Basílio do Nascimento (1950-2021)

“Um homem do seu povo, um homem junto do seu povo”

| 30 Out 21

Basílio Nascimento, bispo de Baucau.

“Era um homem do seu povo, um homem junto do seu povo”, diz Ana Gomes. Foto: D. Basílio Nascimento, bispo de Baucau. © Seminário Menor Nossa Senhora de Fátima

 

“Era um homem do seu povo, um homem junto do seu povo”, diz Ana Gomes, embaixadora de Portugal junto da Indonésia, entre 1999 e 2003, a propósito de Basílio do Nascimento, primeiro bispo de Baucau, a segunda cidade mais importante de Timor-Leste. D. Basílio morreu este sábado, na sequência de um enfarte que sofrera antes, em Maliana, a sudoeste de Díli. Transportado para Díli, viria a morrer no Hospital Nacional Guido Valadares. Tinha 71 anos.

Ana Gomes não poupa, em declarações ao 7MARGENS, nos elogios a Basílio do Nascimento: “Era afável, um homem culto, um homem do mundo, que gostava da vida, divertido, arguto.” Tinha, além disso, “um conhecimento do terreno e do seu povo como pouca gente”. Era “um homem com uma enorme capacidade de diálogo e ao mesmo tempo com uma visão crítica das várias crises que era sempre a mais equilibrada e a mais profunda, ao longo destes anos todos”.

Mesmo depois de ter deixado o cargo de embaixadora, Ana Gomes continuou a acompanhar a realidade de Timor-Leste e não tem dúvidas: “Em todas as grandes crises, a visão de D. Basílio era a mais objectiva, a mais acertada, a mais realista sobre o que estava em causa e sobre como ultrapassar a crise; e era a visão mais construtiva, também.”

Os elogios da antiga diplomata portuguesa na Indonésia, potência ocupante de Timor-Leste entre 1975 e 2000, coincidem com as reacções no país ao primeiro bispo de Baucau (administrador apostólico da diocese desde 1996 e depois bispo titular desde 2004) e que foi o primeiro presidente da Conferência Episcopal Timorense desde a sua criação em 2011, com os bispos de Díli, Baucau e Maliana.

 

“Lúcido, uma figura ímpar”

 

D. Basílio Nascimento

D. Basílio Nascimento com Tahur Matan Ruak, 1º ministro de Timor, 2021. Foto reproduzida da página do PM de Timor no Facebook

 

Ângela Carrascalão, professora na Universidade Nacional de Timor-Leste e ministra da Justiça em 2017-18, conta que os comentários em jornais, sites e páginas de redes sociais timorenses são unânimes: “Toda a gente diz que morreu um homem bom, uma figura de excelência, muito inteligente, tolerante e muito sorridente, que teve um papel muito importante em 1999”, quando finalmente a Indonésia autorizou a realização de um referendo, que viria a votar esmagadoramente pela independência do território.

Os políticos aconselhavam-se com o bispo, conta Ângela Carrascalão, que era “muito culto, lúcido e uma figura ímpar da Igreja”.

Ana Gomes confessa ter ficado chocada, “muito combalida” e com “muita, muita tristeza” quando recebeu a notícia, dada por um padre que a recebera a ela e a D. Basílio. A embaixadora esteve em Timor pela última vez em 2019, acompanhando uma equipa para fazer um filme sobre Timor na II Guerra Mundial. “D. Basílio ficou entusiasmadíssimo com a ideia, foi ajudar a identificar sítios onde podíamos filmar, foi mostrar os bunkers construídos pelos japoneses, que ainda lá estão. “Não esperava isto. Ele estava bem, foi completamente inesperado.”

Sempre que ia a Timor, Ana Gomes encontrava-se com o bispo. “Costumava dizer a alguns amigos que não sou religiosa, mas do D. Basílio era devota. Era uma personalidade extraordinária e nunca teria compreendido Timor sem a ajuda dele. Quando eu ouvia versões contraditórias dos diferentes líderes políticos em fases de crise, ter a visão do D. Basílio sobre os mesmos acontecimentos era fundamental, era inteiramente esclarecedor.” E repete, emocionada: “Uma grande perda, uma grande perda. Era de uma extraordinária clarividência, alicerçada num conhecimento profundo.”

 

“Um príncipe, um cosmopolita”

 

Basílio do Nascimento

 Ana Gomes: “É muito duro pensar em Timor sem ter aquele sorriso aberto, franco, e a visão de D. Basílio.”

