
“A realidade desta mulher é a dor, a solidão, a escuridão em que vive. Procurei deixar tudo isso percetível”
Se gosta de cinema e ainda for a tempo, não deixe de ver o filme de Pedro Almodóvar A Voz Humana. É uma curta-metragem (cerca de 30 minutos), complementada por uma entrevista muito interessante e esclarecedora com o realizador e a actriz, Tilda Swinton.
Depois de, inopinadamente, ter entrado numa loja de ferragens para comprar um machado, a mulher fecha-se em casa, no seu labirinto mental e espacial até encontrar a saída. O que vemos, para além da decoração cuidada, rica e luxuosa, são umas malas feitas à espera de alguém. E um cão inquieto também ele à espera. Quando o telefone toca, ficamos a saber que aquela mulher foi abandonada e está desesperada, “à beira de um ataque de nervos”. Como mostrará ao tomar demasiados comprimidos de uma vez ou golpear o fato estendido sobre a cama, com o machado que tinha comprado.
O que ouvimos é um longo monólogo, baseado na peça de Jean Cocteau, mas trabalhado pelo génio do cinema que é Almodóvar. A sua relação com este texto e também com o telefone já é antiga, mas atinge nesta curta-metragem, provavelmente, o seu momento mais perfeito e eficaz, pela concentração de meios e de tempo, pela forma enganadora como toda a acção se desenrola numa casa que, afinal, é um cenário.
“A situação daquela mulher abandonada, sozinha e à beira da loucura, junto a um cachorro com quem compartilha o luto e um monte de malas feitas, é uma situação dramática que sempre me estimulou”, disse Almodóvar, reconhecendo que esse contexto também o tocou no aspecto pessoal. “Eu também vivi essa situação. Também esperei em vão, embora sem ter que fazer a mala, porque seria generoso demais da minha parte.”
Diz ainda a propósito do telefone e dos filmes Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos e A Lei do Desejo, onde este texto de Cocteau já aparecia: “O telefone só serve para demonstrar ao próximo o pouco interesse que ele provoca. Aconselho a todas as pessoas que esperam inutilmente uma chamada junto a um telefone que atirem o aparelho pela janela.”
A Voz Humana é, como muitos dos filmes de Almodóvar, sobre o desejo, sobre essa tremenda aventura que é viver e amar, sobre a dor e o sofrimento causados pelo abandono, sobre a desorientação e a angústia, e o caminho duro e difícil para saber o que fazer.
Mas “as mulheres de Almodóvar” são fortes – por isso, ele diz que tentou “transformar o texto num acto de vingança, já que o original deixava perceber muita submissão” – e Tilda Swinton é certamente, desde agora, uma das mais fortes. Ela é a grande força deste filme, pela intensidade com que fala, pelos gestos, pela exuberância simbólica das roupas, pela determinação marcada e dura do seu rosto. Não sabemos se ela está mesmo a falar com o seu ex-amante, desconfiamos que não. Talvez ela esteja apenas a falar alto consigo própria para fazer o seu caminho interior. Como diz o realizador na entrevista: “para ganhar a sua autonomia moral”, para fazer uma escolha, para saber o que fazer.
E então ela prepara o (seu) final: veste-se de uma forma ainda mais exuberante, pega num regador e começa a regar o cenário com gasolina, convida o que está do outro lado do telefone a vir à janela e ver o que vai acontecer. Depois acende o isqueiro e tudo começa a arder – sempre o fogo como símbolo maior do desejo, da paixão, mas também da destruição –, senta-se um pouco numa cadeira de realizador a olhar.
Achamos que ela vai deixar-se consumir pelas chamas, como é costume em alguém tão desesperado. Escreve Roland Barthes no seu livro Fragmentos de um Discurso Amoroso: “Catástrofe: Crise violenta no decurso da qual o sujeito, que sente a situação de amor como um impasse definitivo, uma armadilha de que nunca poderá sair, se vê condenado a uma destruição de si próprio.” Mas não. Ela levanta-se, já com os bombeiros a começar a apagar o fogo, e sai calmamente pela porta conversando com o cão. Agora são só eles. A vida vai continuar. O fogo apenas vai destruir o passado.
Falta só dizer que é a primeira vez que Almodóvar filma em inglês, que a própria Tilda Swinton foi surpreendida pelo convite do realizador: “Achei incrível, porque não sou espanhola nem falo espanhol. Mas compartilhamos a linguagem do cinema.” De facto, ela fala almodóvariano muito bem.
“A realidade desta mulher é a dor, a solidão, a escuridão em que vive. Procurei deixar tudo isso percetível, comovente e eloquente através da (sublime) interpretação de Tilda Swinton, mostrando desde muito cedo que a sua casa é uma construção dentro de um palco sonoro de cinema. Ao exibi-lo por todos os lados, saindo da decoração realista e aproveitando todo o espaço do estúdio, aumentei, por assim dizer, o tamanho do cenário onde o monólogo é executado. Misturei o cinemático e o teatral, combinando as suas essências”, diz Pedro Almodóvar)
Se gosta de cinema e ainda for a tempo, não deixe de ir ver o filme de Pedro Almodóvar A Voz Humana. Todos nós, alguma vez…
A Voz Humana, de Pedro Almodóvar
Com Tilda Swinton, Agustín Almodóvar, Miguel Almodóvar, Pablo Almodóvar
Drama; ESP, 2020; Cores, 78 min.
Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar).









