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Um Lugar

| 23/12/2025

Não havia para eles lugar na estalagem
(Lucas 2:7)

Três fotografias inspiram o texto de Advento que partilho com os meus leitores:
Uma é o antigo edifício-sede do Ministério da Educação na Avenida 5 de Outubro, em Lisboa, que, logo que se mudou em fevereiro de 2018 para a Avenida Infante Santo, foi destinado a ser uma residência universitária com 500 camas e planos para abrir em 2025. Passados quase oito anos sobre a decisão ainda se encontra ao abandono. Apenas soube que o seu destino provavelmente não será a residência cujas obras inclusivamente já estavam adjudicadas a uma empresa. Neste início de ano letivo ouvimos na comunicação social relatar até à exaustação o que se estava a passar com estudantes de baixos recursos que vinham estudar para Lisboa. Muitos já tiveram de desistir dos cursos aonde haviam sido colocados, regressando às suas famílias. Cruel para os jovens… e para as famílias que vêm os seus esforços defraudados. Ao passar pelo edifício, tive um meio-sorriso quando constatei o pequeno à parte colocado no cimo do enorme anúncio: “VAI MESMO?” Haja algum humor que nos ajude a conviver com estas realidades: inanição governamental, municipal ou burocracias estatais? No dia 16 de dezembro, ouvimos declarações do ministro da Educação sobre os Serviços Sociais de ME. Não tenho palavras para qualificar os dislates que ouvimos!

“Neste início de ano letivo ouvimos na comunicação social relatar até à exaustação o que se estava a passar com estudantes de baixos recursos que vinham estudar para Lisboa. Muitos já tiveram de desistir dos cursos aonde haviam sido colocados, regressando às suas famílias.” Foto © Teresa Vasconcelos

A fotografia do outro edifício – este originariamente destinado a habitação – é o antigo centro de saúde do Lumiar, cujas traseiras dão para a varanda de trás da minha casa e que continua encerrado, visivelmente a degradar-se. Mudou para um edifício novo na Alta de Lisboa, solenemente inaugurado em 22 de junho de 2021. Este vai-se esvaindo em inundações (já as houve) e ausência de manutenção até que se degrade ainda mais. Burocracias estatais ou inanição governamental?

 “No Lumiar – sim, já está a acontecer – crescerão como cogumelos mais andares para alojamento local: o edifício será para esse efeito?” Foto: Antigo Centro de Saúde do Lumiar. © Teresa Vasconcelos

Quem nos dera que a estes dois edifícios estatais fosse destinado um fim consentâneo com as intenções de sucessivos governos. Ou na 5 de Outubro irá surgir novo hotel de luxo? Ou no Lumiar – sim, já está a acontecer – crescerão como cogumelos mais andares para alojamento local: o edifício será para esse efeito? Há umas semanas circulou uma petição para que a Câmara de Lisboa travasse o “alojamento local” e devolvesse a cidade aos lisboetas que não podem pagar rendas exorbitantes. Para nada serviram os milhares de assinaturas que recolheu. Noutras cidades mais ou menos “turísticas” está a passar-se um flagelo semelhante. Precisamos do turismo, mas não para negar um direito básico: o direito à habitação, o direito a um “lugar”.

Não havia para eles lugar na estalagem

A terceira fotografia chegou aos meus olhos via WhatsApp. É bem mais contundente e direta que as anteriores, mas não temos qualquer dúvida quanto ao seu sentido acutilante: “Não se esqueça de odiar os refugiados ao fazer o presépio… afinal de contas celebramos um casal do Médio Oriente à procura de refúgio.”

No caso português, e para sermos fiéis ao que “vemos, ouvimos e lemos”, este casal estaria preso na burocracia de instituições do Estado completamente disfuncionais e insensíveis. Constatamos que se implementa legislação que, de uma forma deliberada, demonstra que este país é bem seletivo ao decidir quem acolhe, a quem garante “um lugar”. No entanto também sabemos que muitos não podem regressar aos países de origem porque são refugiados políticos, refugiados do clima, refugiados da fome. Sim, será importante regular a imigração, mas é tanto ou mais importante não permitir que, num país europeu, haja migrantes que vivem pior do que animais, façam trabalho escravo e impiedosamente braçal, e sejam literalmente insultados pelos capatazes ou responsáveis nos locais de trabalho…. e não podem senão baixar as cabeças porque precisam de ganhar o parco soldo ao fim do dia para poderem regressar a casa (?) com alimentos para os filhos.

