Um mar de gente que são pessoas

| 26 Ago 19

Estive no Mediterrâneo. Não foi a primeira vez, mas talvez tenha sido a primeira vez que me incomodou mergulhar, olhar no horizonte e perceber que ali tão perto existiam homens, mulheres e crianças que também o faziam por razões diferentes, à espera de uma boia que os salve ou de um porto que os acolha.

Passei por povoados e centros de acolhimento de refugiados. Uma estrada divide um FunPark para famílias se divertirem e, do outro lado, um centro de acolhimento a refugiados inominável, arranjado e arrumado, mas de gente que deambula na expectativa de um qualquer futuro diferente. Dois lados diferentes, um cercado de peças da Playmobil, outro rodeado de arame farpado. Talvez o que une as duas margens da estrada seja mesmo a expectativa de um futuro melhor… e a simplicidade pura e simples das brincadeiras das crianças. Regressei cruzando olhares sentados e deambulantes, como são todos os olhares dos sonhos, mas na certeza de que, no próximo mergulho, estaria uma prece por aqueles que afundaram os sonhos de uma vida diferente.

Da Grécia chegam apelos à solidariedade da Europa para com uma realidade que se apresenta já no limite da resposta possível; de Itália chega a arrogância inumana de quem usa os refugiados numa espécie de bandeira política; de Malta surgem dificuldades em abrir portas numa ilha que já é pequena e fraca em recursos; de alguns países da Europa vão surgindo portas que se querem abrir e outros que sacodem a realidade numa espécie de impermeabilidade.

Não conheço muitas das realidades que estão em jogo. Não sei se a Turquia se quis aproveitar deste drama e se é um tampão de segurança e controlo como alguns esperam; não sei se os mercenários nos países de partida são conhecidos e se existe algum mecanismo de proteção e controlo destas ‘negociatas’; nem sei bem se as políticas de integração são capazes de responder ao sonho e expectativas de muitos. Parece-me que tudo isto é mais um drama em formato de tragédia, daquela que ficará na história universal para nos envergonharmos da nossa falta de fraternidade e da forma como o “homem é lobo do homem”.

Lampedusa, Moria, Lesbos, nomes que vamos ouvindo e identificando com o acolhimento a refugiados do Mediterrâneo, nem sequer estão na lista dos maiores campos de refugiados do mundo, onde milhares de pessoas vivem e sobrevivem no amanhã sem fim. A 13 de julho de 2013, o Papa Francisco está em Lampedusa numa viagem cheia de profetismo, denúncia e simbologia. A primeira frase do Papa (“Emigrantes mortos no mar; barcos que em vez de ser uma rota de esperança, foram uma rota de morte”) fazia estremecer um discurso duro que terminara a pedir perdão pela indiferença, pela acomodação e por aqueles que criaram situações que levam a estes dramas.

“Onde está o teu irmão?” é a grande pergunta divina que nos devolve a responsabilidade pelo cuidado do outro e o compromisso pelo seu bem. Parece-me que negligenciámos em algum momento aquelas realidades mais fundamentais e comuns à humanidade e ao património de todas as religiões que são a solidariedade e a fraternidade.

 

João Alves é padre católico da diocese de Aveiro e pároco da paróquia da Vera-Cruz

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