“O coração do nosso Pai não está com os ímpios, os tiranos, ou os soberbos” (Annaba, Argélia); “Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para obter ganhos militares, económicos e políticos!” (Bamenda, Camarões); “Ai dos “poderosos que exploram a violência” para frustração “da esperança de muitos” (Saurimo, Angola); “O Senhor vos ajude a trabalhar ao serviço do bem comum e não de interesses particulares, superando as desigualdades entre privilegiados e desfavorecidos” (Mongomo, Guiné Equatorial).
De quem é esta voz que se ergue diante de dezenas milhares de pessoas e que não vacila na presença de dirigentes políticos enriquecidos à custa da pobreza de povos coartados nas suas liberdades mais fundamentais? Em que comícios – gozando de uma súbita liberdade – foram aquelas frases proferidas? Que organização conquistou os espaços de emancipação, sem cargas policiais, confrontos e prisões, em que milhares de pessoas se puderam juntar para ouvir tais denúncias e serem incentivados a viverem como “profetas da paz, da justiça, do perdão e da solidariedade”?
Os ecos dos discursos e homílias que Leão XIV proferiu em quatro países africanos prolongam-se para além dos dias da sua passagem. E fundem-se com a memória da liberdade e da comunhão vividas por quem participou na organização dos encontros com o Papa. Ou com a inesquecível experiência de quem, simplesmente, integrou a multidão reunida para celebrar a passagem do bispo de Roma.
Palavra e experiência coletiva deixaram nestes dias de ser duas realidades distintas para se constituírem como pilares de uma memória com consequências futuras naqueles Estados que teimam em eliminar do espaço público os povos que são supostos servir. Veremos com que consequências nas relações Estado-Igreja…
É verdade que não foi apenas contra os tiranos e os poderosos que o Papa ergueu a sua voz durante o périplo africano de 11 dias que hoje termina. Deslocou-se aos lugares onde vivem os últimos dos últimos. Visitou prisões, abrigos para crianças abandonadas e lares de idosos. Conviveu com velhos debilitados, meninos e meninas, crianças desprotegidas, e detidos condenados.
Fez também homílias catequéticas, muitas vezes centradas no mistério de Cristo ressuscitado. Não se limitou a condenar as situações de injustiça política, económica, social e cultural: estimulou irmãs, catequistas, padres e bispos a zelarem pelas comunidades cristãs, dando-lhe o melhor de si mesmos.
Esperança que conduz à ação

O Papa num primeiro discurso às autoridades de Angola, no palácio presidencial. Foto © Vatican Media.
Todos estes aspetos estiveram presentes em cada país visitado. Mas não se pode acusar os média de distorcerem o sentido último destes dias, relevando apenas as intervenções do Papa com impacto social e político. Esta não é uma leitura enviesada dos 11 dias africanos de Leão XIV. A cobertura da viagem papal foi, de facto, diferente da realizada em outras deslocações. Por debilidade dos média africanos, ou pela sua fraca integração no sistema mediático mundial, chegou-nos uma imagem quase exclusivamente institucional do que o Papa viveu, fez e disse.
Em vários dias ficámos sem saber onde dormiu Robert Prevost, quem recebeu em privado, que disse a este ou àquele bispo, onde e quando se emocionou… Anos de controlo, censura e repressão limitam a capacidade dos média locais para ousarem retratar a pessoa de qualquer dignatário. Por outro lado, os média globais, com poucos ou nenhuns correspondentes locais, sem proximidade à vida e aos atores de cada lugar e ocupados pelos ataques e palhaçadas do Presidente Trump contra o Papa, pouco conseguiram reportar sobre as partes menos oficiais desta viagem.
Mas, relendo os textos das intervenções e homílias proferidas, não restam dúvidas: perante as plateias africanas que se juntaram para o ouvir, Leão XIV escolheu denunciar o império dos “que saqueiam os recursos destas terras” e “investem grande parte dos lucros em armas” e estimular a ação da Igreja para que “cresçam os espaços de liberdade” e “participe do desenvolvimento integral desta terra, da sua renovação, da sua transformação” para que as suas riquezas sejam “uma bênção para todos”.
