A Comunidade Cristã da Serra do Pilar, em Gaia, está a celebrar os seus 50 anos. Uma exposição alusiva a essa efeméride está patente na Igreja do Mosteiro, onde a comunidade celebra. Para assinalar a data, a comunidade convidou vários antigos membros a fazerem homilias sobre diferentes dimensões da vida da comunidade. A primeira foi feita por Paulo Melo, professor de História aposentado e membro do Metanoia, sobre a experiência do Catecumenato, que durante largos anos marcou a vida daquela comunidade; seguiu-se uma outra de um elemento da Igreja Lusitana do Torne (Comunhão Anglicana), sobre a experiência da relação ecuménica; Margarida Ferreira referiu-se à presidência leiga que assumiu a liderança quando o presbítero Arlindo Magalhães, responsável da comunidade, se ausentou para fazer o doutoramento; e o maestro e compositor Fernando Lapa aprofundou o lugar da música litúrgica.
A seguir publicamos o último texto desta série, da autoria do arquiteto José Nobre, sobre o espaço litúrgico e algum do mobiliário criado expressamente para este lugar.
Sobre a experiência da Comunidade da Serra do Pilar, o 7MARGENS publicou, por altura da morte do padre Arlindo Magalhães, testemunhos de Gabriel David, Margarida Ferreira, Joaquim Félix e Laura Marques.

José Nobre na Serra do Pilar: “Este lugar tem uma vocação natural para fazer parar, descansar, contemplar e restabelecer.” Foto: Direitos reservados
Pela gentileza e condescendência do padre Arlindo de Magalhães, foi-me dado o privilégio de, há cerca de 40 anos, deixar aqui uma marca pessoal, ao conceber quatro peças, do mobiliário deste espaço litúrgico. Enquanto aqui estiverem, farão parte da história desta singular comunidade (de que me sinto um filho espiritual) e serão participantes desse “memorial” que, a cada Domingo, a cada Páscoa se renova, fazendo da Igreja um legado que se projeta no futuro. Citando o primeiro versículo do Salmo 90, “Senhor, Tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração!”
Cumpre-me, então, falar-vos destes móveis – “da partilha fraterna”, da “mesa da eucaristia”, do “ambão” (ou “mesa da palavra”) e do “crucifixo” – em função deste espaço onde, um a um, foram criteriosamente dispostos. A estas quatro peças haveria de acrescentar-se, um pouco mais tarde, o suporte do “círio pascal” desenhado pelo meu colega de profissão e bom amigo José Carvalho, filho do mestre carpinteiro que as executou; e os estrados sobre os quais se elevam as mesas e o lugar da presidência. Relativamente a estes últimos, porém, nada saberei dizer-vos pois são posteriores à minha passagem por aqui (entre 1979 e 1983).

José Nobre, Mesa da eucaristia, em forma de masseira, para a Serra do Pilar (1982). Foto: Direitos reservados.
Para falar deste conjunto, convido-vos a sair das paredes do templo, para observarmos, do alto, a cidade! A Serra do Pilar ergue-se no cruzamento do Douro com a longa avenida que parte de Santo Ovídio, atravessa o rio sobre a belíssima Ponte de D. Luís e prossegue, já sem a mesma determinação, até à Igreja dos Congregados. Enquanto cruzamento de artérias – uma fluvial e outra viária – esta localização geográfica é, em si mesma, a representação da Cidade, de uma cidade qualquer: porque toda e qualquer Cidade é um lugar de encontro, um lugar de trocas, de experiências e de interações sociais… Mas, porque aqui chegamos depois de uma subida, depois de um esforço, este lugar concreto tem uma vocação natural para nos fazer parar, descansar, contemplar e restabelecer. Ora, antes que estes móveis fossem desenhados e construídos já a Comunidade era, essencialmente, isto: uma Casa, de “porta aberta e mesa posta!”, como ainda hoje, a si mesma, se define.
Como a Cidade, a Comunidade da Serra do Pilar é, por natureza, um lugar de Acolhimento e de Encontro; é um ponto de chegada e um ponto de partida!
Quando aqui entrei, pela primeira vez, creio que no ano de 1979, em busca de refrigério e de esclarecimento, já o espaço litúrgico estava assim ordenado, se bem que com um mobiliário bem mais precário. Não me foi difícil, então, perceber que era no cruzamento das linhas de força, do espaço circular, que estaria a estrutura dos dois primeiros móveis que concebi: o da “partilha fraterna”, que datará de 1981, e o da Eucaristia, do ano seguinte. O primeiro tem quatro faces iguais, é pesado como um túmulo que cala as nossas renúncias e foi ali pousado, no cruzamento das entradas e das saídas. É discreto mas apelativo. Por sua vez, a mesa da Eucaristia, em forma de “masseira”, pretende invocar aquele tão belo versículo (9) do Salmo 34: “Saboreai e vede, como o Senhor é bom!…”. Seguiu-se o “crucifixo”, em 1983: uma estrutura de madeira, um tanto leve, de que a figura de Cristo procura erguer-se, convidando-nos a fixar, no Seu, o nosso olhar! Por fim, o ambão, de 1984: um “face a face” com o lugar da presidência (são, ambos, lugares de proclamação), cujo desenho segue as linhas da “masseira” eucarística, por se tratar, afinal, de uma “mesma” mesa, ainda que, neste caso, a Mesa da Palavra!

