Meu Deus, desde a manhã cedo eu Te procuro,
todo o meu ser tem sede de Ti,
como terra seca sem uma gota de água a minha alma suspira por Ti…
(Salmo 63,1)
Há milhares de anos que este grito se vai ouvindo com maior ou menor intensidade. Nestes últimos dias temos sido surpreendidos com o enorme sucesso que alcançou Rosalía com o seu disco LUX que traduz este apelo em palavras muito atuais (belo o artigo do Miguel Marujo no 7MARGENS “Rosalía não é uma santa, mas está abençoada”)
Como ela, grande número de jovens não hesita em exprimir os seus sentimentos e a busca de sentido e de luz para as suas vidas. Há algum tempo vemos um aumento de manifestações e devoções religiosas.
Todos gostamos de sentir que as nossas ideias e sentimentos são partilhados. Acontece com clubes de futebol, grupos partidários e, claro, com movimentos religiosos. Há, pois, um entusiasmo geral ao descobrir que se vem desenvolvendo um ambiente de espiritualidade(s) em meios que até há pouco andavam bastante afastados desse mundo.
Também sinto muita satisfação com essa novidade face a tantos que procuram apenas o bem-estar material e de consumo, ou de outros em que sentimos um grande vazio e falta de sentido para a vida. Mas surge, por vezes, muito baixinho e hesitante, a interrogação: não haverá por vezes o perigo de algum “materialismo espiritual”, de uma fixação demasiada em si próprio e na “realização pessoal”? Como se traduz essa espiritualidade na vida quotidiana, na atenção e na relação com os outros, sobretudo os mais distantes e diferentes e que leve a ações concretas de empatia e transformação das “realidades terrestres”?
É muito desafiante pensar que, na Bíblia, a primeira pergunta de Deus é:
Onde estás?
E chamou o Senhor Deus a Adão e disse-lhe: Onde estás? (Génesis 3,9)
E, mais adiante, nova pergunta:
Que fizeste do teu irmão?
O Senhor perguntou-lhe: “Onde é que está o teu irmão?” “Não sei”, respondeu Caim. “Será que sou o guarda dele?” “Que lhe fizeste?” (Génesis 4, 9-10)
Estas duas perguntas estarão sempre interligadas. Deus interessa-se por cada um de nós, procura-nos, quer que sejamos situados, livres e felizes. Como disse Santo Ireneu, “A glória de Deus é o homem de pé, o homem vivo”.

‘O Senhor perguntou-lhe: “Onde é que está o teu irmão?” “Não sei”, respondeu Caim. “Será que sou o guarda dele?” “Que lhe fizeste?” ‘ (Génesis 4, 9-10). Foto Chiado, 7 dezembro 2025. © Lucy Wainewright
Mas segue-se sempre a segunda pergunta “Que fizeste ao teu irmão?”. Pergunta desestabilizadora, muitas vezes incómoda, que nos obriga a sair de um certo patamar de bem-estar espiritual e nos faz descer à vida concreta com os seus desafios e apelos. Penso em Pedro que na montanha da Transfiguração se sentia tão bem que exclamou “é bom estar aqui, façamos três tendas” (Lc 9, 33) mas, com Jesus, teve de descer e retomar o caminho para Jerusalém.
E é nos caminhos da realidade que nos cruzamos. Olhando e sendo olhados, ajudando a construir um mundo de “erguidos” livres e realizados.

“É nos caminhos da realidade que nos cruzamos. Olhando e sendo olhados, ajudando a construir um mundo de “erguidos” livres e realizados.” Foto: solidão tendo como companhia os pombos. © Lucy Wainewright
Jesus deixou-nos uma parábola que nos pode guiar:
Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de ladrões que, depois de o despirem e espancarem, se retiraram, deixando-o meio morto. Por coincidência descia por aquele caminho um sacerdote; quando o viu, passou de largo. Do mesmo modo também um levita, chegando ao lugar e vendo-o, passou de largo. Um samaritano, porém, que ia de viagem, aproximou-se do homem e, vendo-o, teve compaixão dele. Chegando-se, tratou-lhe as feridas, e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte tirou dois dinheiros, deu-os ao hospedeiro e disse: Trata-o e quanto gastares a mais, na volta eu te pagarei. (Lc 10 30-35)
O sacerdote e o levita andavam certamente a tratar de coisas espirituais e religiosas importantes; olharam, mas não viram o que estava a acontecer mesmo ao seu lado, enquanto o samaritano, um estrangeiro e considerado pecador, olhou, viu, interrompeu a sua viagem e agiu…
Jesus concluiu dizendo “Vai e faz o mesmo”.
Lucy Wainewright
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