O desespero da população residente é grande: revolta porque ela mesma é pobre e vê que os índices de riqueza só aumentam para alguns. Discursos de ódio, racismo, alimentados por quem manipula o justificado descontentamento com intenções obscuras… A comunicação social bem nos alerta ou, para quem usa transportes públicos, vamos escutando os desabafos: autocarros “inchados de gente” qual sardinha enlatada e sonoros impropérios contra os estrangeiros pobres que estão a fazer o trabalho que muitos nacionais não querem fazer. E eles, a usar os mesmos transportes, baixam a cabeça e calam. Nunca vi tantas pessoas sem-abrigo a dormir em bancos de jardim ou nas bocas de metro. Confrange. Além das redes internacionais que trabalham impunes neste “contrabando” de seres humanos, que dizer de agentes da ordem, eles próprios intermediários no tráfico e na exploração? Quem tem um “lugar”, direito primordial na Declaração Universal dos Direitos Humanos?

 Não havia para eles lugar na estalagem

 Apesar de tantos e tantas que “não têm lugar” quero levar-nos, neste tempo de Advento, a caminhar na Esperança. Insisto em caminhar empurrando a “pequena luz bruxuleante” (Jorge de Sena) – as quatro velas – com o desejo profundo que venha a gloriosa Luz da Noite de Natal: “Um Menino nos foi dado (Isaías 9, 6-7)”. Desafio a não desistir da Esperança, da solidariedade, na “Casa Comum” que habitamos. Um lugar.

Assim vamos escutando: crianças numa escola em Aveiro aprendem a reparar brinquedos estragados para enviar presentes para obras sociais onde há outras crianças – e o que eles aprendem ao fazer este trabalho de perícia e de solidariedade! Oxalá pudesse ser todo o ano…

Numa aldeia da serra algarvia de reduzida população as pessoas doaram do que tinham em casa e podia ser reciclado para criar magníficos enfeites de Natal coletivos: inspiram quem passa e visita, atraem “estranhos” a uma aldeia esquecida, ocupam-se em atividades socialmente úteis e que congregam energias… e corações.

Tantos voluntários que, ao longo de todo o ano, apoiam bancos alimentares, abrigos para os desalojados, alimento para quem não tem de comer… partilhar o seu tempo com pessoas mais velhas que já não têm olhos para ler, ou apenas precisam de alguém com quem falar. Samaritanas e samaritanos de todo o ano. Conheço outro “alguém” que, tendo um quarto livre na sua casa, acolheu uma mulher sem-abrigo e está a ajudá-la a “endireitar” a sua vida. Afirma simplesmente: “Tinha que ser. Não podia fazer outra coisa”. Que inspiração! Não lhe vai ser fácil, será duro, exige coragem e confiança em quem entra; e vice-versa: de quem entra em quem acolhe…

E sim, claro, temos de estudar a analisar as raízes da pobreza, do abandono, do descarte como dizia o “bom Papa” Francisco.

Somos muitos mais do que imaginamos, é só estarmos atentos/as: é pouco o que cada um/a de nós pode fazer para ajudar mas é o suficiente para “fazer outra coisa”, mesmo pequenina, qual a flor de esperança de Charles Péguy.

Não havia para eles lugar na estalagem

Filme Jovens mães

Foto retirada do filme Jovens Mães.

