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Imagem do filme Noite e Nevoeiro, de Alain Resnais

Curtas de Vila do Conde

“Um filme não é a reprodução de um lugar, mas a produção de um olhar”

| 19/07/2022

O campo de extermínio de Auschwitz, numa imagem do filme Noite e Nevoeiro, de Alain Resnais.

O campo de extermínio de Auschwitz, numa imagem do filme Noite e Nevoeiro, de Alain Resnais.

 

Um silêncio gélido atravessou a sala quando começou Noite e Nevoeiro (1955), de Alain Resnais, cineasta, nome cimeiro do documentarismo mundial. As imagens traduzem o horror do extermínio nazi e uma voz off vai relatando a barbárie de milhões de judeus em Auschwitz e Majdanek. A guerra terminou em 1945, ou seja, 10 anos antes de Resnais produzir o filme e as imagens de rostos esqueléticos à beira da morte terem sido recolhidas pelos repórteres de guerra dos exércitos aliados após a libertação dos campos. E, no entanto, após a barbárie, será que o tempo varreu tudo e já só resta a memória? Em contraponto a Noite e Nevoeiro foi exibido Em Memória do Rock (1963) de François Reichenbach, outro notável exercício sobre um acontecimento épico, desta vez sobre a história do rock francês.

“Dois documentários/dois estilos” foi outra surpresa na programação do Curtas, ou seja, um convite imperdível ao espectador para pensar dois filmes produzidos com uma distância temporal concreta e abordagens diametralmente opostas. Daí, a certeira observação de João Lopes: “Um filme não é a reprodução de um lugar, seja ele qual for, mas sim a produção de um olhar”.

“Como foi possível a barbárie?”

Quase 80 anos depois dessas imagens, quais são as conexões e a reflexão perante a crueldade de Auschwitz e a contagiante alegria dos concertos de rock’n’roll? Como é óbvio, não existe nenhuma similitude entre os dois documentários. Apenas uma questão poderá, em termos estéticos e estilísticos, dar lugar a diferentes abordagens e leituras: em Resnais a pergunta é: “O que aconteceu e como foi possível a barbárie”; em Reichenbach a questão é mais prosaica: “O que está a acontecer”.

João Lopes, professor, crítico de cinema e argumentista, veio ao Curtas comentar as duas obras. E fê-lo de uma forma pedagógica, mantendo sempre viva a curiosidade do espectador, excelente capacidade de saber comunicar. Na “aula de cinema”, contextualizou e selecionou uma mão cheia de filmes – Os Dez Mandamentos (Cecil B. DeMille); Gigante (George Stevens) Escrito no Vento (Douglas Sirk); Primavera Precoce (Ozu) e O Pintor e a Cidade (Oliveira) – e constatou um facto: todos os filmes foram produzidos em 1956 e, como tal, são contemporâneos de Noite e Nevoeiro.

“Há outra maneira de dizer isto: a emergência do filme de Resnais pertence a um tempo em que o cinema estava a viver muitas e fascinantes convulsões de temas e linguagens, ou se preferirem, insistindo no nosso mote: convulsões de estilos”, esclareceu.

Noite e Nevoeiro, lembrou João Lopes, “é um filme que nasce de uma das mais radicais, e também mais primitivas, questões do documentarismo. É uma questão que podemos formular a partir de uma pergunta infinitamente simples e infinitamente complexa: como dar conta daquilo que aconteceu?”.

Em síntese: revisitar este filme no tempo que passa – com outras nuvens a ensombrar a Europa –, constituiu uma enorme emoção e, para todos os espectadores e em especial os jovens cineastas que tiveram a rara oportunidade de partilhar este acontecimento, foi uma estimulante experiência sobre história, cinema e memória.

 

Música e cinema

O segundo filme, À la Mémoire du Rock (1963) de François Reichenbach, também foi produzido numa época de fortes alterações políticas, económicas, sociais e culturais. Em Inglaterra, os Beatles tinham acabado de lançar Love Me Do (1962); nos EUA aconteceria o Festival de Woodstock (Agosto de 1969) e em França a moda do yé-yé ultrapassou fronteiras e as canções de Sylvie Vartan, Johnny Hallyday e Françoise Hardy (quem não dançou ao som de Tous les garçons et les filles…?) faziam as delícias dos adolescentes.

Uma vez mais, a memória e as relações com a música voltaram a emergir no cinema: Jailhouse Rock / O Prisioneiro do Rock’n’Roll, de Richard Thorpe, com Elvis Presley; L’Ascenseur pour l’Échafaud /Fim de Semana no Ascensor (1958), de Louis Malle, cuja banda sonora é composta e interpretada por Miles Davis; Rio Bravo (1959), de Howard Hawks, com John Wayne, Dean Martin, Walter Brennan e Ricky Nelson que, na altura, tinha apenas 18 anos e já era considerado uma figura emergente do rock’n’roll, ainda com raízes country; e Os Verdes Anos (1963) de Paulo Rocha, “retrato de uma nova juventude, uma nova cidade”, com música de Carlos Paredes; A Hard Day’s Night / Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso (1964), de Richard Lester e À la Mémoire du Rock, com novas estrelas da música, Johnny Hallyday e Edyy Mitchell.

A exibição/apresentação dos dois filmes deixou outras pistas de leitura e confronto na “relação das palavras com a música e da música com as imagens” (no caso de Resnais) e o “combate formal entre aquilo que se mostra e aquilo que se ouve” (no caso de Reichenbach). E aqui, ao arrepio de tudo, o espectador é reconfortado com o célebre 3º andamento, Minuetto, do Quinteto de Cordas, do compositor Luigi Boccherini, publicado em 1771. Ou seja, quase três séculos antes de os dois filmes terem sido produzidos. Por isso, concluiu João Lopes: “A moral da história é que o tempo nunca é linear. Ou ainda: quando convocamos o passado, é porque estamos, de alguma maneira, a encarar esse passado como algo que continua a pertencer ao nosso presente.”

 

Manuel Vitorino é jornalista

 

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