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José Cardoso Pires, biografia, Bruno Vieira Amaral

José Cardoso Pires por Bruno Vieira Amaral

Um Grande Homem: Integrado Marginal

| 25/09/2021

“O grande homem é o menos amado dos seres”
(Nelson de Matos, editor)

“A força de um artista vem das suas derrotas”
(Manoel de Barros, citado por Carlos Maria Antunes)

José Cardoso Pires, biografia, Bruno Vieira Amaral

Foto da capa de Integrado Marginal, biografia de José Cardoso Pires escrita por Bruno Vieira Amaral (ed. Contraponto).

 

Integrado Marginal foi leitura de férias junto ao mar, entre nevoeiros e nortadas que me levavam a recorrer a esplanadas cobertas para ler enquanto tomava um café bem quente. Moledo do Minho no seu inquieto esplendor… e capricho!

Tinha lido algumas obras de José Cardoso Pires: Lisboa. Livro de Bordo (feito para a Expo 1998); O Burro em Pé (livro para crianças); Alexandra Alpha; De Profundis: Valsa lenta; O Delfim. Foi interessante revisitar e saber mais sobre o [sempre penoso] processo de elaboração dos seus livros pela mão de um outro grande escritor, Bruno Vieira Amaral: três anos de pesquisa para produzir esta obra através de leituras sucessivas e aprofundadas dos livros de José Cardoso Pires, entrevistas, consulta de documentos, cartas enviadas e recebidas, etc. Um manancial de informação.

Cardoso Pires tem uma escrita difícil, depurada, de grande rigor, quase uma expiação. Sempre me seduziu este escritor na sua irreverência, inconformismo, na permanente inquietação, tudo isto cruzado numa energia vital espantosa. Um homem profundamente livre. Um embarcadiço, um marinheiro. Um homem difícil, contraditório, apaixonado. Foi um resistente à ditadura – Bruno Vieira do Amaral descreve como essa resistência o tornou um escritor “maldito” mas simultaneamente “bendito”. Era um resistente coerente, um homem que dificilmente aguentava “espartilhos” – acabou por deixar o Partido Comunista onde bem cedo se tinha filiado – e por isso viveu quase sempre nas margens, nas zonas sombrias da sua Lisboa amada por onde deambulava, no fora-da-lei e no fora-do-comum….

Seduzira-me o seu De Profundis: Valsa Lenta, uma caminhada de resistência e resiliência, mas também uma caminhada espiritual de alguém que se afirmava ateu convicto, quase militante: uma situação-limite ao nível da saúde (doença vascular-cerebral) e todo o edifício ruiu… para voltar a emergir das cinzas… porque poucos regressam. Cardoso Pires foi um deles. Como se de um milagre se tratasse. Um brilhante e explicativo prefácio por João Lobo Antunes que se inicia por: “Meu caro Zé: Acabo de receber o seu manuscrito. Li-o com o alvoroço da visita a um recém-nascido, cuja gestação se acompanhou de perto.” Ao descrever a sua “descida aos infernos” Cardoso Pires usa metáforas e descrições de cariz “religioso” como “subida ao calvário”, “naufrágio”, “o esvair do presente que é simultaneamente um passado morto”, “sombras falantes”, “deserto”, “olhos toldados de lágrimas”, “um palácio de cristais dourados” por cima do arvoredo do hospital, o roçar da “loucura”. Finalmente aquilo que eu leio como ressurreição: “Até que uma certa manhã acordo em claridade aberta com gargalhadas a crepitarem à minha volta”, experimentando o “sentido da presença”. “E tudo concreto, tudo vivo (…) a consciência de tamanha felicidade”. E continua: “deixara de ficar analfabeto de mim e da vida.” Ao regressar a casa Cardoso Pires senta-se à secretária, “como se estivesse bêbado, a gozar a janela. Tudo isto tinha uma luz espantosa, o mundo parecia-me maravilhoso”. E acrescenta: “O gosto pela vida veio e veio também uma bondade espantosa” (p. 534). Um grande escritor retomando uma vida em abundância… espantando-se com uma bondade que não conhecia existir dentro de si.

O capítulo 52 do livro de Bruno Vieira Amaral, “Sobreviver para contá-la”, descreve este processo mas creio ser fundamental ler “com nossos olhos vistos” a descrição na primeira pessoa desta viagem de Cardoso Pires. Não há palavras que possam descrever uma vivência tão única senão a voz de quem a viveu por dentro. Daí que Bruno Vieira do Amaral nos remeta sistematicamente para o livro escrito pelo punho de José Cardoso Pires. Concluo estas considerações lembrando que De Profundis é um dos mais belos salmos do Antigo Testamento, o Salmo 129 – e dele seleciono alguns fragmentos:

“Do fundo do abismo, clamo a vós, Senhor!
(…) que vossos ouvidos estejam atentos à voz de minha súplica.
(…) Ponho a minha esperança no Senhor. Minha alma tem confiança
em sua palavra.
Minha alma espera pelo Senhor, mais ansiosa do que os vigias
esperando a manhã (…)
Porque junto dele se acha a misericórdia; encontra-se nele copiosa redenção.”

