Um exercício lento e sólido de teologia bíblica

| 12 Jul 20

No deserto pleno de ruídos em que vivemos – de notícias e conferências, de estradas engarrafadas e redes sociais saturadas –, é possível ver surgirem vozes de pensamento, de sabedoria sobre o que nos rodeia e nos habita. As páginas deste livro constituem uma dessas vozes. Cabe-nos escutá-la.

Biblista já conhecido entre nós, o bispo António Couto oferece-nos nestas páginas o encontro entre a sabedoria bíblica, o pensamento filosófico de inspiração humanista que percorreu o século XX e a falta de horizontes e de compaixão que marca os nossos dias, herdeiros de uma razão fechada em si mesma no sujeito individual, que pensa em si e a partir de si. Com destaque para o filósofo judeu Levinas, o autor dialoga com as pistas do Deus bíblico de graça e de luz geradora, que rompe os nossos ouvidos e olhos fechados para o próximo que nos interpela, fazendo-nos descobrir o seu rosto através da hospitalidade. Tudo se decide na escuta de uma Palavra de esperança, de uma narrativa de responsabilidade, da liberdade gerada pelos apelos que habitam a nossa vida. Páginas intensas, trabalhadas ao longo de anos densamente povoados por leituras e encontros: um exercício lento e sólido de teologia bíblica, unido ao desejo quase maternal de transmitir algo de precioso a um tu que é o leitor.

“Deus entra-nos pela casa adentro, sem bater à porta e sem pedir licença, e elege-nos, sem previamente nos ouvir, marca-nos com uma eleição que não prescreve nunca, confia-nos uma missão que não podemos rescindir, entrega-nos um Amor a que não nos podemos subtrair, dado que o outro por quem sou responsável, o amado, é, para o ‘eu’, único no mundo. Na verdade, compete-nos viver o dia-a-dia, saboreando e respondendo a Deus e ao próximo mais próximo com um amor imenso e intenso, uma liberdade dada, recebida e agradecida.”

Em textos que alternam na dimensão, desde o artigo mais extenso às breves “notas”, o Autor vai fazendo passar diante dos olhos do leitor os paradigmas que, muitas vezes inconscientemente, percorrem e alimentam as nossas opções na moderna sociedade ocidental. A sabedoria bíblica entra, na maioria das vezes, em conflito com estes paradigmas, tal como os longos capítulos imprecatórios dos livros proféticos; mas, no final, tal como a Palavra divina se converte em salvação para um resto que é mediação universal de salvação, também os fios da Palavra geram, hoje, no coração da história, testemunhos de bondade, justiça e esperança. Tal poderá ser, também, o testamento que o Autor, verdadeiro percursor em Portugal dos estudos de teologia e espiritualidade bíblicas, nos lega.

“Sou dos que penso que poucas coisas nos é dado verdadeiramente escolher. Sou cada vez mais levado a entrever que o veio mais fundo e fecundo que vai urdindo a nossa identidade e unicidade – que é aquilo que só eu posso fazer, e ninguém pode fazer em vez de mim –, não depende de nenhuma das nossas escolhas, pois vem de fora de nós, de antes de nós, de antes de a nossa memória registar qualquer sinal, de antes de podermos avançar algum ato meritório, de antes do ventre materno, de antes de antes. Vem do ‘amor fontal’ de Deus, nosso Pai.”

 

Leitura do Tempo em que Vamos, de António Couto
Edição: Aletheia, 140 páginas

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