Há bem pouco tempo tropecei numa citação de autor desconhecido que dizia assim: “Um dia acreditei que vencer na vida era ter uma boa casa, boas roupas, um carro e algum dinheiro. O tempo não para, nós amadurecemos e passamos a ver tudo diferente. Hoje sei que vencer na vida é, sobretudo, estar em paz. Onde quer que a gente esteja.” Esta reflexão, escrita, claramente, em português do Brasil, vinha acompanhada de uma cara de um velho, que é como quem diz de um sábio, de alguém com rugas suficientes e capazes de denunciar que já tinha vivido muito.
Procurando inspirar-me através da leitura, forma que me é muito cara para descansar, deparei-me com uma reflexão atribuída a David Bowie: “Envelhecer é um processo extraordinário em que você se torna a pessoa que sempre deveria ter sido.”
Na mesma sequência de momentos contaram-me uma história que mostrava a divulgação de um conteúdo falso, sem intencionalidade perversa, mas apenas por confiança numa primeira fake new que acabou por ser fonte de disseminação de informação com consequências potencialmente nefastas, injustas e até perturbadoras. Então lembrei-me de escrever sobre isto.
As chamadas fake news ou notícias falseadas são um termo usado para referenciar informações erradas veiculadas principalmente online e muito “eficazmente” em redes sociais, que transmitem desinformação, manipulação de supostos conteúdos relatados ou “notícias” que simplesmente não correspondem a factos ocorridos. Nem sempre elas são publicadas intencionalmente, podendo, por exemplo, acontecer por engano ou falta de rigor de quem as transmite.
O que as torna preocupantes é que estas podem aparecer misturadas com informação real e, desse modo, é muito difícil distingui-las e filtrá-las. São, em geral, discretas e insidiosas. Podem levantar falsos testemunhos sobre pessoas ou causas; podem transmitir conteúdos pseudocientíficos e conduzir a decisões relevantes que são tomadas de forma desajustada; podem destruir personalidades, reputações ou até regimes.
A proliferação de fake news mina a confiança nas instituições, nos media e até nas relações interpessoais. Este clima de desconforto generalizado fragiliza a coesão social e dificulta o debate público.
As redes sociais e outras plataformas online têm um papel fundamental no explodir destas fakes. É, pois, crucial que assumam a responsabilidade de combater a desinformação, através de mecanismos de verificação de factos e de moderação de conteúdos, como já o fizeram e vieram a retirar sob pretexto da liberdade individual.

A proliferação de fake news mina a confiança nas instituições, nos media e até nas relações interpessoais. Foto: Igreja Açores/DR
Liberdade e responsabilidade
Nos dias de hoje, com a rapidez com que toda a informação se espalha, o impacto que estes temas têm é imprevisível e com consequências frequentemente muito graves, dependendo do que estiver realmente em causa.
Será que, por existirem fake news, podemos afirmar que estamos num mundo descontrolado e que, ainda assim, por ser o nosso tempo, temos de aprender a viver nele? Será que isso é possível? Será que faz sentido desconfiar de quase tudo? Será até que conseguimos distinguir entre tornarmo-nos paranoides, patológicos, ou sermos apenas atentos analistas dos conteúdos com os quais nos cruzamos em diferentes meios?
Talvez a chave para enfrentar este desafio seja encontrar um equilíbrio entre a confiança e a precaução.
A educação mediática é fundamental para desenvolver a capacidade de analisar criticamente a informação. Ao aprender a identificar fontes confiáveis, a reconhecer técnicas de manipulação e a verificar factos, podemos evitar cair na armadilha da falsidade informativa.
Esta é particularmente perigosa quando ocorre sobre saúde.
Entre outras, a propagação de teorias da conspiração sobre vacinas, representa um perigo real para a saúde pública. Da mesma forma, as fake news podem incitar ao pânico e à violência, ameaçando a segurança das comunidades.
Elas também são frequentemente utilizadas como ferramentas de manipulação política, social e económica. Ao explorar preconceitos e medos, alimentam a polarização e o extremismo.
É verdade que, em tudo isto, há uma responsabilidade individual. Cada pessoa tem liberdade, podendo escolher ser um consumidor crítico de informação ou um ingénuo recetor de matérias que apenas não contesta por medo que lhe faltem argumentos.
É fundamental verificar a veracidade das notícias, antes de as partilhar; questionar as fontes e procurar informações de proveniências credíveis e origens confiáveis.
É preciso que cada um desenvolva o pensamento crítico, para não ser manipulado e para não se tornar mais um veículo de propagação de matérias, quiçá, perigosas e destruidoras.
Deveria haver uma forma de responder massivamente às fake news, de modo que estas não transformassem o nosso sereno chão existencial em areias movediças, mas isso parece inalcançável, pelo menos, quando pensamos no que, nestes tempos, temos disponível.
Em suma, as fake news representam um desafio complexo que exige uma resposta multifacetada. Ao promover a educação mediática, a responsabilidade individual e a ação coordenada das plataformas online, poderíamos construir um ambiente informativo mais saudável e confiável, embora, neste enquadramento, ainda não tenhamos disponíveis vacinas eficazes contra esta perigosa pandemia que nos leva ao sempre alerta, como processo de tratamento.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt









