Um imperativo de coerência

| 17 Jan 20

Ao renunciar, num ato de humildade e, seguramente, após longa reflexão, Joseph Ratzinger declarou não se encontrar em condições físicas compatíveis com o exercício das funções de Papa. Após a renúncia, o colégio dos cardeais eleitores escolheu Jorge Mario Bergoglio, o atual Papa Francisco, alguém que tem procurado atender as necessidades da Igreja, ouvir os fiéis e responder às suas inquietações. Revelou-se uma feliz surpresa para a Igreja, apesar dos movimentos de contestação que surgem em várias frentes.

Atualmente, o principal obstáculo que o Papa enfrenta tem sido a existência de um Papa emérito, uma figura híbrida e sem qualquer estatuto ou regulamentação legalmente prevista, como já foi escrito em artigos publicados no artigos publicados no 7MARGENS. Não podem existir dois papas em simultâneo, do mesmo modo que não é concebível a existência de dois reis num só reino ou dois presidentes numa República.

É sinal de sabedoria compreender quando é que já não estamos a fazer jus ao cargo que ocupamos. Em coerência resta deixar que outros venham ocupá-lo confiando que o farão da melhor forma. Todos somos insubstituíveis, na medida em que, seguindo a fidelidade aos valores pelos quais nos queremos pautar, imprimiremos um cunho pessoal em cada tarefa. O mesmo se verifica no papado. A estética e o estilo de Francisco são diametralmente diferentes do de Bento XVI, João Paulo II ou Paulo VI. As pessoas permanecem, as funções que ocupam mudam ao longo da vida e é isso que lhes traz frescura e novidade. Joseph Ratzinger continua a ser padre e bispo emérito de Roma, mas não papa. Daí a necessidade de estabelecer fronteiras, de modo a que não exista usurpação de funções.

Nunca se pensou em legislar canonicamente o estatuto de “Papa emérito” porque não se tinha revelado necessário. Ora, a recente intervenção de Joseph Ratzinger parece demonstrar essa mesma necessidade. De modo a assegurar o exercício de funções do seu sucessor, mas também proteger Ratzinger de um aproveitamento político e mediático que se pudesse fazer dele.

Na ausência de normas, deveria pelo menos existir coerência e respeito pelo rumo da Igreja. No caso de Ratzinger, a consciência da posição mediática que ocupa deveria levá-lo a ter redobrado cuidado com a possível interpretação de tomadas de posição da sua parte. É um imperativo de coerência para Joseph Ratzinger não assumir publicamente qualquer posição perante questões que possam condicionar possíveis reformas a ser implementadas pela Igreja conduzida pelo atual Papa.

É conhecido e comprovado o desejo assumido por Ratzinger em afastar-se do Vaticano logo após a sua renúncia para não interferir com o novo rumo seguido pela Igreja. Recolher-se para uma vida de oração, foi o que anunciou fazer. Contudo, a recente intervenção em conjunto com o cardeal Sarah revela incoerência de posições e princípios.

Ao colaborar com um cardeal conhecido por estar na linha da frente da oposição ao Papa, Joseph Ratzinger demonstra simpatia por uma fação contestatária perante o seu sucessor alimentando assim a divisão no seio da Igreja. Por outro lado, o pronunciamento sobre temas que estão a ser objeto de reflexão por parte da Igreja, após a convocação de um Sínodo, e cujas conclusões não foram ainda anunciadas, demonstra um desejo de antever posições e limitar possíveis alterações que se revelem necessárias. Negando, dessa forma, dar voz ao conjunto dos fiéis, construindo uma fronteira entre a Igreja que queremos e a Igreja no seu conjunto.

É certo que o papa emérito não tem autoridade legislativa. Contudo, é impossível negar que tenha autoridade e peso moral. Nesse sentido, em coerência com a humildade demonstrada no ato de renúncia, deveria abster-se de tecer considerações que colidam com a linha seguida pelo sucessor legítimo.

Mais: será coerente com a vocação universal da Igreja não fazer todos os esforços para garantir o acesso aos sacramentos a todo o Povo de Deus? Ainda que tal implique possíveis mudanças relativamente ao modo de vida dos clérigos? Serão os fiéis que se devem sujeitar às imposições da Igreja ou é o espírito de serviço e compromisso desta que deve responder às necessidades dos seus fiéis?

 

Sofia Távora é estudante de Direito e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.

Artigos relacionados

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Os donativos entregues por 136 leitores e amigos somaram, até terça, 30 de junho, €12.020,00. Estes números mostram uma grande adesão ao apelo que lançámos a 7 de junho, com o objetivo de reunirmos €15.000 para expandir o 7MARGENS ao longo do segundo semestre de 2020. A campanha decorre até ao final de julho e já só faltam menos de €3.000! Contamos consigo para a divulgar.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

CE volta a ter enviado especial para promover liberdade religiosa no mundo

O cargo de enviado especial para a defesa da liberdade religiosa tinha sido extinto no ano passado pela presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, mas as pressões de inúmeros líderes religiosos e políticos para reverter essa decisão parecem ter surtido efeito. O vice-presidente da CE, Margaritis Schinas, anunciou que a função irá ser recuperada.

