Um murro na mesa

| 4 Out 2023

Papa Francisco audiência-geral 23 03 2023 antes de ser hospitalizado

“Não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe está-se esboroando e talvez aproximando dum ponto de rutura.” Imagem reproduzida do canal YouTube do Vatican News.

 

Uma imagem que pode nos ajudar a interpretar a exortação apostólica Laudate Deum do Papa Francisco é a de “um murro na mesa”. O Papa adverte que já se passaram oito anos desde a sua carta encíclica Laudato si’, e “não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe está-se esboroando e talvez aproximando dum ponto de rutura.” (n. 2). A grande preocupação são as consequências das alterações climáticas ou da crise climática, subtítulo do novo documento, cuja principal causa é a intervenção humana na natureza (cf. n.º 14).

 

a) Um murro na mesa dos pobres e vulneráveis

O “murro na mesa” do Papa Francisco vem daqueles que têm de suportar os efeitos das alterações climáticas, ou seja, dos pobres e vulneráveis. Sendo mais concreto e oferecendo uma localização geográfica, África apresenta-se como o continente que alberga mais de metade das pessoas mais pobres do planeta e é responsável por uma mínima parte do nível histórico de emissões. Portanto, os pobres não são culpados pela actual crise climática (cf. n.º 9).

 

b) Para quem é o murro na mesa?

O Papa reconhece a existência de poderes reais, especialmente económicos, que são os representantes do paradigma tecnocrático, cujo avanço ele confirma e que “se alimenta monstruosamente de si próprio” (n. 21). Estes grupos de poder são caracterizados pela falta de ética, cultura e espiritualidade. Nos números 32 e 60, o Papa faz duas perguntas aos poderosos. A primeira delas é sobre “que lhes importa os danos à casa comum, se se sentem seguros sob a suposta armadura dos recursos económicos que obtiveram com as suas capacidades e esforços?” E a segunda: “Para que se quer preservar hoje um poder que será recordado pela sua incapacidade de intervir quando era urgente e necessário fazê-lo?”

Além disso, “o murro na mesa” é para a política nacional e internacional, que se tem revelado ineficaz na tomada de decisões ousadas. As organizações globais existentes devem ser mais eficazes e dotadas de autoridade real. Tanto a diplomacia como a política não alcançaram um novo multilateralismo e este precisa de ser reconfigurado com base na nova situação mundial que envolve, acima de tudo, a renovação dos processos de tomada de decisão e a sua legitimação. A este respeito, no parágrafo 43, o Papa Francisco afirma: “Deixará de ser útil apoiar instituições que preservem os direitos dos mais fortes, sem cuidar dos direitos de todos.”

O murro na mesa também é para as Conferências do Clima que foram inauguradas no Rio de Janeiro em 1992. Para o Papa argentino “os acordos tiveram um baixo nível de implementação, porque não se estabeleceram adequados mecanismos de controlo, revisão periódica e sanção das violações” (n. 52). Portanto, da próxima COP28 esperamos “fórmulas vinculantes de transição energética que tenham três caraterísticas: eficientes, vinculantes e [que sejam] facilmente monitorizadas” (n. 59).

 

c) Um murro na mesa para acordar os fiéis católicos

O Papa reconhece que mesmo dentro da Igreja Católica há resistência à sua leitura da crise climática. “Vejo-me obrigado a fazer estes esclarecimentos, que podem parecer óbvios, por causa de certas opiniões ridicularizadoras e pouco racionais que encontro mesmo dentro da Igreja Católica” (n. 14). Recorda-lhes as motivações da própria fé, pois esta “não só dá força ao coração humano, mas transforma a vida inteira, transfigura os objetivos pessoais, ilumina a relação com os outros e os laços com toda a criação.” (n. 61).

Concluindo, nesta Exortação Apostólica encontramos um Papa Francisco mais profético. Portanto, Laudate Deum é um forte alerta do Papa, a fim de levar à tomada de decisões globais para neutralizar os efeitos das alterações climáticas. Ainda temos tempo, mas não resta muito.

Daniel Rodriguez Blanco em Lisboa, durante a JMJ: Um “Papa Francisco mais profético na Laudate Deum. 

 

Daniel Rodriguez Blanco é frade franciscano de El Salvador, a trabalhar em Roma, onde desempenha as funções de diretor da Ordem dos Frades Menores para a Justiça, Paz e Integridade da Criação.

 

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