 

Bruno Vieira Amaral explora a vida de Cardoso Pires numa perspetiva “crítico-cultural” tornando-a uma “biografia interpretativa”, segundo Norm Denzin[1]. O livro viaja pela infância de Cardoso Pires, a sua relação difícil com uma mãe dominadora e “beata”, a fuga a um enquadramento que o limitava, os conflitos pes

soais e os conflitos com os outros. Desde a primeira hora se descobre um espírito livre: mas também um homem teimoso, na solitária “deambulação” pela sua Lisboa intensamente amada. Um escritor inquieto e desassossegado que também deambulou por outras paragens: Paris, Londres, Brasil, Estados Unidos, Espanha… Afirma Bruno Vieira Amaral: (…) “A viagem, essa também seria outra. Uma viagem física. Uma viagem espiritual.”

Perpassam no livro os nomes de grandes amigos. Algumas dessas amizades foram tortuosas, contraditórias, repletas de tensões criadas pelo próprio escritor: Luiz Pacheco, Alexandre O’Neill e Mário Cesariny, Fernando Lopes-Graça, Aquilino Ribeiro, Sttau Monteiro, Salgado Zenha (a quem é dedicado o livro O Delfim), Mário Dionísio (uma amizade com altos e baixos), Fernando Assis Pacheco, Óscar Lopes, Maria Lamas, Lídia Jorge, entre outros… não esquecendo a relação difícil e distante com José Saramago. Uma grande e cúmplice amizade se desenvolveu bem mais tarde com António Lobo Antunes. Mas atravessa também o livro uma relação estável e tranquila com a mulher, Edite.

O livro de Bruno Vieira Amaral é também uma lição de história-em-contexto. Através da descrição da vida de Cardoso Pires (1925, Vila de Rei–1998, Lisboa) Bruno Vieira Amaral faz-nos regressar ao que era o contexto social de uma família da pequena burguesia, em tempos “salazarentos”, antes do 25 de Abril de 1974. Depois dos tempos tumultuosos da Primeira República, o povo “queria ordem” (p. 24) e Salaz

ar “entrou em cena” (p. 25). Cardoso Pires foi crescendo, qual “passarinho fechado na gaiola” (p. 26) ao longo de uma ditadura sufocante, nunca se reconhecendo na vida burguesa da sua família – era conhecido por ser “brigão”, pouco adaptado à lógica escolar, apesar de desde cedo lhe reconhecerem o talento para a escrita. Um marginal, achava-se ele.

Efetivamente podemos dizer que, independentemente de toda a sua atividade política, a grande linha de continuidade de Cardoso Pires é a escrita, a busca da palavra, a luta com a palavra, a palavra depurada. Evidentemente que a sua atividade literária era condicionada pela impiedosa censura. Um seu livro – O Hóspede de Job – foi inicialmente publicado em Itália para que a censura não pudesse intervir aquando da publicação em português. Cardoso Pires foi conotado com o neo-realismo português mas o próprio não se identificava com esta “classificação”, nem com os grupos surrealistas que conhecia bem.  Como disse anteriormente era difícil metê-lo num espartilho. Bruno Vieira do Amaral descreve de forma minuciosa o processo de elaboração de cada livro, a edição, a divulgação e os comentários críticos dos jornais.

Integrado Marginal. José Cardoso PiresNo final do prefácio à 15ª edição de O Delfim, Gonçalo M. Tavares afirma: “Que extraordinário escritor! Que extraordinário escritor é José Cardoso Pires!”. Segundo Bruno Vieira Amaral O Delfim “era um livro exigente para leitores exigentes”.

“Integrado e marginal”, Cardoso Pires foi-o até ao fim: “Pudor e impaciência, falta de traquejo, sei lá. Há também a independência, a independência é demasiado impeditiva (…) Pudor e independência, isso é que o lixava.” Desejava “um acabar tranquilo e natural da folha que se desprende da nespereira e se faz estrume” (p. 550).

Bruno Vieira Amaral formula o desejo de que “esta biografia honre a memória de José Cardoso Pires e que traga novos leitores para os seus livros”. Não duvido que cumprirá essa missão.

E agora vou para a Feira do Livro. Talvez encontre mais um dos livros de José Cardoso Pires que não tenha lido. Ou talvez não: talvez simplesmente revisite e saboreie o que já li.

 

Nota
[1] Norman K. Denzin (1989) Interpretive Biography. Califórnia: Sage.

 

Integrado Marginal – Biografia de José Cardoso Pires, de Bruno Vieira Amaral
Ed. Contraponto, 600 páginas, 2021.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e membro do Movimento do Graal; t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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