Papa assinala sete anos da viagem a Lampedusa com missa especial online

O Papa Francisco celebra esta quarta-feira, 8 de julho, o sétimo aniversário daquela que foi a primeira (e talvez mais icónica) viagem do seu pontificado: a visita à ilha de Lampedusa. A data é assinalada com uma eucaristia presidida por Francisco na Casa Santa Marta, a qual terá início às 10 horas de Lisboa, e será transmitida online através dos meios de comunicação do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

O hospital pediátrico Bambino Gesú, em Roma, gerido pelo Vaticano, separou com êxito duas irmãs siamesas de 2 anos, que nasceram unidas pelo crâneo na República Centro Africana. A complexa operação, que durou 18 horas e contou com uma equipa de 30 profissionais de saúde, teve lugar no passado dia 5 de junho, mas o hospital só revelou todos os detalhes esta quarta-feira, 8 de julho, numa conferência de imprensa.

É notícia

Entre margens

Re-cristianizar é preciso! novidade

Muita gente pensa que se eliminarmos a religião da arena pública, também acabarão as noções éticas que (ainda) sustentam a nossa sociedade. Mas para essas pessoas a moral cristã é a mãe de todas as repressões. A sociedade utópica está na música de John Lennon. É preciso deixar de cultivar moralismos “medievais”. Sejamos livres. Sejamos livres para gritar e estrebuchar.

Do confinamento às Minas

Vestígios dos trilhos usados para o contrabando abundante nesta zona da raia. Algum complemento a um salário magro. Histórias de perigos, ousadia, dignidade, persistência e superação. Na aldeia de Santana das Cambas existe um Museu do Contrabando que soubemos estar encerrado.   
Curvo-me perante uma realidade que desconhecia, apenas intuía… Ao olhar para os mineiros envelhecidos e suas famílias passei a vê-los como heróis, príncipes daquela terra, figuras exemplares de cidadania e coragem.

A favor do argumento ontológico

A realidade é um extraordinário abismo de Ilimitado em todas as direções e dimensões. É isto o Absoluto. Não tendo na sua constituição nenhuma descontinuidade, nenhum vazio absoluto (pois nele o nada absoluto [ou Nada] não pode simplesmente ter lugar), o Absoluto é plenitude de Ser. A isto se chega pela simples consideração de que o Nada, precisamente por ser Nada, não existe nem pode existir, pelo que sobra “apenas” aquilo que existe de facto, que é Tudo.

Cultura e artes

Ennio Morricone na liturgia católica em Portugal novidade

Embora músico semi-profissional – pertencia então à Equipa Diocesana de Música do Porto, presidida pelo padre doutor Ferreira dos Santos – desconhecia por completo, em 1971, quem era Ennio Morricone: sabia apenas que era o autor de uma balada cantada por Joan Baez, que ele compusera para o filme Sacco e Vanzetti (1971). Não me lembro como me chegou às mãos um vinil com essa música. Também não tinha visto o filme e não sabia nada dos seus protagonistas que hoje sei tratar-se de dois anarquistas de origem italiana condenados à cadeira eléctrica nos Estados Unidos, em 1927, por alegadamente terem assassinado dois homens…

Um exercício lento e sólido de teologia bíblica novidade

No deserto pleno de ruídos em que vivemos – de notícias e conferências, de estradas engarrafadas e redes sociais saturadas –, é possível ver surgirem vozes de pensamento, de sabedoria sobre o que nos rodeia e nos habita. As páginas deste livro constituem uma dessas vozes. Cabe-nos escutá-la.

Aquilino e Bartolomeu dos Mártires: o “pai dos pobres e mártir sem desejos”

Aquilino Ribeiro, escritor de prosa escorreita, pujante, honrou a dignidade da língua portuguesa à altura de outros antigos prosadores de grande qualidade. Irmanado com a Natureza beirã: aves, árvores, animais e homens. Espirituoso e de fina ironia, é bem o Mestre da nossa Língua. Em “Dom Frei Bertolameu” faz uma espécie de hagiografia do arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), canonizado pelo Papa Francisco a 6 de Julho de 2019.

Ennio Morricone: O compositor que nos ensinou a “sonhar, emocionar e reflectir”

Na sequência de uma queda em casa, que lhe provocou a ruptura do fémur, o maestro e compositor italiano Ennio Morricone morreu esta segunda-feira em Roma, na unidade de saúde onde estava hospitalizado. Tinha 91 anos. O primeiro-ministro, Giuseppe Conte, evocou com “infinito reconhecimento” o “génio artístico” do compositor, que fez o público “sonhar, emocionar, refletir, escrevendo acordes memoráveis que permanecerão indeléveis na história da música e do cinema”.

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco