AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Manuel Vilas Boas

Um patriarca mediático

| 28/11/2021

D. António Ribeiro em visita pastoral nas paróquias de Matacães e Monte Redondo, em 16 de Junho de 1996. Foto © DN/Leonardo Negrão, cedida pelo autor.

 

Tinha 18 meses quando lhe faltou o pai, José Ribeiro. A mãe, Ana Gonçalves, ficaria eternamente só. Solidária com ela, Maria de Lima, a professora do único filho que, na família nasceria, em 21 de maio de 1928, em Pereira, lugar da freguesia de S. Clemente, no concelho de Celorico de Basto. Terras de emigração e casas senhoriais das fortunas do Brasil, os campos escondiam, por detrás dos montes de Basto, uma agricultura difícil. A casa da família Ribeiro era modesta, de granito frio.

Além da escola, nada haveria, por perto, onde seguisse estudos o pequeno António. Inevitável, o seminário, com vocação ou sem ela. E é em Braga que o mundo se abre para o futuro patriarca que haveria de tratar por tu os “mistérios” da televisão nascente. Não se esqueceu, nas turbulências de percurso, a greve em que alinhou o distinto seminarista, desviado dos tempos livres do coro do seminário, em maré de Semana Santa. O maestro ficou com a batuta no ar e a mala regressou a casa, expulsa pelas ousadias do seu proprietário. Assim será a vida deste padre, saído da cidade dos arcebispos, agora a caminho de Roma, em nome da inteligência e do seu jeito diplomático. Estaria predestinado a gerir a agonia da ausência de liberdade no regime autoritário, emanado do também antigo seminarista António Salazar, de Santa Comba Dão.

O Concílio Ecuménico Vaticano II, nas mãos do Papa Paulo VI, nos anos 1960, forneceu pastoral e pensamento que baste a uma Igreja tradicionalista, a rodar nessa altura, com mais de 200 anos de atraso. O padre dr. António Ribeiro minava, entretanto, o território nacional, através da RTP, ainda a preto e branco, nas rubricas semanais Encruzilhadas da Vida e Dia do Senhor. A censura do regime cortou-lhe as asas quando quis solidarizar-se com Paulo VI, de visita à União Indiana que, antes, tinha engolido, militarmente, restos do império colonial português, em Goa, Damão e Diu. O país da PIDE colocou-o debaixo de olho.

O brilho da inteligência e a determinação da personalidade moveu a Nunciatura na capital. D. António Ribeiro, entre elites universitárias e a Acção Católica e algumas “patuscadas” entre colegas na Igreja dos Mártires, nomeadamente os padres António Rego, Alberto Campinho e António Pires, é convidado a suceder a D. Sebastião Soares de Resende, o profético prelado da Beira, em Moçambique, muito crítico da política ultramarina do Estado Novo. Andavam, por ali, os Missionários Brancos e outros a meter achas para a fogueira das independências.

 

O veto de Salazar

Apesar das “pinças” nestas manobras, ninguém impede o veto de Salazar. Decididamente, o padre Ribeiro não vai para a diocese da Beira. Permanecerá em Lisboa o professor que lecionava Sociologia e Doutrina Social da Igreja no Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina, na Rua da Junqueira, dirigido por Adriano Moreira. O futuro patriarca de Lisboa regressa ao seu Minho verde, na esperança que tudo vá mudar. António Ribeiro é ordenado bispo-auxiliar do arcebispo de Braga D. Francisco Maria da Silva, um prelado natural da Murtosa (Aveiro) servidor da ideologia do regime e, na opinião de muitos, “um péssimo pastor”.

Cerejeira, o cardeal de Lousado (Famalicão) onde estava o complexo da fábrica Mabor, não largava de mão o seu guia, de um dia, na cidade eterna. Para Lisboa viria o que seu benjamim seria. Cerejeira, envelhecido no regime, tocou todos os cordelinhos para que isso acontecesse, nesse 21 de novembro de 1971, com festa de rara solenidade, no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa. Um dos mais novos cardeais do mundo (título que receberia em 1973), iniciava o seu pontificado na capital.

