“Em Nome do Pai”

Um livro que é memória viva do escândalo dos abusos na Igreja

| 13 Nov 2023

Se houvesse uma atitude menos defensiva e mais aberta ao sofrimento das vítimas (e re-vítimas) dos abusos de poder, nomeadamente no campo psicológico, económico, espiritual e sexual, haveria também mais debate da situação e mais iniciativas que traduzissem esse debate, como conferências interdisciplinares, livros e artigos científicos.

Essa debilidade, que atravessa a sociedade e a própria instituição eclesial católica, só pode enfatizar a importância do livro da jornalista Sónia Simões, Em Nome do Pai – Abusos sexuais na Igreja Católica em Portugal, que foi recentemente publicado pela Oficina do Livro.

O livro tem por base um aturado trabalho de investigação sobre casos de abuso sexual que a autora realizou em diferentes partes de Portugal para o jornal digital Observador, em conjunto com o seu colega João Francisco Gomes.

Ainda que se detenha com o pormenor necessário, mas não excessivo, num seleto número de casos paradigmáticos, alguns dos quais a partir da perspetiva das vítimas, Sónia Simões proporciona elementos de contexto, quer da Igreja quer da sociedade portuguesa e também da parte do Papa e do Vaticano, com destaque para o inédito encontro convocado pelo bispo de Roma de responsáveis das conferências episcopais de todo o mundo em 2019.

Não se pode deixar passar sem referência o facto de, em um ou dois desses casos, ficar levantada uma fundada dúvida sobre se a justiça, neste caso, canónica, não estará a cometer, ao pronunciar-se, uma gravíssima injustiça.

Ao longo de nove capítulos, e de cerca de 200 páginas, são ilustrados e abordados temas como a vergonha e a culpa, o abuso de poder, o perfil do abusador, a justiça civil e canónica, o reduzido número de casos chegados ao Ministério Público e o ainda menor número dos que não foram arquivados, o estudo da Comissão Independente em Portugal e as recomendações por ela propostas e a recetividade (ou talvez mais a falta dela que essas recomendações até agora encontraram), fazendo igualmente, um apanhado interessante de análogos estudos realizados em países como Espanha, França, Alemanha, Austrália, Estados Unidos e Irlanda.

Em jeito de leitura global desta obra, aquilo que talvez mais a caraterize e, por isso, a torne, no seu estilo, um trabalho de referência, reside no facto de representar uma memória eloquente dos últimos anos de um processo histórico – o dos abusos – que lançou ou fez evidenciar uma crise da Igreja que alguns observadores consideraram apenas comparada à da Reforma protestante.

Vários dos casos referenciados e descritos neste livro só tiveram desenvolvimentos, da parte da Igreja, mas não só, depois de terem siso objeto de publicação jornalística. É, de resto, significativo que também este trabalho de análise e de memória, surja, também ele, do campo mediático,

Os capítulos vão tornando evidente a resistência dos responsáveis eclesiásticos em enfrentar o problema, primeiro desvalorizando-o, depois, cumprindo diretrizes do Vaticano e, finalmente, reagindo ao estudo que eles próprios encomendaram adotando o caminho que se poderia classificar “dos mínimos”, perdendo uma excelente oportunidade de, com base no trabalho feito, se posicionar como parceiro privilegiado no esforço que toda a sociedade civil e política deveria também fazer em Portugal.

Merece, finalmente, referência, a companhia que faz ao trabalho de Sónia Simões o prefácio assinado pelo padre José Manuel Pereira de Almeida, pároco de Santa Isabel, em Lisboa, e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa. Desse texto sublinho a parte que também o editor destacou na badana do livro, já que ela coloca aquele que deveria ser o critério de discernimento de todos perante este flagelo, não esquecendo que somos todos responsáveis não só pelos casos que ocorrem à nossa volta, mas em toda a Igreja:

“À partida – nota o padre e professor Pereira de Almeida –  os cristãos, ao seguirem Jesus, não podem ter outra perspetiva senão os pobres.  É esse o ponto de vista de Jesus, expresso em gestos e palavras que nos apresentam os evangelhos. Dizer ‘pobres’ é falar de fracos, de frágeis, de magoados, de feridos. Para os cristãos, encontrar cada uma destas pessoas é encontrar o próprio Senhor. Quando é que te vimos e não te demos atenção? (cf Mt 25, 35-45). Entre estas pessoas feridas e magoadas estão, certamente, as vítimas de todos os abusos”.

 

Título: Em Nome do Pai. Abusos sexuais na Igreja em Portugal
Autora:  Sónia Simões
Editor: Oficina do Livro
Edição: junho de 2023
Páginas: 208

 

 

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