Mais Uma Rodada

Um filme com muitas rodadas, quero dizer, com muitas camadas

| 21 Mai 21

mais uma rodada filme thomas vinterberg

“O que fica do filme não é ser uma história moral sobre o alcoolismo, mas sobre a importância de viver e celebrar a vida libertada da pressão familiar, profissional e social.”

 

Mais uma Rodada é um filme muito mais interessante do que pode parecer ao ‘primeiro gole’. Eu próprio tive de beber ‘mais um copo’ (a ajuda de um olhar feminino) para poder saborear melhor algumas das muitas qualidades organolépticas que o filme oferece.

Na minha breve experiência de professor de Português (no Seminário do Bom Pastor), lembro-me de que havia um texto de Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, de Alves Redol, onde aparecia esta frase: “Um homem não chora, ainda que veja as tripas de outro de fora” (cito de cor). E lembro-me também de que pedi aos alunos (todos rapazes) que escrevessem uma composição com o título: “Um homem também chora”.

Pois bem, este filme de Thomas Vinterberg é de homens, sobre homens e feito sobretudo por homens (mas não apenas para homens) que desmonta o machismo a partir de dentro. Homens que sentem e sofrem, e são capazes de falar sobre isso uns com os outros, expondo as suas fragilidades: o casamento que não vai bem, a solidão, a falta dos filhos que nunca tiveram, a busca de um sentido para a existência. Não é por acaso que Kierkegaard é uma citação recorrente.

Homens que se cuidam uns aos outros, como aquele que trata da casa e cozinha para o amigo perdido no alcoolismo, ou o professor que consola o jovem aluno que chora sozinho e escondido num canto da escola, completamente esmagado pela pressão dos exames, ou ainda o filho que recolhe da rua o pai, inconsciente pelo excesso de álcool, e o deita na cama. Afinal, nós não somos uma construção isolada, mas fazemo-nos na relação com outros.

Homens capazes dos maiores gestos de ternura, mesmo nas funções em que se pede firmeza, como quando o professor aceita e segura a mão do seu mais frágil jogador. Homens que celebram as vitórias uns dos outros, como quando esse pequeno e pouco hábil jogador, de quem nada se esperava, marca o seu primeiro golo e nas bancadas os amigos gritam que o amigo é o maior treinador do mundo.

Homens que se capacitam uns aos outros, como faz o treinador quando coloca os seus pequenos jogadores de mão no peito a cantar o hino. Homens que se olham e estão atentos, como o filho que, muito antes da mãe, repara no que está a acontecer ao pai. Homens que dançam e se tocam em liberdade, sem nenhuma sombra da homofobia a tolher-lhes os gestos. Sem vergonha. É a coisa mais natural do mundo.

Nada aqui deixa transparecer essa arrogância tola do boys will be boys, pelo menos não no sentido a que os últimos tempos nos têm habituado. A camaradagem aqui é alegre e leve, em nada ferindo o outro sexo, cheia de bom humor, como quando, para cumprir o pedido da mulher para não se esquecer de comprar bacalhau fresco, e estando este esgotado na loja, vão tentar pescá-lo na marina.

Disse no início que este filme é muito mais interessante do que parece à primeira vista porque a verdade é que se trata de um filme onde se bebe, e muito. É mesmo o álcool que liberta aqueles quatro professores amigos que começam por se reunir num jantar para festejar o aniversário de um deles. É nessa circunstância que outro deles lembra a teoria de um filósofo norueguês que defende que o homem nasce com um nível de álcool no sangue muito baixo, 0,5º – menos do que o ideal e, portanto, deve ser compensado para que a vida mantenha a energia e entusiasmo necessários.

É um jogo muito perigoso, mas eles decidem fazer a experiência, que resulta. Qualquer um deles, seja na escola seja em casa, fica transformado para melhor. Mas acabam a exagerar, o que vai ter consequências bem complicadas, sobretudo sendo eles professores. Tudo isto no meio de cenas hilariantes, acompanhadas com o amargor que o álcool em excesso deixa sempre, na manhã seguinte.

No entanto, o que fica do filme – um filme em aberto, como sugere o magnífico final – não é ser uma história moral sobre o alcoolismo, mas sobre a importância de viver e celebrar a vida libertada da pressão familiar, profissional e social. Só assim se conseguirá ser feliz e fazer felizes os outros, tornando possível ser aquilo que se é.

O álcool, bebido daquela maneira, não é o caminho certo, como eles percebem no final, mas foi o revelador. Há uma aprendizagem que ficou e eles nunca mais serão os mesmos. Nem eles nem os seus alunos. E isso parece ser o mais importante.

Um filme a ver, sobre a necessidade de viver, apesar da tragédia que é a vida se não descobrimos a amizade e o amor que a habitam, nem que seja num bom copo de vinho.

 

Título: Mais Uma Rodada
Título original: Druk, de Thomas Vinterberg
Com Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Magnus Millang e Lars Ranthe
Comédia dramática; SUE/DIN/HOL, 2020, Cores, 117 min.

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar).

 

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