políticas educativas no Ministério da Educação de Timor-Leste (2015-2017) e tem também um mestrado em Teologia pelo Regent College no Canadá (2019-2021). Atualmente serve como secretário executivo do Grupo Bíblico Universitário de Portugal, coordenando a gestão interna desta organização, bem como a sua componente formativa e editorial. Contacto: davidraimundo84@gmail.com

 

Um rabi judeu com “Algo inteiramente novo”

Prefácio de Timóteo Cavaco

Vivemos numa época marcada por mudanças constantes, mas a transformação mais profunda que um ser humano pode experimentar não acontece ao nível das circunstâncias externas — acontece quando Deus renova o coração e dá início a uma vida inteiramente nova. Em Algo Inteiramente Novo, David Cóias Raimundo conduz o leitor a uma reflexão bíblica e prática sobre o poder transformador do Evangelho e a obra renovadora de Deus na vida daqueles que se rendem a Cristo. Com linguagem acessível e aplicação relevante para o quotidiano, o autor desafia-nos a abandonar velhos padrões de pensamento e comportamento para abraçar a nova identidade que encontramos em Jesus. Ao longo da obra, são explorados temas como conversão, renovação espiritual, crescimento cristão, discipulado e esperança, mostrando que o Evangelho não é apenas uma mensagem para o início da caminhada cristã, mas uma realidade que continua a transformar cada área da vida. Mais do que uma reflexão teórica, este livro é um convite a experimentar a novidade de vida prometida por Deus e a viver com propósito, fé e esperança. Uma leitura inspiradora para quem deseja aprofundar a sua relação com Deus e compreender melhor o que significa ser uma nova criação em Cristo.

 

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