Era uma vez uma aldeia pequena e pobre, mas que tinha uma grande riqueza: a neve cintilante e macia que caía no inverno. Numa humilde casa dessa aldeia, nascera uma menina chamada Cristina. Ela tinha uma doença muito rara, pois não podia tocar na neve.
Na escola, ela conheceu um rapazinho lindo, respeitador e corajoso, chamado Lucas, e rapidamente se tornaram amigos inseparáveis. Cristina tornou-se uma menina responsável, estudiosa e obediente. Ela cresceu, continuou a ir à escola e o tempo foi passando, até que ela chegou ao décimo segundo ano. A Cristina não era como as outras meninas, ela não queria as coisas que todas as outras raparigas da sua idade desejavam, pois ela apenas queria… Ler. Enquanto as meninas mostravam a sua vida nas redes sociais, postando stories no Instagram ou no Tiktok, ela gostava de refletir sobre a sua vida, escrevendo nas folhas do seu diário, algo que fazia no seu dia a dia. Um dos seus maiores sonhos era ser escritora como a Sophia de Mello Breyner Andresen. Mas havia uma coisa que a entristecia bastante: ver as crianças da sua aldeia a divertir-se brincando na neve.
Um certo dia, o seu amigo Lucas disse-lhe:
– Cristina, eu li num livro que há países que têm um Natal quente, como por exemplo: Marrocos, África do Sul, Angola, Moçambique… E há um outro país cujo nome não me vem à cabeça. Acho que tem dez ilhas e uma delas não é habitada.
– Incrível! Eu quero visitá-los a todos!
– Então, vamos? – sugeriu o rapaz.
– Mas é claro. De que estás à espera? Arruma já as tuas coisas! – exclamou Cristina.
Os amigos fizeram as malas e foram de avião até Marrocos.
– Que lugar lindo! – admirou-se o Lucas.
– É verdade, Lucas. É lindo, mas não achas estranho em dezembro fazer tanto calor?
– Cristina, ainda não entendeste que estamos em África?
– Sim, já entendi. Apenas acho estranho, pois nunca vi nada igual.
Depois de passarem por muitos países, foram até à cidade da Praia, em Cabo Verde.
Chegaram três dias antes do Natal e ficaram admirados ao verem pessoas a tomar banho na praia debaixo de um sol radiante e crianças a brincar com camisas sem mangas.
Entretanto, Cristina decidiu ir comer sushi com o Lucas a um restaurante muito famoso da cidade.
Enquanto comiam, um velho sábio contou-lhes a história da formação do Natal e do calor que, nessa época, se sentia em Cabo Verde.
– Há muito, muito tempo, uma bela mulher vinda da Ucrânia… – começou o sábio.
– Eu também sou da Ucrânia. – informou Cristina.
– Ah! Que coincidência interessante! Mas como eu estava a dizer, essa mulher não podia tocar na neve, por isso, ela veio viver para Cabo Verde e reparou que os cabo-verdianos não tinham condições para suportar o frio extremo. Um certo dia, decidida a ajudar as pessoas desse país, a bela rapariga soprou com tanta força as dez ilhas que, instantaneamente, o gelo descongelou. Todos os cabo-verdianos saltaram de alegria e, assim, Cabo Verde teve o seu tão desejado Natal quente.
Na véspera de Natal, Cristina foi de casa em casa para ver como era o Natal dos cabo-verdianos. Enquanto se deslocavam, Cristina reparou que havia uma casa com uma bela luz radiante, onde se encontravam vários adultos a cozinhar vários tipos de comida para festejar essa época, tais como: o cuscuz, o arroz de pato, saladas coloridas, o peru assado, a galinha, a centopeia de queijo e fiambre, a mousse de chocolate, entre outras. Ao fundo da sala, estavam duas crianças sossegadas e bem comportadas a brincar, enquanto os mais velhos preparavam as iguarias para a ceia de Natal. Sheila era a criança mais velha e a mais nova era um rapaz que se chamava Celso. Cristina ficou tão comovida ao ver aquela família tão feliz a celebrar o Natal sem neve, que decidiu passar a festejar da mesma forma.
Mais tarde, quando cresceu, Cristina decidiu estudar medicina. Já médica, descobriu a cura para a doença que a afetava desde pequena e, com essa descoberta, melhorou a vida de muitas pessoas, fazendo-as viver o verdadeiro espírito natalício.
Este conto foi escrito no âmbito do concurso “Um Conto de Natal” promovido pela Escola Portuguesa de Cabo Verde e publicado originalmente no portal Balai Cabo Verde em dezembro de 2024. Com este conto, o Lucas – então aluno do 6º ano – conquistou o primeiro prémio no concurso.










