
“Cada um tinha direito a surgir no pequeno ecrã durante escassos segundos”. Correio de Nossa Senhora. Fátima. Foto: Direitos reservados.
A publicação no 7MARGENS, em 20-12-2020, dos comentários de Eduardo Jorge Madureira a propósito do interessantíssimo livro A Caixa de Correio de Nossa Senhora, da autoria de António Marujo,
sugerem-me as memórias que passo a referir. O livro é especialmente interessante para aqueles que, como eu, estivemos mobilizados na chamada Guerra do Ultramar, melhor fora que lhe começássemos a chamar pelo seu nome verdadeiro, Guerra Colonial.
Escreve Eduardo Madureira: “Quando, durante vários anos, antes de 25 de Abril de 1974, o Natal se aproximava, a RTP incluía na sua programação uma espécie de tempo de antena que muitas famílias portuguesas aguardavam com desmedida ansiedade. A partir de várias zonas das então designadas “províncias ultramarinas”, a televisão portuguesa dava um módico de voz aos soldados que para lá tinham ido combater. Cada um tinha direito a surgir no pequeno ecrã durante escassos segundos. O que em tão reduzido tempo teria de caber implicava uma rapidez de dicção que amiúde tornava dificilmente percetível o que se pretendia transmitir”.
A memória que transcrevo refere-se ao Natal passado em Cassamba (Leste de Angola, cerca de 270 quilómetros a sul da cidade do Luso, actual Luena). A companhia que comandava era das chamadas “de recrutamento local” isto é, era composta por cerca de 150 jovens, por vezes de idade indefinida, mas certamente por volta dos 20 anos, todos naturais de Angola, provenientes das mais diversas etnias africanas.
Para estes jovens não havia espaço nas emissões da RTP, eram portugueses de segunda como então se dizia. Não mereciam os favores do contacto com as famílias, ainda que por uns segundos. E não era só a RTP que nos considerava “de segunda”. Também as companhias deste tipo não tinham direito à presença de capelão ou de qualquer outro ministro dos respetivos cultos, bem como o médico estava na sede do batalhão, ficando o estado sanitário da companhia “à guarda” de um furriel e dois cabos enfermeiros. De acordo com “o discurso oficial” os portugueses eram todos iguais… mas de facto, havia uns quantos, mais iguais do que os outros.
Voltemos, no entanto, ao Natal de 1971, cuja memória hoje nos vem ao espírito.
Nessa noite de 24 de dezembro de 1971, assisti, na minha vida, ao espetáculo mais deprimente e humanamente degradante que alguma vez imaginei. Quando o álcool se torna o único escape para o Homem esquecer o ambiente e as circunstâncias em que está mergulhado, desce ao mais baixo da sua condição. Foi a isso que assisti, na companhia da minha mulher que, contra todas as regras militares, me acompanhava no mato de Angola, em Cassamba, naquela noite de 24 de dezembro de 1971.
Afinal, a noite tinha todas as condições para ser mais uma, idêntica a tantas outras que já ali passáramos, desde a chegada. No enquadramento em que era vivida diferenciava-a apenas a imaginação de cada um de nós no calendário. Era Natal… mas o que representaria isso para a grande maioria daqueles rapazes, atores mais ou menos forçados de uma guerra que não era deles, no meio do deserto do Leste de Angola, deslocados das suas terras, das suas famílias e de qualquer espécie de “cultos” que pudessem dizer-lhes algo?
Fiquei sempre com a convicção de que nada de muito significativo diferenciaria aquela, de outras tantas noites ali passadas, exceto o pretexto para a tornar diferente de qualquer dessas e esse pretexto resumia-se ao álcool! Álcool sob qualquer forma: vinho, cerveja, cachaça ou qualquer produto de fermentação, after shave inclusive …
Efetivamente, ao longo de toda a noite e madrugada transportámos (a minha mulher e eu, auxiliados por um dos alferes da companhia, o Zé Portugal), mais ou menos às costas, literalmente falando, para as respetivas casernas, dezenas de jovens semi-inconscientes, procurando que interrompessem a ingestão de mais álcool. Nós, a minha mulher e eu, procurávamos, tão só, que a memória de outros Natais, vividos em família, a muitos milhares de quilómetros de distância, não nos perturbasse em demasia.
A memória dos filhos em especial, em tudo, humanamente, semelhantes ao Menino de Belém, confortava-nos sabê-los entregues ao calor dos avós e dos tios, celebrando o nascimento de Jesus, bem longe, material e espiritualmente, do inferno em que nos sentíamos mergulhados. Fazíamos, como podíamos, apelo à nossa fé e tínhamos por companhia apenas uma imagem do Menino de Belém, que ainda hoje faz parte do nosso presépio e que a minha mãe nos tinha enviado, para nos acompanhar naquela noite.
Penso hoje, 49 anos passados, naquela célebre frase: “Natal é quando um homem quer”. E, não me restam grandes dúvidas de que nenhum daqueles jovens africanos queria que fosse Natal.
Fernando Gomes da Silva é engenheiro agrónomo










