Adriano VI eleito há 500 anos

Um papa “estrangeiro” que queria reformar a Igreja

| 8 Jan 2022

Papa Adriano VI

Adriano de Utrecht, ainda bispo de Tortosa, a receber uma delegação germânica, num quadro de Josep Benlliure, de 1872.  

Completam-se neste domingo, 9 de janeiro, 500 anos sobre a eleição do Papa Adriano VI. Com tantos papas, o facto não seria notícia não se desse o caso de ter sido o primeiro e único papa holandês da história da Igreja e o último não italiano a ocupar o lugar do sucessor de Pedro até à eleição de João Paulo II, 456 anos depois. Mas há mais motivos que suscitam interesse na trajetória desta figura.

Nascido em Utrecht, nos Países Baixos, em 1459, Adriaan Florenszoon Boeyens era filho de um casal de que há registo ser o pai carpinteiro naval, desenvolveu estudos localmente e, mais tarde, na Universidade de Lovaina. A progressão académica foi meteórica: chegou a chanceler e dizem os relatos que os seus estudantes acorriam a registar e publicar as lições do mestre. Entre esses alunos figurou Erasmo de Roterdão.

A sua projeção levou o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Maximiliano I, a nomeá-lo, em 1507, tutor do seu neto, o futuro Carlos V. Enquanto Duque da Borgonha, este era já senhor dos Países Baixos desde o ano anterior, com apenas sete anos. Esta ligação acabou por envolver Adriaan cada vez mais na vida do império, tendo sido enviado para missões diplomáticas delicadas nomeadamente em Espanha, da qual Carlos V passaria a ser rei (com o nome de Carlos I), a partir de 1516. Certamente por influência deste rei, Adriano passou a ser nesse mesmo ano bispo de Tortosa (sendo feito cardeal no ano seguinte) e mesmo regente, quando o rei se deslocava para terras distantes do Império.

A ascensão ao papado acontece de forma surpreendente, não apenas para Adriano. O Papa Leão X morreu em finais de 1521, no meio de uma grave crise da Cúria e uma mais grave ameaça que acabava de surgir com a afixação das famosas 95 teses de contestação do papado e do catolicismo, por parte do monge Martinho Lutero, em 1517.

Na entrada para o conclave, o nome tido por mais provável era o de um primo do defunto papa, Giulio di Medici. Os cardeais espanhóis, germânicos e franceses não se entenderam com o nome do sucessor e, após acesos debates e votações, acabaram por escolher, quase por unanimidade, em 9 de janeiro 1522, um cardeal que nem sequer estava presente – Adriaan Florenszoon Boeyens. Rezam as crónicas que este ficou perturbado ao saber da notícia e só chegou a Roma para a coroação em finais de agosto seguinte, tomando o nome de Adriano VI.

A surpresa surgiu logo nos primeiros meses do seu magistério quando, ciente do desafio do movimento protestante, manifestou a vontade de atacar alguns abusos, nomeadamente o da venda de indulgências. Muitos cardeais resistiram quanto puderam. Mas Adriano VI pretendia ir mais longe, mexendo na estrutura da Cúria e noutras matérias. A nobreza italiana, dominada por algumas famílias poderosas e habituada a influenciar os papas, começou a dar sinais de incomodidade, criticando a alegada insensibilidade do recém-chegado às artes e acusando-o de ser “um pedante professor estrangeiro e que era cego para a beleza da antiguidade clássica”.

Alguns sustentam que Adriano VI não entendeu logo o alcance do movimento acabado de lançar por Lutero: considerava-o herege e recusou qualquer compromisso doutrinal, na Dieta de Nuremberga, em 1522; ao mesmo tempo, defendia que a Igreja Romana precisava realmente de reforma em questões administrativas como indulgências e corrupção do clero.

Entre as intenções e projetos de Adriano VI, as dificuldades internas da Igreja do tempo e os desafios externos, como o avanço dos turcos otomanos a leste, o novo Papa morreria de doença, pouco mais de um ano depois de ter tomado posse, em setembro de 1523, sem ter tempo de concretizar o que pretendia. Sucedeu-lhe… um novo Medici.

Para avivar a sua memória e conhecer melhor a sua ação, a Conferência Episcopal da Holanda e a Arquidiocese de Utrecht abrem agora um “Ano de Adriano”, com uma celebração na Catedral Khatarina, em Utrecht, e se prolongará com um programa de eventos.

Fonte complementar: New World Encyclopedia

 

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