José Nobre, Móvel da partilha, para a Serra do Pilar (1981). Foto: Direitos reservados.
Como homem de cultura, o padre Arlindo instituiu, na Serra do Pilar, uma comunidade catecumenal, isto é, uma comunidade que “aprende”, uma comunidade que lê, uma comunidade que estuda! Por isso, a organização do espaço litúrgico, como aliás de toda a liturgia, sempre constituiu, para ele, uma oportunidade de ensino, uma catequese. E é por causa desse legado (deste legado) que hoje, aqui sentados, ao contemplarmos a sobriedade deste granito secular, sentimos que as pedras, os móveis, os objetos litúrgicos, tudo e todos nos falam, nos interpelam e, discretamente, connosco celebram a centralidade do Mistério pascal: “Felizes os que O reconhecem ao partir do pão!”.
A primeira leitura e o Salmo deste XXX Domingo, do Tempo Comum (Ano B) falam-nos de um “regresso” jubiloso, do povo de Deus, a Casa. Assim me sinto eu de cada vez que aqui volto! Mas também aqui aprendi que não nos devemos acomodar! Antes somos convidados a “descer o Monte” para vivermos, qual fermento, o Tempo Comum, dos dias comuns! Então, o meu desejo, a minha oração, vai no sentido de vos propor que não nos fiquemos pela nostalgia dos tempos passados! Pelo contrário: que aquilo que aqui vivemos e, como hoje, continuamente experimentamos, sejam o alimento que nos projeta para o futuro, para a Missão, na Cidade e no Mundo.
Que assim seja!
O absoluto de Deus e uma Igreja com futuro
José Nobre, Crucifixo desenhado em 1983 para a Serra do Pilar: uma “estrutura de madeira, de que a figura de Cristo procura erguer-se, convidando-nos a fixar, no Seu, o nosso olhar.” Foto: Direitos reservados
No dia 3 de Novembro, quando se assinalaram os 50 anos da Comunidade Cristã da Serra do Pilar, a eucaristia foi presidida pelo bispo do Porto, Manuel Linda, que destacou três âmbitos que considera importantes na vida da comunidade: “a iniciação cristã ou catecumenato; o lugar dos leigos na Igreja e o consequente princípio da sinodalidade; e o mundo como lugar teológico ao qual somos enviados como fermentadores.”
Sob o título “O absoluto de Deus e uma Igreja com futuro”, o bispo assinalou, sobre o primeiro aspecto, que “o cristianismo de tradição desapareceu” e que um cristão de hoje faz “a passagem de uma fé inicial para uma outra cada vez mais adulta, convicta e comprometida”, num “encontro pessoal com Jesus e com o Evangelho de maneira mais intensa, através de uma experiência fascinante que leve a uma adesão, comunhão e intimidade plena com Ele”.
Sobre o lugar dos leigos na Igreja, afirmou que “uma Igreja sinodal é uma Igreja na qual todos os fiéis, que gozam de uma igual dignidade, caminham juntos, em comunhão uns com os outros”, sendo cada pessoa convidada a participar “na missão comum da Igreja” e “a anunciar o Evangelho onde quer que esteja e, assim, a ser corresponsável pelo destino da Igreja em caminho”. Mas este horizonte tanto pode ser contrariado num “clericalismo que pretende eternizar o seu estatuto, como da parte do comodismo e do não- te-rales dos leigos, habituados a delegar no padre os assuntos da fé e da Igreja”.
Finalmente, o bispo Manuel Linda referiu-se ao mundo como “tarefa urgente”, em que os leigos, “guiados pelo Evangelho”, têm como “missão fermentar a sociedade, antecâmara do Reino de Deus, na santidade e na justiça” e “são chamados a transformar a sociedade e a inserir nela o sal que dá sabor e a luz que faz ver a beleza do Evangelho”. Nesta linha, referiu-se à ideia de “restituir o Domingo à sua dimensão religiosa e familiar e evitar que os centros comerciais constituam a única meta do ‘passeio dos tristes’.”
Na saudação que inicialmente dirigiu ao bispo, a Comunidade referiu a aceitação do cargo de responsável da comunidade pelo padre Arlindo Magalhães e à exortação pastoral Evangelii Nuntiandi, do Papa Paulo VI (1975), segundo a qual as pequenas comunidades “nascem da necessidade de viver mais intensamente ainda a vida da Igreja” e que, no contexto do pós-Concílio Ecuménico Vaticano II, nasceram as opções pastorais vividas na Serra do Pilar: “O ecumenismo, o diálogo inter-cultural e inter-religioso, a opção preferencial pelos pobres, o lugar dos leigos na Igreja e no mundo, a iniciação cristã de crianças e de adultos – catecumenato –, a autonomia das realidades terrenas, a Igreja como comunidade de Fé, Esperança e Amor Fraterno, uma Liturgia viva e participada, centrada na Eucaristia dominical, e a organização ministerial da comunidade.”











