Editorial 7M – Um dia feliz

| 5 Out 19

Hoje é dia de alegria para os católicos e para todos os homens e mulheres de boa vontade. Em São Pedro, um homem que encarna e simboliza boa parte do programa de Francisco para a Igreja Católica recebe as insígnias cardinalícias. É português, mas essa é apenas uma condição que explica a nossa amizade e não é a fonte principal da alegria que marca o dia de hoje. José Tolentino Mendonça é feito cardeal por ser poeta, homem de acolhimento e diálogo. E, claro, por ser crente. Não um crente qualquer. Antes alguém que procura Jesus, titubeando na fragilidade de uma fé que tanto O sente revelado e presente, como ausente na noite do Seu silêncio. Um homem de fé que comunica e partilha sem falsas humildades e enorme despojamento os mil percursos dos seus encontros e desencontros com Deus.

José Tolentino Mendonça é poeta. E esta é, talvez, a sua condição primeira. Alguém que utiliza a palavra não para doutrinar, ordenar, legislar, fixar, castrar. Ao contrário, a sua poesia é lugar de procura, partilha e chamamento a um sentido e uma vida mais humanos, mais abertos à beleza, à contemplação do outro, do Outro, que suscita o que de melhor cada um, cada uma transporta dentro de si. A sua palavra não é norma. É desafio, busca fraterna de Deus e convocação de comunhão. Assim Francisco sonha a Igreja.

José Tolentino Mendonça fez-se também na prática constante do acolhimento e do diálogo. Acolhendo não para trazer para si, mas acolhendo saindo de si para estar diante, para ser com. Acolhimento que não é feito de receber em casa, mas construído no movimento repetido de ir até onde o outro está. Deslocação às margens, às periferias, aos que não se reconhecem de Deus, aos que não são reconhecidos como gente, pessoas, cidadãos, bem-vindos. E descobrir-lhes a graça escondida, o jeito único de serem homens e mulheres, comungando das suas aflições, derrotas e inquietações. Esse acolher baseado na qualidade do diálogo exigente que não evita as questões dolorosas, as interrogações mais derradeiras e o desespero mais profundo, antes as escuta reconhecendo-as como suas, é a condição do encontro. Do encontro com as mulheres e os homens do nosso tempo que Tolentino Mendonça personifica e que a Igreja de Francisco deseja construir com todos.

Por todas estas razões hoje é um dia feliz. Uma tarde luminosa marcada por um acontecimento esperançoso para a Igreja Católica e para o mundo. E a alegria particular do mundo português nada tem a ver com pequenos ou grandes chauvinismos. Radica apenas no facto de a língua portuguesa ser indissociável do homem que hoje Francisco escolheu para o cardinalato: o poeta José Tolentino Mendonça.

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