Um novo arcebispo para Braga (5) – Deolinda Machado: Elevar padrões de cidadania

| 5 Set 20

Cátedra do bispo na Sé de Braga: “Promover a educação para os valores humanos, sociais e espirituais, mobilizando a comunidade em torno da promoção da justiça social, do respeito pela diferença, afirmando a cidadania participativa.” Foto © Eduardo Jorge Madureira

 

D. Jorge Ortiga foi nomeado arcebispo de Braga em 5 de junho de 1999, e solicitou a sua substituição em 2019, ao completar 75 anos. Estando para breve a sua substituição (já correm vários nomes de candidatos),e tendo em conta a importância da diocese de Braga no panorama católico português, o 7MARGENS lançou um curto inquérito sobre o perfil que várias pessoas da diocese desejariam ver para o novo arcebispo, em termos de qualidades humanas, sociais e eclesiais.

Num primeiro texto da série, recordámos o que se passou em 1999, quando a nomeação de D. Jorge Ortiga pelo Papa João Paulo II foi antecedida por uma movimentação de leigos da arquidiocese, no sentido de dizer que perfil deveria ter a pessoa escolhida.

Fica, a seguir, o quarto depoimento: Deolinda Machado, professora, dirigente da Liga Operária Católica-Movimento de Trabalhadores Cristãos e do Movimento Erradicar a Pobreza, e ex-dirigente da CGTP.

 

Deolinda Machado. LOC. CGTP

Deolinda Machado.

A presente situação mundial é marcada por uma grande instabilidade. São tempos difíceis no meio de uma pandemia que a todos atinge; porém quem mais sofre são os que menos meios têm para fazer face às suas necessidades básicas.

Sabendo que antes da pandemia já havia muitos portugueses que viviam no limiar da pobreza e exclusão social, quantos vão passar ao patamar da pobreza com grau de privação severa? Em que situação vão ficar, muitos dos que – ainda com atividade laboral – já estavam em situação de pobreza?

A palavra Páscoa está ligada a “PASSAGEM”. Passagem da morte para a Vida, na celebração da Ressurreição de Jesus Cristo, nas celebrações cristãs.

A celebração da Páscoa da Ressurreição deve estar sempre no nosso quotidiano, com a entrega aos outros, dos muitos profissionais que cuidam de quem mais precisa, no âmbito da saúde e de muitas outras áreas, seguindo o exemplo de Jesus que deu a vida por nós e nos deixou o mandamento do amor: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15, 12).

A pandemia com que nos confrontamos, hoje, vai deixar muitas marcas: encerramento de empresas, desemprego, exploração, miséria, endividamentos, pobreza, violência doméstica, divórcios, entre outras. Esta situação deve constituir, também, um tempo de reflexão e ação permanentes.

Como comunidade humana, que modelo de sociedade pretendemos (re)construir? Como cuidarmos da nossa Casa Comum? Estas são as questões de onde parto.

Acompanho as palavras do Papa Francisco, no último Domingo de Páscoa, dirigindo-se aos movimentos e organizações populares: “espero que este momento de perigo nos tire do piloto automático, sacuda as consciências adormecidas e permita uma conversão humanista e ecológica que termine com a idolatria do dinheiro e coloque a dignidade e a vida no centro(…) pois ninguém se salva sozinho. Apela ainda ao protagonismo dos Povos em toda a sua diversidade e no acesso universal aos três T: (…) terra e comida, teto e trabalho.

Acompanho também António Guterres, secretário-geral da ONU, quando reiteradamente apela ao cessar fogo e à importância da Paz e cooperação entre os povos. Todos não somos demais para fazer a diferença em torno da Paz.

A defesa dos Direitos Humanos – base do desenvolvimento e progresso da Humanidade – a defesa das pessoas, independentemente da sua origem social, país, língua e cultura, cor da pele ou religião, também plasmada na Constituição da República Portuguesa, é o compromisso cidadão que nos move e que se requer que tenha, no seu perfil, quem assume responsabilidades como as de um arcebispo.

Alguns aspetos que considero que devem ainda integrar o perfil do arcebispo de Braga:

Promover a educação para os valores humanos, sociais e espirituais, mobilizando a comunidade, a opinião pública em torno da promoção da igualdade e da justiça social, do respeito pela diferença de pensamento e cultura, afirmando a cidadania participativa na Igreja e na sociedade.

Impulsionar a elevação dos padrões de consciência cidadã de cada pessoa, que conduza ao pensamento crítico e ação transformadora, junto das comunidades: movimentos, seminários, catequeses, escolas, universidades, para que cooperem na preparação de quadros capazes de promover uma educação integral do indivíduo, isto é, de educar para a liberdade, para a democracia, para a responsabilidade, para a autonomia e para a solidariedade, desenvolvendo relacionamentos sociais em igualdade de direitos e deveres.

Promover o diálogo com o mundo do trabalho, inter-religioso, atender ao simbólico, à identidade cultural, à multiculturalidade, à religiosidade popular, às representações sociais, às políticas públicas, impulsionando o bem comum numa cultura de serviço público.

Desempenhar com honestidade, coerência e firmeza de carácter as responsabilidades assumidas; o exercício de princípios consagrados na Doutrina Social da Igreja, os quais estuda, aprofunda e atualiza, testemunhando a fé e a esperança que partilha no dia-a-dia com o seu o Povo.

Apoiado nos valores que a Doutrina Social da Igreja preconiza, importa ter presentes princípios fundamentais como: cuidar da Criação; zelar pela Casa Comum; a opção preferencial pelos mais pobres; garantir que todas e cada uma das pessoas têm uma vida digna.

Se a economia fosse centrada nas pessoas e não no lucro, o crescimento das desigualdades não se dava. A justiça fiscal teria outros efeitos, se não houvesse o pecado da fuga aos impostos, associado ao egoísmo e ao individualismo. Urge apostar no Trabalho Digno para todos, salvaguardando o Domingo – com o encerramento de grandes superfícies ou redução de horários para permitir o encontro entre os membros das famílias, para que possam usufruir do descanso, do lazer, do culto religioso, da formação e da cultura –, numa sociedade organizada a partir do Trabalho, alicerçada em valores, com direitos e deveres, onde não haja lugar para a indiferença!

 

Amanhã: depoimento do grupo do Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crianças (MAAC)

Depoimentos já publicados: Alexandre Gonzaga (jornalista), Ana Maria Pinto (militante da LOC/Movº de Trabalhadores Cristãos) e Luís António Santos (prof. universitário).

 

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