Um novo arcebispo para Braga (1): Em 1999, grupo de leigos quis romper o secretismo e exclusivismo das consultas 

| 1 Set 2020

Fachada da Sé de Braga. Foto © Vítor Oliveira/Wikimedia Commons

 

D. Jorge Ortiga foi nomeado arcebispo de Braga em 5 de junho de 1999, tendo solicitado a sua substituição em 2019, ao completar 75 anos. Sabendo-se que está para breve a sua substituição (já correm vários nomes de candidatos), o 7MARGENS lançou um curto inquérito a algumas pessoas da diocese de Braga sobre o perfil que desejariam ver para o novo arcebispo, em termos de qualidades humanas, sociais e eclesiais que as pessoas desejam que ele tenha.

Antes de publicar essa série de depoimentos, recordamos aqui o que se passou em 1998, quando a nomeação de D. Jorge Ortiga pelo Papa João Paulo II foi antecedida por uma movimentação de leigos da arquidiocese, que foi relativamente badalada na imprensa, na altura, no sentido de influenciar o perfil da pessoa escolhida.

Para D. Eurico Dias Nogueira, seu antecessor, um tal gesto, ainda que positivo, não teria qualquer influência no Vaticano. Terá sido assim? Influência ou não, a verdade é que ficou o gesto da participação não solicitada na escolha de um bispo. O processo e o debate são aqui recordados no 7MARGENS por uma das pessoas que participou no processo.

 

D. Jorge Ortiga, actual arcebispo: em 1998, vários leigos quiseram debater o perfil de quem deveria suceder a D. Eurico Nogueira. Foto © DACS (Departamento Arquidiocesano para as Comunicações Sociais)

 

Podem os leigos católicos participar na escolha do seu bispo? Segundo o Código de Direito Canónico, sim. Na verdade, costuma haver um conjunto de pessoas consultadas, entre o clero e os leigos. Porém, o seu número restrito e o caráter sigiloso do processo não permitem a participação, tal como ela é comummente entendida. E foi também por isso que, na primavera de 1998, um grupo de católicos da diocese de Braga entendeu endereçar à Nunciatura Apostólica (representação diplomática do Vaticano) em Lisboa, uma mensagem que desenhava o perfil que entendiam desejável e necessário para a liderança da arquidiocese.

Entre os dez pontos do documento destacavam-se os seguintes: que o novo bispo “seja, antes de mais, uma pessoa que se destaca pela humanidade”; “uma voz profética que anuncia a esperança de um Deus pessoal e salvador e que assume corajosamente a denúncia das injustiças”; um bispo que “estude e compreenda a realidade socioeconómica da diocese de Braga”; seja “aberto e desempoeirado, capaz de dialogar com o mundo como ele é”; “livre de partidos ou fações”, “desprendido das amarras e alianças com o poder político e económico”; e capaz de “construir a unidade a partir da pluralidade de vozes”. Pelo meio, a tomada de posição ainda pedia uma pessoa “com sensibilidade pastoral, exigida pela complexidade de situações” da diocese e “se distinga pela simplicidade no modo de viver”.

Os autores deste perfil – Alzira Fernandes, José Maria Carneiro Costa, Luís Soares Barbosa, Manuel Pinto, Maria Engrácia Leandro, Maria Fernanda Fernandes, Sílvia Lemos e Teresa Rodrigues Costa – estavam ligados aos meios operário, universitário e associativo, mas, sobretudo, tinham tido participação direta nas sessões do Sínodo da Igreja bracarense que haviam decorrido em 1997.

Acontece que foi precisamente no final da última sessão desse Sínodo, em 23 de novembro, no decurso de um convívio no Seminário de Santiago, em Braga, que vários dos nomes desse grupo distribuíram às centenas de participantes um panfleto intitulado “Um novo pastor para a arquidiocese: apelo a uma reflexão participada”. Nele, depois de agradecer a D. Eurico Dias Nogueira, prestes a atingir os 75 anos, a “notável dedicação e solicitude” com que exerceu as funções pastorais, o texto considerava uma decorrência incontornável da dinâmica do Sínodo a reflexão alargada sobre o perfil do sucessor e anunciava o desejo de organizar uma iniciativa pública e aberta com tal finalidade.

A iniciativa aberta nunca viria a acontecer e o motivo teve também a ver com o facto de um setor dos membros sinodais ter reagido de forma verbalmente violenta ao receber e ler o título do panfleto. Contudo, o grupo entendeu, ele próprio, pronunciar-se acerca do desafio que tinha lançado aos membros do Sínodo e, depois de algumas reuniões, adotou a tal carta com os seus pontos de vista, que endereçou ao núncio, em 4 de março seguinte.

A posição mereceu notícia nos dois diários bracarenses, um deles (o Diário do Minho) propriedade da Igreja Católica, bem como no Público e no Expresso. O grupo nunca foi formalmente abordado por qualquer instância eclesiástica para esclarecer ou aprofundar o que tinha divulgado. Que tenha sido conhecido, o convite que lançou aos membros do Sínodo, ou seja, a muitos dos membros mais empenhados da Igreja local, não teve outras repercussões.

Algumas das notícias das movimentações de leigos, em 1998, para participar na escolha do arcebispo de Braga.

 

Nos media, D. Jorge Ortiga, o bispo auxiliar que havia sido o principal motor do Sínodo, desvalorizou a iniciativa, dizendo que “a escolha do novo arcebispo não é tarefa que faça parte das atribuições dos leigos” (Público, 24 de novembro de 1997). D. Eurico, em declarações ao então jornalista Mário Robalo, no Expresso, disse não ter ficado surpreendido com o perfil apresentado pelo grupo e entendeu até que também ele tentou cumprir o que os subscritores propunham (Expresso, 21 de março de 1998).

Apesar de o grupo que se movimentou neste processo de sucessão de D. Eurico Dias Nogueira, ter deliberadamente recusado entrar na questão dos nomes para o preenchimento do cargo, essa problemática esteve sempre presente. Por um lado, o nome do bispo auxiliar D. Jorge Ortiga aparecia a muitos como solução natural, dado o seu papel na pastoral e o conhecimento da realidade diocesana. Por outro, corria em alguns setores da Igreja bracarense o nome de um diplomata português com carreira já feita ao serviço do Vaticano, que seria forte “candidato” ao lugar de arcebispo, o que era visto como um potencial retrocesso, dada a sua feição conservadora. Daí que quem não via com bons olhos o nome de Jorge Ortiga chegasse a batizar o grupo de leigos que apresentou um perfil como “os amigos de D. Jorge”. A verdade é que, desde o início, a opção foi assumidamente no sentido de se procurar apontar critérios e valores que não pusessem travão e, se possível, dessem asas ao que no Sínodo se tinha conseguido aprovar. Como é óbvio, no perfil definido não poderia caber qualquer um.

Resposta do núncio apostólico em Lisboa, Edoardo Rovida, à carta sobre o perfil para o novo arcebispo de Braga.

Terá a movimentação em torno do perfil do sucessor de D. Eurico Dias Nogueira tido alguma influência na escolha que acabou por recair em D. Jorge Ortiga? O silêncio cobriu o assunto, como é de hábito, apesar de o núncio Edoardo Rovida ter respondido diplomaticamente, na carta de agradecimento da tomada de posição do grupo de leigos, que “a Santa Sé tem sempre na devida conta as aspirações das Igrejas locais”. Mais do que a influência, difícil de avaliar num processo altamente secreto, importa deixar registada a iniciativa e o seu contexto, no momento em que se perspetiva uma nova escolha.

 

Amanhã: depoimento de Alexandre Gonzaga, jornalista

 

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