Um novo arcebispo para Braga (2): Um homem de sinais

| 2 Set 20

D. Jorge Ortiga foi nomeado arcebispo de Braga em 5 de junho de 1999, e solicitou a sua substituição em 2019, ao completar 75 anos. Estando para breve a sua substituição (já correm vários nomes de candidatos),e tendo em conta a importância da diocese de Braga no panorama católico português, o 7MARGENS lançou um curto inquérito a pessoas da diocese de Braga sobre o perfil que desejariam ver para o novo arcebispo, em termos de qualidades humanas, sociais e eclesiais. Num primeiro texto da série, recordámos o que se passou em 1999, quando a nomeação de D. Jorge Ortiga pelo Papa João Paulo II foi antecedida por uma movimentação de leigos da arquidiocese, no sentido de dizer que perfil deveria ter a pessoa escolhida.

Alexandre Gonzaga, jornalista.

Iniciamos hoje a publicação dos depoimentos. Este é o de Alexandre Gonzaga, jornalista e leigo da arquidiocese de Braga.

 

A bênção extraordinária “Urbi et Orbi” concedida pelo Papa Francisco, em março, na Praça de São Pedro completamente vazia, é uma das imagens que marcam o ano em curso. Simbólica, delimitou claramente o mapa das prioridades da humanidade e da própria Igreja Católica, assinalando um novo ponto de partida na reaproximação das pessoas, na luta pela dignidade humana e no vital respeito pela natureza.

A oração do Papa sublinhou a importância de se “redefinir o curso da vida” em tempos de pandemia do novo coronavírus. Envolvido pela frieza da grandiosidade monumental do Vaticano, Francisco apontou com esperança para a difícil tarefa de superação de uma crise à escala planetária.

Consciente que os ciclos económicos são cada vez mais curtos e que o período difícil em curso acabará por atingir inevitavelmente os mais vulneráveis, o Papa constituiu a Comissão do Vaticano para a covid-19, “um mecanismo de análise e reflexão sobre as consequências sócio-económicas, culturais, políticas e espirituais da pandemia”, e que tem implicações práticas na vida eclesial.

O líder do projeto, o padre argentino Augusto Zampini, realçou em entrevista ao jornal italiano La Stampa que “não podemos repetir os erros da crise de 2008”, num mea culpa que também acabou por desafiar a Igreja Católica a coordenar melhor a ação social dos seus setores, movimentos e fiéis. Francisco sinalizou, assim, que a fórmula do costume (social e eclesial) não basta e convidou, implicitamente, as dioceses de todo o mundo a reavaliarem as suas prioridades pastorais para serem sinais credíveis e concretos de esperança ao longo deste ciclo difícil.

Bergoglio acenou, com espírito sinodal, para uma nova simbologia no contexto da crise económica em curso provocada pela pandemia. Oportuno, pediu gestos contundentes e proféticos que desencadeiem ações sociais decisivas e comportamentos eclesiais condizentes que se perpetuem no tempo, ou seja, uma nova linguagem que “diga” mais do que as manifestações e as aparições públicas constantes e repetitivas de alguns responsáveis eclesiais e eclesiásticos.

Tal como Francisco, o próximo arcebispo de Braga não só herdará a complexidade desta igreja particular, o seu peso histórico, património cultural e a sua monumentalidade, mas também um Baixo Minho em depressão, com taxas de desemprego significativas e empresas em dificuldade devido à covid-19.

Sé de Braga: “Importa que o futuro arcebispo emita sinais concretos de que o objetivo da próxima etapa seja preferencialmente social.” Foto © DACS (Departamento Arquidiocesano das Comunicações Sociais), cedida pelo autor.

 

Depois da aposta infraestrutural assumida nas últimas duas décadas (o Espaço Vita é o exemplo mais recente, com o anúncio, no início deste ano, da transformação da área envolvente no novo quarteirão cultural arquidiocesano), importa que o futuro arcebispo emita sinais concretos de que o objetivo da próxima etapa seja preferencialmente social. Sem dúvidas ou compassos de espera pela sucessão apostólica (o Papa Francisco tem 83 anos de idade), pois, as assimetrias territoriais exigem um esforço urgente e dedicação permanentes. Caberá ao responsável eclesiástico congregar e liderar aqueles movimentos e leigos especialistas na área social.

Se a opção pelos mais pobres e vulneráveis é um imperativo evangélico, interessa, por isso, que o próximo arcebispo aposte decisivamente na formação dos leigos e assuma que só se conseguirá vislumbrar os resultados do caminho percorrido no prazo médio de uma geração (alguns párocos e movimentos poderão partilhar a sua experiência na formação de adultos, num “partir pedra” lento mas necessário…).

Desse processo resultarão lideranças laicais avessas a protagonismos estéreis e cargos permanentes (cópia do carreirismo eclesiástico legitimamente criticado), e, por isso, contrárias a uma igreja clericalizada e ritualista que ainda persiste nalguns círculos bracarenses e que torna fria a herança histórica, monumental e litúrgica da arquidiocese.

Amanhã: Depoimento de Ana Maria Pinto, militante da LOC/Movimento de Trabalhadores Cristãos e ex-acompanhante do Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crianças

 

Violência e saque continuam em Cabo Delgado: “Esta é a dor de um povo”, diz missionário refugiado em Pemba

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“As lideranças [das aldeias] relatam que, pelos caminhos, estão encontrando muitos corpos já em decomposição e que aconteceram massacres. As acções dos terroristas são violentas, muitas pessoas foram decapitadas, casas queimadas e derrubadas. Esta (…) é a dor de um povo. Gente que continua sem localizar seus familiares. Pessoas que tiveram suas casas queimadas. Muitas pessoas assassinadas. Fala-se de massacres e de 500 mil deslocados. Vidas e vilas destruídas.”

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Breves

Reino Unido: Líderes católicos condenam cortes na ajuda ao desenvolvimento

A hierarquia da Igreja Católica britânica condenou veementemente a decisão anunciada esta semana pelo ministro das Finanças do Reino Unido, Rishi Sunak, de reduzir a ajuda ao desenvolvimento em 2021 para 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto) contra os habituais 0,7%, o que significa um valor de cerca de 10 mil milhões de libras (cerca de 11 mil milhões de euros), contra os 15 mil milhões de libras de anos anteriores.

Exéquias de frei Armindo Carvalho, ex-provincial dos Franciscanos

Decorreram nesta quarta-feira, no Seminário da Luz, em Lisboa, as cerimónias exequiais de frei Armindo de Jesus Ferreira Carvalho, ex-ministro provincial dos franciscanos (Ordem dos Frades Menores). A celebração foi presidida pelo patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente.

Atenção aos pobres, pedem os bispos numa nota de preparação do Natal

Num texto de duas páginas e de estilo diferente do habitual – menos formal, com menos linguagem eclesiástica –, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) divulgou nesta terça-feira, 24, uma mensagem para o Advento, tempo de preparação para o Natal que se inicia no próximo domingo.

Um consistório virtual para os novos cardeais

O Vaticano confirmou nesta terça-feira, 24, que haverá uma plataforma em vídeo para a cerimónia de criação dos novos cardeais, no próximo sábado, para os que não possam estar em Roma fisicamente, garantindo assim as medidas de segurança devido à pandemia. Haverá no máximo 100 pessoas a participar e as visitas de cortesia e abraço da paz entre os novos cardeais ficam cancelados.

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Boas notícias

Dia Mundial dos Pobres: Vaticano oferece testes de covid-19 a sem-abrigo e distribui 5 mil cabazes de alimentos

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O Dia Mundial dos Pobres deste ano será assinalado, no próximo domingo, 15 de novembro: o Papa celebrará missa com um grupo de 100 pessoas na Basílica de São Pedro, serão oferecidos testes de covid-19 nas instituições do Vaticano que apoiam a população carenciada, e distribuídos cinco mil cabazes de alimentos para ajudar famílias em 60 paróquias de Roma.

É notícia

Espanha: Fiéis exigem que bispo de Cádiz-Ceuta seja investigado por suspeitas de má gestão

A Plataforma pró-justiça na diocese de Cádiz enviou esta semana uma carta ao núncio espanhol, Bernardito Auza, denunciando que o bispo de Cádiz-Ceuta, Rafael Zornoza, “realiza atividades económicas e patrimoniais que causam profundo mal-estar e escândalo na população, além de serem de legalidade duvidosa”. Assinada por mais de 300 fiéis, a missiva dirige-se também ao Papa, e nela se exige “uma completa e profunda investigação-auditoria à gestão do bispo”.

Colaboradora da Cáritas entre as 100 mulheres mais influentes do mundo

A cadeia noticiosa britânica BBC divulgou esta semana a lista das “100 mulheres mais inspiradoras e influentes de todo o mundo em 2020”. Entre elas, e lado a lado com personalidades como a atriz norte-americana Jane Fonda ou a primeira-ministra da Finlândia Sanna Marin, está Susana Raffalli, uma colaboradora da Cáritas Venezuela. Médica nutricionista, Raffali é a responsável pelo sistema de monitorização da alimentação infantil no país enquanto este atravessa uma crise humanitária sem precedentes, e que já salvou da morte milhares de crianças.

Aristides de Sousa Mendes homenageado na Argentina

O Seminário Rabínico Latino-Americano e a Embaixada de Portugal na Argentina estão a promover uma Cátedra de Estudos Judeo-Portugueses, de homenagem a Aristides de Sousa Mendes, o primeiro dos quatro “Justo entre as Nações” portugueses.

Estado de Nova Iorque processa diocese de Buffalo por encobrimento de abusos sexuais

A procuradora-geral do estado de Nova Iorque, Letitia James, processou esta segunda-feira a diocese de Buffalo e dois dos seus antigos bispos, por terem encoberto mais de 20 padres acusados de cometer abusos sexuais e permitido que os mesmos se reformassem ou fossem transferidos, em vez de terem seguido os procedimentos definidos pela Igreja Católica para estes casos, que os teriam levado a um possível abandono do sacerdócio.

Entre margens

Valha-me o bom samaritano novidade

A idolatria da juventude leva os mais velhos a dizer coisas como “já não tenho idade para mais”. O referido palestrante ridiculariza esta desculpa. Eu vou tendo idade para fazer as coisas com mais experiência e conhecimento – e, portanto, com mais criatividade.
Aproveito ainda não ter lido a carta de Francisco Samaritanus bonus para exemplificar sentimentos e razões que podem nascer das referências e comentários nos meios de comunicação – como no 7MARGENS.

A Ilha da Verdade no Oceano da Desinformação

Quando vejo quanto tempo as pessoas dedicam aos seus ecrãs, dentro e fora de casa, mais ainda em tempo de pandemia onde andamos todos feitos zoomies, isto é, mortos-vivos de zoom em zoom, fico a pensar que não nos podemos queixar de não ter sido avisados. O que procuramos com todo este dinamismo digital? Que valor tem a conectividade permanente para uma vida plena e profunda? Sabemos ainda o que alimenta uma vida profunda?

O futuro será bom, se o presente o for

E, já agora, falando em mulheres e em livros, escrevo, também, numa altura em que me encontro a fazer um prefácio a uma antologia de textos literários de mulheres, juntamente com Ana Mafalda Leite. Eu e ela, bem como Ana Rita Santiago, ambas docentes de literaturas; a primeira em Portugal e a segunda no Brasil, temos trabalhos nos quais recenseámos a existência de mulheres escritoras em Moçambique (nascidas no país e lusodescendentes), das quais pouco se fala e escreve. Aproveito este espaço para divulgar os nomes dessas escritoras e mais adiante, neste texto, explicarei a razão da sua invocação. Colocarei em itálico, os nomes das que me consta não estarem entre nós.

Cultura e artes

Não podemos ignorar novidade

Há muitas razões que tornam este pequeno livro maior do que a sua dimensão física. A bibliografia sobre a luta antifascista é já extensa, mas este ensaio é diferente. Ao fazer a história da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP) nos seus cinco anos de existência (1969-1974), Edgar Silva escolhe retratar a sociedade portuguesa daquele período a partir do conceito de medo.

“Vimos do mar e da montanha”, um disco contemporâneo apresentado sábado, 28, em Lisboa

Vimos do Mar e da Montanha é o título do projecto discográfico que será apresentado neste sábado, 28 de Novembro, às 11h, na Igreja de São Tomás de Aquino (Lisboa). Com edição da Paulus Editora, o disco tem música de Alfredo Teixeira e João Andrade Nunes, e textos de José Augusto Mourão e do Missal Romano, sendo interpretado pelo Ensemble São Tomás de Aquino.

Descoberto esboço de retrato de Jesus atribuído a Leonardo da Vinci

Um equipa de investigadores italianos encontrou recentemente, numa coleção privada na região da Lombardia, o esboço de um retrato de Jesus Cristo que acreditam ser da autoria de Leonardo da Vinci. O desenho, feito a giz vermelho – técnica que era frequentemente utilizada pelo pintor renascentista – tem semelhanças com algumas das suas obras mais emblemáticas, nomeadamente “Mona Lisa” e os seus autorretratos, revelou o jornal britânico The Telegraph.

Abrir as “páginas seladas” do livro bíblico do Apocalipse em tempo de pandemia

O livro bíblico do Apocalipse (ou da Revelação) é uma profecia para tempos de crise e por isso é importante abrir agora as suas “páginas seladas”. Com esse mote, a comunidade católica da Capela do Rato propõe três sessões sobre o último dos livros da Bíblia cristã. Uma conferência de João Duarte Lourenço, uma leitura de Luís Miguel Cintra e um percurso proposto por Emília Nadal através da arte inspirada naquele texto serão as três etapas propostas para este itinerário.

Dois retábulos em restauro no Mosteiro de Pombeiro

Os retábulos de Nossa Senhora das Dores e de Santo António (bem como as respectivas esculturas) na nave da igreja do Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro (Felgueiras) estão a ser sujeitos a uma operação de conservação e restauro, com o objectivo de melhorar a estabilidade estrutural, valorizar a vertente conservativa e restituir, tanto quanto possível, uma leitura integrada do conjunto.

Sete Partidas

Ídolo novidade

Não sei quem escreveu o livro do Levítico, e gostava de saber, para lhe deitar as culpas retroactivas do fundamentalismo que se abateu sobre vastas áreas da Europa no século XVI, e que levou simpáticos cristãos a destruir inúmeros objectos de arte sacra porque viam neles uma blasfémia.

Aquele que habita os céus sorri

estamos perto

breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo I Advento B | Lisboa, 28 de Novembro de 2020.
António Pedro Monteiro

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