Scholas Ocurrentes, em Cascais

Um Papa na sua faceta de pedagogo

| 3 Ago 2023

JMJ, Papa Francisco, Scholas Ocurrentes

O Papa Francisco no encontro com os jovens do projecto Scholas Ocurrentes, em Cascais. Foto © António Cotrim/JMJ-2023-Lusa-Pool

 

O Papa Francisco chegou ao final da manhã desta quinta-feira ao espaço-sede do projeto Scholas Ocurrentes (“escolas de vizinhos”), depois de ter seguido, ao longo de mais de três quilómetros, um mural pintado que é um exemplo e resultado da filosofia pedagógica de inclusão e capacitação por ele adotada.

Esse espaço onde decorreu o encontro com os jovens envolvidos também se encontrava totalmente decorado, a ponto de o Papa ter feito sua uma comparação que lhe tinha sido feita momentos antes pelo diretor mundial do Scholas, Jose Maria del Corral: que estavam perante “uma Capela Sistina” pintada pelos alunos.

Ali o Papa fez o que gosta de fazer: escutar testemunhos e perguntas e responder. Depois de alguns depoimentos, a primeira intervenção de foi um jovem muçulmano originário da Guiné-Bissau, que disse sentir que naquele espaço “todos partilham as suas emoções e sentimentos” e “contribui com aquilo que tem, de valores éticos e morais para o bem-estar da comunidade”. E fá-lo independentemente da sua religião ou origem. “Sou guineense, da Guiné-Bissau, e (…) sendo muçulmano, sinto obrigação e dever de me juntar e fazer parte deste movimento. Porque o que o islão também apela é à boa convivência entre as diferentes crenças.”

A segunda pergunta aludiu à diversidade de situações que os jovens encontraram, gerando a sensação de caos, mas ao mesmo tempo de conhecimento e encontro dos diferentes.

Aí o Papa ligou a noção de caos com a de crise e referiu que a crise, na vida, constitui um momento de decisão e que “uma vida sem crise é como a água destilada, não tem sabor”. Por isso, acrescentou, “as crises têm de ser assumidas, e raramente sozinhos. E isso também é importante no grupo Scholas: caminhar juntos para enfrentar as crises juntos, para resolver as coisas juntos e avançar, para crescer juntos…”

A noção de caos e de sentido voltou, numa outra intervenção, a partir da experiência de pintar o mural: visto de perto o mural não passa de uma série de linhas e manchas de cores, mas visto à distância ganha formas e sugere significados.

A vida humana, comentou, a propósito, Francisco, “é fazer um cosmos a partir do caos, isto é, a partir do que não faz sentido, do que é desordenado, caótico, fazer um cosmos com sentido, aberto, convidativo, complexo”. E acrescentou: “Há momentos de crise – volto a usar a palavra – que são caóticos, que não sabemos onde estamos, e todos nós passamos por esses momentos, momentos sombrios. O caos. E aí o trabalho pessoal das pessoas que nos acompanham, de um grupo como este, é transformar o cosmos. (…) Nunca te esqueças disto: do caos, transforma um cosmos. E esse é o caminho de cada um de nós, não é? Uma vida que fica no caótico é uma vida falhada e uma vida que nunca sentiu o caos é uma vida destilada, tudo perfeito, não é? E as vidas destiladas não dão vida, morrem em si mesmas.”

A sessão deu azo ao Papa para, a propósito de um quadro que representa a parábola do Bom Samaritano – e que ofereceu aos seus anfitriões daquele momento – fazer uma leitura não tanto do quadro, mas do sentido e alcance da parábola. Para concluir, depois, que “nenhum de nós está eximido de ser um bom samaritano”.

“Pensem um pouco nesta história”, pediu aos participantes na sessão. “Onde é que eu estou, a magoar as pessoas? A tirar o corpo das dificuldades reais ou a sujar as mãos? Por vezes, na vida, é preciso sujar as mãos para não sujar o coração”, alertou.

 

O que é a Scolas Ocurrentes?

Scholas Ocurrentes, Papa Francisco

O Papa Francisco no Scholas Ocurrentes, em Cascais, 3 Agosto 2023. Foto ©️ Jesus Huerta / JMJ Lisboa 2023

 

“Arte, desporto e tecnologia” é o mote que o projeto educativo das Scholas Ocurrentes, presente já em largas dezenas de países, procura quotidianamente trabalhar.

Uma das muitas dádivas que a visita do Papa Francisco tem trazido é dar a conhecer (inclusive a diversos meios de comunicação), realidades e projetos que existem no país há já algum tempo, mas que não entraram nas agendas mediáticas e públicas. O das Scholas Ocurrentes é um deles e o Papa foi esta quinta-feira a Cascais não como um turista ou um curioso, mas como um ator desse projeto e como um companheiro inspirador do trajeto que o projeto tem percorrido. Afinal, foi ele o fundador das Scholas Ocurrentes (designação que se poderia traduzir por escolas de vizinhos), quando era arcebispo de Buenos Aires, em 2001.

Através da expressão artística, da prática desportiva e dos recursos tecnológicos, esta iniciativa visa, segundo a própria instituição, criar “um ambiente inclusivo e transformador, onde todos os jovens possam realizar o seu potencial e contribuir positivamente para o mundo que os rodeia”.

Depois de Jorge Mario Bergoglio ter sido eleito Papa, em 2013, o projeto adquiriu projeção internacional, convertendo-se em organização de direito pontifício, mantendo a mesma filosofia da promoção da integração social e da cultura do encontro e da inclusão nas escolas.

O projeto decorre, frequentemente, em parceria com outras instituições educativas públicas e privadas, e concretiza-se em programas e iniciativas diversas. Entre elas, as Jornadas de Cidadania, nas quais um grupo significativo de jovens de diversos meios sociais buscam soluções para problemas que identificam na comunidade em que residem, as quais são, depois, partilhadas e trabalhadas com os agentes com poder de decisão.

 

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