Um leão chamado Corona

| 15 Abr 20

Segundo um site de notícias fictícias, a Câmara Municipal de Vizela iria soltar trinta leões nas ruas para obrigar as pessoas a manterem-se dentro de casa. Disparate, dirão uns. Que bela ideia, pensarão outros. Mas a receita é velha como o rei Salomão.

 

Claro que a ideia da notícia falsa é uma espécie de projecção do desejo daqueles que percebem que, apesar da maioria dos portugueses estar a cumprir as orientações de confinamento, persistem ainda uns quantos inconscientes que as ignoram, havendo mesmo largas dezenas de cidadãos detidos por desobediência às autoridades. Por isso alguém deve ter imaginado que só mesmo uns quantos animais selvagens à solta fariam observar aquilo que o civismo e a consciência cívica nem sempre estão a conseguir.

Mas a ideia não é nova. Foi invocada por Salomão há milhares de anos, num dos seus livros sapienciais, embora num sentido oposto: “Diz o preguiçoso: Um leão está no caminho; um leão está nas ruas” (Provérbios 26:13). Antes de mais convém esclarecer os cépticos que existiam mesmo leões no Antigo Israel. O facto está mais do que documentado cientificamente. Não seria o leão africano, mas um primo do Médio Oriente, extinto por volta de 1800. Tratava-se do leão-asiático (Panthera leo leo). Consta que Xerxes I perdeu inúmeros camelos de carga quando avançou pela Macedónia em 480 a.C., devido a ataques de leões.

Parece que já naquele tempo havia preguiçosos que inventavam as desculpas mais descabeladas para não saírem de casa a caminho do trabalho. Só que agora há mesmo um leão nas ruas, com a agravante de ser invisível e por isso muito mais perigoso. Este bicharoco é muito mais inteligente do que um animal selvagem, pois, apesar de atacar quem com ele se cruze no caminho, sabe identificar os mais vulneráveis que são aqueles cujo sistema imunitário está debilitado pela avançada idade, pelas doenças crónicas e outras situações clínicas de maior vulnerabilidade.

Curiosamente, vamos começando a ver que enquanto os humanos estão fechados em casa, de quarentena, alguns animais tomam conta do espaço público, numa inversão trágico-cómica dos costumes. Antes íamos ver os animais confinados ao seu espaço, hospedados nos zoológicos, agora são eles que olham para nós e nos observam à janela, a partir da via pública. Agora não é desculpa, é mesmo verdade que o “bicho” selvagem que anda por aí é muito mais perigoso do que um leão porque não se consegue ver.

Mas parece que os fundamentalistas pensam de forma diferente. É o caso do pastor americano Mack Randall Wolford, que em 2012 foi picado mortalmente por uma cascavel que manipulava durante um sermão ao ar livre, na Virgínia Ocidental. Mas existem outros casos idênticos nos últimos trinta anos. A inspiração bíblica para tal idiotice é a leitura literal de Marcos 16:18, que diz: “Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum”. Para esta gente não é preciso chaves hermenêuticas para ler textos com milhares de anos. Esta gente transforma um templo numa sala de espectáculos religiosos em vez de o preservar como um lugar sagrado. Deviam integrar uma companhia de circo e não conspurcar as igrejas.

Recentemente a CNN mostrou um vídeo em que uma mulher americana se dirigia a um serviço religioso na sua igreja. Sendo confrontada pelo jornalista por romper o confinamento e perguntada se não tinha receio de contrair o coronavírus, respondeu que não, pois estava “protegida pelo sangue de Jesus”. Não sei porque não se lança do topo dum arranha-céus, confiante que os anjos a protegerão da queda…

É esta gente que acredita que a Terra é plana e que qualquer político espertalhão que faça umas promessas aos líderes religiosos, se aproxime da sua agenda ideológica e se envolva em actos religiosos é um “ungido de Deus”. Mas temos também aquela devota mariana que esfarrapou os joelhos no santuário de Fátima, ficando depois indignada porque Nossa Senhora não a tinha poupado de ficar ferida tendo em conta o seu sacrifício.

Recentemente, o pastor Landon Spradlin, quando já tinha sintomas da doença, chamou “histeria” às recomendações das autoridades de saúde sobre a covid-19, nas redes sociais, sugerindo que se tratava duma armação da imprensa para prejudicar a imagem de Trump e que os números da doença estavam inflaccionados. Um mês depois morreu devido à pandemia.

Este quadro pandémico vem demonstrar que nas ruas está um “bicho” mil vezes mais perigoso do que um leão, e que a forma de o vencer é mesmo o recolhimento e o isolamento social. A irresponsabilidade de alguns políticos e a infantilização dos líderes religiosos extremistas só tenderão a piorar as coisas e a dificultar este combate decisivo. Os primeiros ainda têm a desculpa dos seus interesses eleitorais (que passam pela economia), mas os segundos dão um triste espectáculo ao mundo, porque, querendo alardear fé, apenas revelam a sua caricatura mais rasca, a fezada

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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