
Jerusalém: “as muralhas da Cidade Velha, a Cúpula da Rocha e um sem número de minaretes; o cemitério judaico estendido pela encosta, tão enorme e tão branco…” Foto © Marta Saraiva
Os olhos vão chegando ao final do Verão carregados de paisagem. Lagos, montes, desertos e um oásis pelo meio, as planícies e praias de sempre, o Douro – fruto literal da videira e do trabalho do Homem –, e um sem número de lugares. E a Cidade Santa. Jerusalém. Monte das Oliveiras, final da tarde.
A agonia no horto terá sido por aqui. Ao contrário do que imaginara, não é um lugar estranho, sem contexto, desgarrado. Devia ter interiorizado isto por agora, já lá vão seis dias de geografia da salvação, mas cada lugar surpreende à sua maneira. É um sítio recatado, separado das muralhas da cidade por um antigo vale, e de onde se via – e talvez ouvisse, na altura – perfeitamente Jerusalém.
Há uma só coisa a fazer neste lugar: companhia, por uma hora. Só podia ser esta a proposta. Uma hora. Pedro, Tiago e João não conseguiram, eu hei de conseguir. Afinal de contas, eu sei como a história acaba, eles não sabiam. Vamos a isso.
Estaria frio, calor, vento? O que teriam levado consigo? Que horas seriam? O Evangelho diz só que foi a seguir ao canto dos Salmos. Como chegaram até ali? O que teriam pensado os outros nove? E aqueles três, o que sentiriam? O lugar começa a compor-se, o cenário a desenhar-se, isto está a correr bem, não vou adormecer, não me vou distrair, não tarda chego ao século I… e um carro buzina. Ao longe, mas audível.
Bela chamada ao século XXI. Tentemos voltar ao cenário, estava tudo a correr tão bem… só que já não dá. Vou ter de ficar no calor abrasador de Agosto de 2022: as muralhas da Cidade Velha, a Cúpula da Rocha e um sem número de minaretes. Uma minúscula cruz no topo de uma igreja ao longe. O cemitério judaico estendido pela encosta, bizarro e escandaloso de tão enorme e de tão branco. Quem expõe os seus mortos assim? E toda uma cidade em pleno, com ruído, cheiros, carros e pessoas e movimentos a rodos. Não como naquela Quinta-Feira à noite, mas quase.
Ao olhar novamente para a cidade, dou-me conta de que Jesus não terá precisado de revelações para antecipar o que aconteceria daí a umas horas. Conhecia a lei, os costumes e o emaranhado do poder bem o suficiente para antever o resultado do julgamento e o que se lhe seguiria. E todos os rituais da Páscoa. E a fragilidade dos seus discípulos. Nem o percurso que iria fazer até ao Calvário seria inteiramente desconhecido. Como qualquer um de nós faria, procurou um sítio conhecido e familiar para passar esta hora.
Mais do que a violência, é a humanidade da cena que interpela, desconcerta e causa desconforto. Ou a sua crueza, não sei bem. Ou o realismo.
Imaginei sempre que o mundo tinha parado em espanto naquelas horas ou que se recolhera quase em protesto. Mas foi um dia igual aos outros. Mais uma Páscoa, com toda a azáfama própria da festa, mais um julgamento, mais umas condenações à morte, mais um prisioneiro amnistiado. Como nos anos anteriores, e como nos que seguiram.
Enquanto Jesus era julgado e flagelado, enquanto passava com a cruz e foi crucificado, Jerusalém não se desviou do seu dia. Havia tanto a preparar, a comprar, a vender, a cozinhar, a pagar, a despachar, a tratar, a fazer. E era só mais um condenado. Sim, muitos foram ver, outros tantos não, alguns ter-se-ão interrogado e chocado, e outros ter-se-ão sentido satisfeitos e seguros, e os soldados romanos estavam a fazer só o seu trabalho. Ter-se-ão assustado ali por volta das três da tarde, só isso. E o véu do templo terá sido reparado assim que possível. Ao final da tarde, teriam quase esquecido o que acontecera e o que viram. A turba estava apaziguada na sua raiva e ressentimento. Jesus morrera – apesar de todo o espectáculo – sem grande história.
Ao olhar novamente a cidade, apercebo-me que começou – discreta e quase subterrânea – uma nova história. Uma história pessoa a pessoa. No coração do centurião romano, no do bom ladrão, no das mulheres que encontram o sepulcro vazio, no de Maria Madalena e novamente no dos discípulos. Consigo quase vê-los e ver cada lugar. E que continua por Emaús, no regresso à Galileia, e que se expande pela Estrada de Damasco, por Roma, cada vez mais e mais longe de Jerusalém. De repente, o haver relativamente poucos cristãos na terra onde Jesus nasceu, viveu e morreu é a coisa mais natural do mundo. Nada do que aconteceu em Jerusalém naqueles dias poderia ter ficado ali, de tal forma era preciso contá-lo ao mundo. Era e é.
A hora termina com a chamada da mesquita mais próxima para o Maghrib – a oração logo imediatamente a seguir ao pôr do sol – a enviar-me, e bem, para o meu lugar nesta história.
Marta Saraiva é diplomata, exercendo atualmente funções na Missão de Portugal junto do Conselho da Europa.










