Um planeta é como um bolo

| 2 Jun 20

(Dentro de Muros – III)

 

O planeta Terra tem registado emissões de dióxido de carbono bastante mais reduzidas nestes primeiros meses do ano. Não porque finalmente os decisores e líderes políticos consideraram cumprir o Acordo de Paris, não por terem percebido as consequências trágicas de um consumo insustentável de recursos para onde o modelo económico e de vida humana no planeta nos leva, mas devido à tragédia da pandemia que estamos a viver.

Primeiro a China, depois a Europa e os EUA. À custa da pandemia, desacelerámos. A economia abrandou em muitas áreas, noutras parou. É dramático que vivamos num sistema económico baseado no consumo e no crescimento: quanto mais consumirmos, mais crescemos, melhor a economia estará.

Mas há um outro lado da moeda. O planeta Terra é como um bolo, quanto mais fatias se tiram, menos bolo há. Esse consumo e esse crescimento dependem da extração de recursos naturais ao planeta e a poluição é feita, maioritariamente, na extração, na transformação e no consumo dessas matérias naturais nos produtos de que necessitamos. Não sendo o planeta infinito, este modelo económico em que vivemos não é sustentável e colocará em causa não só a vida dos nossos filhos e vindouros, mas também já a nossa.

Suspeita-se que a covid-19 passou para humanos através de compra e consumo num mercado de animais selvagens em Wuhan, na China. O governo daquele país já disse que ia restringir a investigação sobre a origem da pandemia. Para o Governo chinês, o interesse no crescimento económico é superior ao direito à saúde.

Muitos animais, os próprios recifes de coral, armazenam milhares de vírus que podem fazer mal aos seres humanos. O equilíbrio do planeta não é necessário apenas por questões de poluição. É também pertinente por questões de saúde dos seres vivos que nele vivem e nós, humanos, somos uma dessas espécies.

Muitos dos leitores do 7MARGENS serão cristãos. Sobre modelos de economia sustentável e com princípios humanitários, recomendo a leitura ou releitura da carta encíclica de Paulo VI Populorum Progressio (1967) sobre doutrina social da Igreja e corporativismo cristão, bem como a encíclica de Francisco, de elogio e respeito pela natureza Laudato si’ (2015).

Há espaço para todos nós no mundo, mas não há espaço para tudo continuar como estava a correr até aqui. A paragem que vivemos nos últimos meses também não é solução para os seres humanos que se viram aos milhares sem trabalho e sem sustento, deixando de ter como providenciar aos seus as mais básicas necessidades. São precisas soluções, é necessária sustentabilidade económica, tanto financeira como dos recursos do planeta. Que os cristãos saibam fazer a sua parte, como outros grupos e pessoas na sociedade, e reavivem as soluções que estas cartas apresentam, adaptando-as e propondo-as ao mundo. Passo a passo, da faísca dos modelos, surgirá a luz das soluções.

 

Pedro A. Neto é diretor-executivo da Amnistia Internacional Portugal; o primeiro texto Dentro de Muros foi publicado dia 4 de Maio no 7MARGENS e o segundo no dia 16 de Maio.

 

Artigos relacionados

Pin It on Pinterest

Share This