“Siempre imaginé que el Paraíso sería algún tipo de biblioteca”, intuiu Jorge Luis Borges. No Dia do Livro e dia de São Jorge (23 de Abril), recordei um outro Jorge que, há muitos anos, teve de fazer a barba ao poeta argentino. Não creio que ele tenha de pegar novamente na lâmina de barbear. Imagino-os, todavia, agora, neste preciso momento, sentados na Biblioteca.
Frente a frente, o cristão católico e o cristão agnóstico falam sobre livros, com ânimo, fulgor e entusiasmo. Talvez mencionem Dostoievsky, talvez passem pela poesia de Hopkins, decerto tocarão alguns excertos de Manzoni para, de seguida, partirem por muitos caminhos de conversa, que se bifurcarão e ramificarão, incessantemente.
Aproximam-se alguns vultos. Uns saúdam o seu leitor de sempre, acolhendo-o com alegria naquele lugar inefável aonde acaba de chegar, onde a leitura é incessante. Outros, olham para ele com admiração, mas à distância, com timidez.
Borges, mais habituado à fraternidade celestial, já liberto da cegueira terrena, vai fazendo as apresentações. Jorge Mario ora recebe um abraço apertado de More, ora aperta a mão de Dante, com lágrimas nos olhos, ora admite com relutância uma ou outra vénia, preferindo antes os acenos tímidos dalguns que muito admira ou os apertos de mão calorosos de outros que tanto venera. Todos sabem quem é, quem foi. Ninguém diz, todavia, uma palavra sobre a sua existência terrena. É assunto pretérito, que se irá desvanecendo perante a igualdade, a liberdade e a fraternidade dos leitores naquele lugar.
Devagar, muito devagar, vai-se aproximando um homem que já leva 95 anos de descanso naquela casa da leitura, com estantes intermináveis. Acompanha-o o seu maior amigo, magro, rosto ossudo; chama-se Joaquim (Teixeira de Vasconcelos ou de Pascoaes, no mundo terreno). Vai de mão dada com Maria Angelina. Tem rosto largo, olhar profundo e melancólico, um bigode farto. Passado tanto tempo, ainda cheira às águas férteis de uma certa foz. Leva dois livros na mão.
Jorge Luis apresenta-o. Jorge Mario não se dá conta do nome. Os seus olhos estão já nas capas e nos títulos: “Os Pobres”… “O Padre”. Sem cerimónias, inteiramente apagadas naquela livraria, vira-se para o seu colega de Paraíso:
“És tu este Raul, o Raul Brandão que escreveu estes livros?”
“Sim…”
Toma-os na mão. Vai folheando. Não consegue largá-los. Sente novamente lágrimas a correr pela cara, ao ler algumas passagens.
“És português?”
“Sim…”
“Escreveste estes livros?”
“Sim…”
O rosto de Jorge Mario modifica-se. Murmura vezes sem conta, baixando os olhos, quase com vergonha:
“Como foi possível que nunca os tenha lido…? Como foi possível nunca ter ouvido falar deles? Pensaste antes de mim o que eu pensei e fui proclamando… Se aqui estivesse o poeta, o bibliotecário-arquivista-poeta, não escaparia a uma pergunta minha…”
Jorge vira-se para Raul. Pede-lhe que se aproxime. Abraça-o com força:
“Doravante, se o Bibliotecário permitir, nunca mais sairás do meu lado. Não sabia que tinha um irmão desconhecido neste lugar…”
Ruy Ventura é historiador de arte (CHSC – Universidade de Coimbra), poeta e organizador de Por Mim Fora – antologia de poemas de Sebastião da Gama, publicada no dia 10 pela Officium Lectionis [ver 7MARGENS].