Nascido no Suai em 14 de Junho de 1950, Basílio do Nascimento esteve a estudar em Paris, de onde saiu em 1982. Nesse ano veio para Évora, onde tinha sido ordenado padre em 1977, e esteve dois anos como pároco de Cano e Casa Branca (Sousel) e Santa Vitória do Ameixial (Estremoz). Em Outubro de 1994 regressou a Díli. Em 30 de Novembro de 1996 foi nomeado pelo então Papa João Paulo II como administrador apostólico de Baucau, nessa altura criada como diocese. Em 2004 foi nomeado bispo titular da mesma diocese e em 2011, com a criação da diocese de Maliana e da Conferência Episcopal Timorense, tornou-se o primeiro presidente deste organismo.

Foi precisamente no período em que já era responsável da diocese de Baucau que Ana Gomes conheceu o bispo, quando se deslocou a Timor-Leste, em Maio de 1999, para conhecer o território antes do referendo que se realizaria no final de Agosto seguinte. Ficou alojada em instalações da nova diocese. “Foram dias inesquecíveis os que passei a percorrer o território, ainda sob ocupação indonésia”, recorda. “Fiquei desde então com uma grande admiração e simpatia por ele. Era um homem culto, cosmopolita, era um príncipe; não era apenas um bispo, era um verdadeiro príncipe, incluindo nas suas capacidades de administração e governação do território e das gentes.”

Nos dias de destruição que se seguiram ao referendo, com milícias pró-indonésias a queimar povoações inteiras e a perseguir e matar indiscriminadamente, Baucau foi salva da destruição graças ao bispo e “ao ascendente que ele exercia sobre o chefe das milícias” locais, conta a embaixadora.

Basílio do Nascimento “preocupava-se com a economia do território, com a cultura”. Ana Gomes maravilhava-se “sempre que estava com ele: sendo um homem que tinha vivido em Paris e Évora, estava ali, adorava a sua terra, desfrutava da terra, gostava de comer bem, de uma boa cavaqueira à roda de uma garrafa de vinho”.

A embaixadora resume: “É muito duro pensar em Timor sem ter aquele sorriso aberto, franco, e a visão de D. Basílio. Ele era um príncipe no sentido de um líder, um condutor do seu território, das suas gentes, era um encanto. É uma perda grande, numa semana horrível, triste, triste para Timor”, depois da morte de Max Stahl, o jornalista que filmou o massacre de Santa Cruz e, com isso, internacionalizou a causa de Timor.

 

“Presença sábia e serena”
 
As três dioceses de Timor-Leste. Direitos reservados

“Em 2004 foi nomeado bispo titular da mesma diocese (Bacau) e em 2011, com a criação da diocese de Maliana e da Conferência Episcopal Timorense, tornou-se o primeiro presidente deste organismo. ” Figura: As três dioceses de Timor-Leste. Direitos reservados 

 

O corpo do bispo Basílio do Nascimento está a ser velado em Díli até segunda-feira de manhã (hora local, noite de domingo em Lisboa). Seguirá depois para Baucau, 130 quilómetros a leste de Díli, onde será sepultado na quinta-feira, dia 4.

Em Timor-Leste e em Portugal, várias reacções lamentaram a morte de D. Basílio. O primeiro-ministro timorense, Taur Matan Ruak, manifestou “enorme consternação e grande pesar”. O porta-voz do Governo, Fidelis Manuel Leite Magalhães, citado na agência Ecclesia, falou no “estimado D. Basílio do Nascimento”.

Em Portugal, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa referiu a “figura marcante da luta pela independência de Timor-Leste” que teve um “papel fundamental” na “defesa da liberdade e democracia no seu país”. Em Dezembro de 1999, o Presidente Jorge Sampaio atribuiu a D. Basílio do Nascimento a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade portuguesa.

O primeiro-ministro, António Costa, escreveu na sua página no Twitter: “Foi com tristeza que tomei conhecimento da morte de D. Basílio do Nascimento, bispo de Baucau. Sempre ao lado do povo e na defesa da liberdade e democracia em Timor Leste. Teve um papel preponderante no referendo sobre a independência do território, em 1999.”

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) também manifestou “profunda consternação”, dizendo que a Igreja em Portugal “muito beneficiou da sua presença sábia e serena, em particular a arquidiocese de Évora” e destacando, de acordo com a agência Ecclesia, o “relevante papel” do bispo na “construção democrática da jovem nação timorense, sendo uma das vozes mais escutadas no período antes do referendo de 1999, sobretudo com os comentários sobre a situação em Timor-Leste”.

 

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