AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Um Natal sem Herodes

“Mas nunca ninguém questionou o desfasamento cronológico de lermos como celebração natalícia um poema sobre a matança dos inocentes.” Herodes e a matança dos inocentes

 

Nas margens da Filosofia (XXVII)

Não vou falar do Natal da minha infância, quando tinha pais e avós. Refiro-me ao Natal de hoje em que essa geração já não existe e somos nós agora os pais e os avós. A família foi crescendo (ou, realisticamente falando, envelhecendo) e o grupo restrito aumentou, ficando cada vez maior. Transformados em avós e a geração abaixo em pais, passámos a ser uma quase multidão.

De entre os irmãos, apenas um casal tinha uma casa grande onde entre interior e exterior era possível acolher tanta gente e, de há vinte anos para cá, juntavam-se três gerações no dia 24 de Dezembro para em conjunto celebrar o nascimento de Jesus.

Cada Natal era igual e diferente pois a família multiplicava-se e havia sempre mais crianças e mais jovens. E tornou-se hábito que os mais novos recitassem colectivamente um poema, sempre o mesmo – a História Antiga de Miguel Torga, onde a cada jovem ou a cada criança era atribuída uma estrofe, lida por vezes com grandes atropelos:

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

 E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

 Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.[1]

 

Não se pode dizer que a escolha fosse muito apropriada pois na realidade não tinha a ver com o Natal mas sim com um episódio diferente da vida de Cristo. Mas nunca ninguém questionou o desfasamento cronológico de lermos como celebração natalícia um poema sobre a matança dos inocentes. Havia sim protestos porque a leitura antecedia a distribuição dos presentes, para os jovens um momento alto desse dia.

Pelas razões óbvias este ano a celebração vai ser restrita e não nos poderemos reunir todos como era habitual. Ao conversar com os mais novos justificando as razões porque este ano não haveria tios nem primos e que ninguém sairia de Lisboa, ficando cada um nas suas casas, tive a seguinte reacção por parte de um dos netos: “Sabe, avó, o que me faz mais falta neste Natal é não termos o Herodes na nossa festa!”


[1] Miguel Torga, “História Antiga”, Poesias.


Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia

Padre da Obra da Rua morreu

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia novidade

O padre Telmo Ferraz, da Obra da Rua, celebra cem anos de vida e missão. Membro do clero da Diocese de Bragança-Miranda, nasceu no Mogadouro a 25 de novembro de 1925 e começou cedo o seu sacerdócio de rebeldia e compromisso social. Denunciava a tragédia humanitária provocada pelas condições péssimas em que viviam quantos davam a vida na construção de barragens naquele Trás-os-Montes longínquo e abandonado dos anos 1950. [Texto de Tony Neves]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

[Entre Margens]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória novidade

No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.