O bispo de Roma não se limitou a condenar as situações de injustiça e os sistemas que protegem os insaciáveis atores que as provocam. Ele ofereceu a todos os que o escutaram em qualquer um dos quatro países em que passou as razões de uma esperança confiante e inabalável de que não foi para viver assim que Deus nos criou. “Podemos confiar na obra do Senhor, que faz brotar a boa semente do seu Reino por caminhos desconhecidos para nós, mesmo quando tudo ao nosso redor parece estéril e até mergulhado em escuridão.” (Mongomo, Guiné Equatorial).
Essa confiança vem da certeza de que Deus não é indiferente ao que os povos vivem. Deus toma parte: “O coração do nosso Pai não está com os ímpios, com os tiranos, com os soberbos; o coração de Deus está com os humildes e os simples.” E clama a que os cristãos se comprometam a encontrar caminhos para responder à “fome de futuro, de um futuro habitado pela esperança, um futuro que possa gerar uma nova justiça, que possa dar frutos de paz e fraternidade”. Um futuro “que, pela graça de Deus, somos chamados a construir”.
Os tempos de justiça e de respeito “pela vida e pela dignidade de cada pessoa” que indicou como horizonte do “compromisso partilhado” dos cristãos não são caminho a percorrer sozinhos. A esperança reside na confiança de uma companhia: “Cristo ouve o clamor do povo e renova a nossa história, erguendo-nos de cada queda, consolando-nos em cada sofrimento e encorajando-nos na nossa missão”.
25 de abril, paz e reconciliação

Leão XIV à saída da Basílica da Imaculada Conceição, em Mongomo, Guiné Equatorial. Foto © Vatican Media
Confiança e esperança que não se confundem e muito menos se baseiam numa perceção ingénua do mundo e da conjuntura atual. O Papa Prevost reconhece que “vivemos uma época de desespero generalizado e em que a sensação de impotência tende a paralisar a renovação”. Mas também descortina “uma fome e uma sede enormes por justiça, por participação, por sonho, por escolhas corajosas e por paz”. Que são, então, os católicos chamados a viver, a promover? A serem “construtores de um futuro de esperança, paz e reconciliação”.
Um futuro de esperança, paz e reconciliação? Que desígnio mais distante daqueles políticos que não param de alardear a sua condição de católicos, referindo que antes de tudo o que é importante vão à missa! Frequentam igrejas, dizem-se católicos, discorrem a partir do que dizem ser a tradição cristã, mas o que dizem e fazem é tudo contrário a um apelo em direção a “um futuro de esperança, paz e reconciliação”.
Denunciar a ação dos que “saqueiam os recursos destas terras” e “investem grande parte dos lucros em armas”, ou dos “poderosos que exploram a violência” e roubam “a esperança de muitos”, ou ainda dos “violentos e dos tiranos que frustram os sonhos de tantas pessoas por eles são exploradas” é trabalho que aquele tipo de gente abomina. Beliscar os poderosos traz problemas e retaliações. Menos problemático e mais fácil é berrar constantemente contra os mais fracos e desprotegidos: os imigrantes, os desempregados, as mulheres, os ‘não-brancos’.
O convite do Papa várias vezes repetido estes dias para “atender às necessidades dos outros, especialmente dos mais vulneráveis”, transforma-se, na gritaria e na ação destes “bons católicos”, no ataque não só a tudo quanto protege os mais vulneráveis, mas no ataque preferencial aos próprios “mais vulneráveis”.
Celebrar o 25 de abril, reforçando a memória da opressão, do obscurantismo, da guerra e do reino dos “donos disto tudo” de que ele nos libertou, é festejar a alegria de participar no combate daqueles que procuram responder ao desafio de Leão XIV para saciar a “enorme fome e sede” “por justiça, por participação, por sonho, por escolhas corajosas e por paz” que habita “os humildes e os simples”.