 

Padres presos, bombas na RR e cardeal retido em casa

“Há-de receber duas vezes em Lisboa (1982 e 1991), Karol Wojtyla, o Papa polaco, responsável pelo resfriamento na Igreja Católica, da primavera conciliar.” Foto: D. António Ribeiro com o Papa João Paulo II. Direitos Reservados

 

Mas tudo haveria de começar incendiado. Na Capela do Rato, católicos críticos dobram joelhos pelo fim da Guerra Colonial. Dois padres, António Janela e Armindo Garcia, são presos. O novo patriarca dirige-se a Caxias e exige a sua imediata libertação. E assim acontece. Primeira prova de fogo passada, com êxito. Entretanto, desde 1968, nos Olivais, arrastava-se uma crise encastelada no seminário. A Revolução de Abril abriria fortes fogachos, onde o denominado cardeal “tímido”, pela obstinação, ultrapassa assaltos à Rádio Renascença, ao edifício do Patriarcado e do Seminário de Almada. (Virão, mais tarde, noutras dioceses, ocupações de colégios e misericórdias.) Lembrado de conversas com o doutorando, em Roma, Mário Soares oferece ao cardeal Ribeiro, “tropas” do Partido Socialista, para recuperar a sua residência patriarcal. Ribeiro esclarece que jamais cedera a qualquer oferta partidária. Em entrevista ao Diário de Notícias, faz questão de dizer: “Nunca pedi favores ao poder político”.

Em plena democracia, o cardeal Ribeiro de Lisboa não foi nunca obstáculo ao “mundo novo”, que, então, se construía no país. Depressa ganha a confiança dos seus pares, tornando-se presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. Em Roma, participa em dois conclaves e retém, piedosamente, a caneta que o futuro João Paulo I utilizou, na Capela Sistina… Há-de receber duas vezes em Lisboa (1982 e 1991), Karol Wojtyla, o Papa polaco, responsável pelo resfriamento na Igreja Católica, da primavera conciliar.

Com a saúde abalada (o patriarca de Lisboa era um inveterado fumador) e um ano antes da morte, Roma atribui o direito de sucessão ao seu bispo-auxiliar, D. José Policarpo.

O 15. ̊ patriarca de Lisboa morre de cancro, a 24 de Março de 1998, na clínica de S. António, na Amadora. O funeral foi participado, a pé, por um vastíssimo cortejo. A urna do cardeal discreto e determinado, do pastor da diferença, foi inumada no panteão dos cardeais.

 

Manuel Vilas Boas

 

(Este texto foi elaborado a partir do livro D. António Ribeiro, Patriarca de Lisboa, da autoria dos jornalistas José António Santos e Ricardo de Saavedra, em 2. ͣ edição, ed. Paulinas. Está também publicado na página da TSF na internet, onde se pode ouvir uma entrevista aos autores do livro.)

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente

Evocação

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente novidade

A morte e a noite caíram sobre nós demasiado depressa com a notícia do falecimento de Pai Telmo. Os seus 100 anos foram um sopro veloz que não deixou ninguém indiferente e a sua dedicação à Igreja dos mais pobres uma brisa que suavizou muitas dores. [Texto de padre José Alfredo].

Identidade e missão do professor de EMRC na escola

Ensaio

Identidade e missão do professor de EMRC na escola novidade

A identidade e a missão do professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) na escola pode ser vista sob múltiplos pontos de vista; porém, desejo fazê-lo a partir de três palavras ou pilares que considero substanciais. Estruturo esta reflexão a partir do “habitar-se”, do “habitar com” e do “habitar o ainda não”. [Texto de Adriano Batista, intervenção no Simpósio sobre a Educação e Escola em Portugal].

As cápsulas

[Sete Partidas]

As cápsulas novidade

No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.