Um género de ideologia

| 14 Ago 19 | Entre Margens, Últimas

“Se por vezes sinto dúvidas sobre o destino da Humanidade, não tem tanto a ver com as manifestações de insensatez e violência que vou testemunhando, mas com a indiferença perante as mesmas.” (José Eduardo Agualusa)

 

Já houve quem escrevesse que a ideologia de género não existe. Já houve quem escrevesse que quem defende a igualdade de género esconde uma ideologia. Falemos, pois, da realidade e avaliemo-la à luz não de uma ideologia, mas de duas: a ideologia da igualdade e a ideologia dos que clamam contra a ideologia de género.

Narro aqui sete casos reais de vítimas de violência ou discriminação por questões de género. Anonimizo todos os casos. São reais. Conheci-os de perto.

A A. tem 16 anos. O namorado opina sobre como ela se veste, controla o telemóvel para saber com quem fala. Força-a a beijá-lo mesmo quando ela não quer. Humilha-a em frente de amigos. A A. sente vergonha de falar do que está a sentir e a viver. E por isso isola-se. E sofre sozinha, legitimando com o seu silêncio que a violência vá aumentando. Muitas jovens experimentam o mesmo que a A. vive.

O B. habituou-se desde pequeno a ver a mãe a ser agredida pelo pai. Verbalmente, fisicamente, psicologicamente. Todos os dias. A mãe é agredida e pede desculpa, porque foi ela que irritou o marido. O B. cresce sem perceber que este seu dia-a-dia não é um caso de normalidade.

A C. sempre foi acarinhada pelos amigos da família. A C., já adulta, começou uma relação homossexual, sendo hoje casada com a H. Esses amigos da família continuam a cumprimentá-la, mas quando se juntam entre eles, já não se referem à C. pelo nome. Passou a ser a “fufa”. Ela sabe, mas não está para se aborrecer, embora esteja ofendida, por ter perdido o nome e por ter passado a ser mais importante a sua cama do que a sua pessoa.

O D., jovem adulto, na instituição em que estudava, foi seduzido por um dos responsáveis pela sua orientação. Sofreu e, quando houve rumores, foi expulso. O responsável, mais velho, ficou. Para que não houvesse escândalo.

A E. é transexual. Na escola, um professor recusa-se a tratá-la pelo nome adotado. Outro não o faz, exceto quando ela se porta menos bem. O castigo infligido é trata-la pelo nome que já não usa. Assim, humilha-a.

O F. é um adolescente homossexual. Nunca disse a ninguém. Contudo, os seus colegas de escola sentiram-se no direito de o perseguir por ele não “aparentar” ser heterossexual. O F. entrou em depressão. O pai é caçador e foi com a arma do pai que disparou contra si próprio. Hoje o F. é tetraplégico e quase não fala. Porque a sua sexualidade incomodava os outros.

O G. foi abusado por uma pessoa próxima, chegada ao seu círculo familiar, nas mãos de quem o confiavam todos os domingos. Nunca falou. Porque tinha vergonha. Porque não se podia falar de sexo. Era indecente.

 

Talvez a experiência da dignidade…

Talvez a A. pudesse ter beneficiado de um ambiente escolar onde se falasse abertamente de violência no namoro. Talvez o namorado da A. pudesse beneficiar de uma educação em que tinha aprendido que a violência é desprezível e que homens e mulheres têm a mesma dignidade.

Talvez o B. pudesse ter na escola exposição a mundos alternativos face àquele em que cresce. Talvez pudesse ser exposto a campanhas contra a violência doméstica e encontrado adultos ou instituições com quem falar para proteger a sua mãe. Talvez não tivesse tido de esperar pela morte da mãe para se aperceber de que não havia nenhuma normalidade no que vivia.

Talvez a C. pudesse ter um ambiente em que se pudesse chamar C. e continuar a ser acarinhada. Talvez o jovem amigo da família percebesse que o seu irmão, quando começou a namorar com uma rapariga, não passou a ser referido como o “hétero”. Talvez quando questionado sobre a forma agressiva de se referir a C., não dissesse que ela era imoral, sem questionar a imoralidade do seu comportamento agressivo. Talvez este jovem pudesse ter tido uma educação que não legitimasse o ódio e o desrespeito.

Talvez o D. não tivesse de viver a expulsão em silêncio. Talvez não tivesse perdido a Fé. Talvez não tivesse andado perdido e desorientado durante os anos seguintes. Teria sido possível se pudesse ter falado, sem ser em segredo ou sussurrado. Escondido. Alienado. Se o D. tivesse tido uma escola em que as diferentes orientações sexuais fossem faladas abertamente, talvez não tivesse confundido vocações.

Talvez a E. pudesse ter vivido a experiência da aceitação na sua escola. Por todos. Talvez ninguém se devesse ter sentido no direito de a humilhar, se todos tivessem aprendido a respeitar a diferença.

Talvez o F. não tivesse dado um tiro na cabeça, se na sua escola não fosse gozado pela sua orientação sexual. Talvez os agentes de bullying não vivessem agora na tortura de lidar com o que fizeram, se tivessem tido momentos de esclarecimento.

Talvez o G. pudesse ter denunciado se, na sua família, na sua escola e na sua comunidade, o sexo não fosse tabu.

Talvez todos tivessem tido a experiência da dignidade. Talvez a todos tivesse sido negada a experiência da violência. Talvez todos tivessem com quem falar.

Talvez vissem respeitados os seus direitos constitucionais. Como pessoas. Iguais a todas as outras.

 

A agenda cristã é a de um Deus de amor

A liberdade de educar não legitima a omissão que permite a violência, a segregação e a discriminação. Essa ideologia, que usa a liberdade de educar como o cavalo de Tróia para branquear a violência de género, nunca é referida como ideologia. A liberdade de educar não é superior ao direito de não ser violentado.

A ideologia da igualdade – essa sim, dizem eles – é que é pecaminosa e suscita análises dos que se dizem sem ideologia, mas vivem enredados nas suas contradições. A contradição de uma biologia que se assume como fonte do binarismo, mas que se deve contrariar quando o seu produto não é binário. A cultura que é fonte da negação da biologia, exceto quando a cultura de uns se deve sobrepor ao que a biologia escolheu para outros. A inconstitucionalidade da proteção dos direitos, ao arrepio da constitucionalidade da proteção contra a violência.

Uma escola que não educa para a paz é uma escola que, direta ou indiretamente, legitima o ódio. Felizmente, a agenda cristã não é a do ódio, nem da violência que a omissão e o silêncio legitimam. Foi e deverá continuar a ser a de um Deus de amor que olha para todos como livres e iguais.

Mais do que ideologia de género, nasce, em vários locais e cabeças, um género de ideologia: a da opressão e a da repressão da diferença, porque uma alegada imoralidade, vista e catalogada por uns, se sobrepõe à humanidade de todos.

 

João Costa é professor universitário e desempenha actualmente o cargo de secretário de Estado da Educação; subtítulos da responsabilidade do 7MARGENS.

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