Nada acontece por acaso: fui há dias ver o mais recente trabalho cinematográfico dos irmãos Dardenne, intitulado Jovens Mães. Filme quase todo passado numa instituição da Segurança Social belga que se destina a receber jovens mães solteiras ou precocemente grávidas – ainda “meninas” – que, com histórias de vida de abandono, abuso ou maus tratos, precisam de uma instituição que as acolha ao mesmo tempo que são ajudadas a reorientar as suas vidas. Ver este filme foi como se regressasse à “estalagem” de Lucas 2, 7 que se tornara num espaço de hospitalidade. Ocorreu-me que estava a habitar o Advento. Jorge Leitão Ramos, na crítica a este filme (Expresso-Revista E de 12.12.2005), descreve “uma Segurança Social a funcionar”, colaborando com outras instituições ao serviço das jovens – verdadeiro serviço público –, “[n]uma disponibilidade da alma” por parte de quem filma, sim, mas igualmente espelhando a mesma “disponibilidade da alma” por parte das cuidadoras. Eram jovens mães (talvez de idade semelhante a Maria de Nazaré) que carregavam o seu bebé no ventre, outros já ao colo das suas progenitoras. Um ambiente que desejaríamos que fosse o de todas as nossas instituições de acolhimento: pessoal competente, altamente treinado e caloroso com as jovens – cuidadoras, assistentes sociais, psicólogas, simultaneamente firmes e calorosas num ambiente relaxado e não punitivo, mas responsabilizante. Acolhidas num “lugar” espaçoso e com muita luz, as “jovens-meninas” irão habitar em comum, cumprir regras mínimas, confecionar refeições e, sobretudo, aprender a cuidar de seus bebés: pequenas e jovens Marias a delinearem um projeto de vida; desenvolvendo amizades, cumplicidades e solidariedades: Jessica, Ariane, Perla, Naima, Julie…

Não relato as suas histórias pessoais porque o meu desejo é que o filme seja visto por muitos leitores do 7MARGENS: não há “sentimentalismos” afirma Jorge Leitão Ramos,, apenas informação concreta e visível, mesmo evidente mas subtil: todas as histórias têm um sinal de esperança – aqueles bebés e suas mães vão tentativamente fazer o seu caminho. Apesar de momentos intensos em que pensamos que as histórias vão acabar mal, há sempre uma Redenção: uma figura maternal – um colo para chorar – de uma assistente social, ou a confiança numa psicóloga, as indicações seguras de quem as ensina a tratar dos bebés, encontros com familiares que são “epifanias” (ou não, infelizmente), decisões duras de dar o bebé para adoção e confiá-lo a uma família considerada mais funcional, um jovem pai que ajuda a namorada “menina” na sua recuperação. São histórias de vida, histórias de “passagem”, mas sempre com uma resolução que tem uma dimensão solar. Histórias “em aberto para a esperança”, para a Luz.

Não havia para eles lugar na estalagem

Fratelli Tutti em russo; Abu Dhabi; Papa Francisco;

‘”Quem é o Outro hoje?” O que é ser verdadeiramente “cosmopolita” em tempos de globalização?’ Imagem da capa da edição da encíclica Fratelli Tutti em russo

Lembramos a amizade social da Fratelli tutti, a última encíclica do saudoso Papa Francisco. “Quem é o Outro hoje?” O que é ser verdadeiramente “cosmopolita” em tempos de globalização? perguntava o grande antropólogo indiano Arjun Appadurai? [1]

Onde estão os direitos humanos quando se fala em lugar? ou as Obras de Misericórdia que muitos ainda sabemos de cor?

Que lugar/es podemos criar, abrir ao Outro, sabendo que ao dar hospitalidade a um/a desconhecido/a pode acontecer, como se lê na Carta aos Hebreus, “que alguns, sem o saberem, hospedaram anjos” (Hebreus 13, 2).

Quais bons samaritanos/as… ou anjos bem comuns, vamos aprofundando o que é a real hospitalidade, frequentemente dura, por vezes incómoda, mesmo arriscada, desinstalando-nos do “nosso lugar” e abrindo os braços Àquele que vem.

Balbucio com Isaías (40, 1): “Confortai, confortai o meu Povo – diz o Senhor”…“E sairá um bastão da raiz de Jessé; e uma flor da sua raiz subirá” (Isaías 10, 1, versão de Frederico Lourenço). A flor da raiz da Esperança.

 

Amo-te nesta ideia noturna da luz nas mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.

(Daniel Faria, in “Dos Líquidos”)

 

[1] Arjun Appadurai (2009). Diálogo, risco e convivialidade. In: Fundação Calouste Gulbenkian. Podemos Viver sem o Outro? As possibilidades e os limites da interculturalidade (pp. 20-38).

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante no Movimento do Graal. t.m.vasconcelos49@gmail.com

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