Um Poema sobre Deus

| 22 Set 20

Pés. Terra.

Eis-me descalço perante Deus…” Foto: Direitos reservados.

 

Nestes últimos dias, ao ler o livro de José Luís Peixoto, O Caminho Imperfeito – que descreve a sua experiência de viagens à Tailândia e a Las Vegas (Quetzal, 2017) –, emerge subitamente, saído do nada e sem quaisquer comentários do autor o poema muito belo que abaixo transcrevo, o único poema do livro (p. 106).

Em 2012 havia lido o primeiro texto poético dedicado a seu pai, Morreste-me (Quetzal, maio 2000), para mim uma revelação, dada a qualidade da escrita e sensibilidade dolorosa à vida. Durante o verão, a perda de um familiar próximo levou-me a reler este pungente texto. Outros livros se seguiram, romances, poesia, livros de viagens. Uma sensibilidade original e profunda, uma enorme autenticidade.

Mas o poema que encontrei a meio do livro, escrito no contexto de uma visita ao conhecido templo budista Wat Pho, sacudiu-me, como uma erupção súbita à flor da pele: “Eis-me descalço perante Deus.”

Wat Pho

Eis-me descalço perante Deus.

Atravessei a vida inteira para chegar aqui
e, no entanto, Deus pede que continue –
pede em silêncio.

Caminho sem pressa, acabou a pressa e
acabaram os segredos. As mentiras
evaporaram-se.

As palavras deixaram de conseguir
esconder-me. Cada palavra é
um passo. 

Os meus pés criam raízes em cada passo,
as plantas dos meus pés enterram-se
neste chão sagrado.

Onde estás? Despedi-me, deixei-te lá longe,
fiz esta distância à tua procura –
encontrei-te por fim.

Caminho sem pressa, carrego o peso
da infância e da arquitetura.

 Deus arde à minha frente e sei agora
que o meu nome não me protege.

Numa primeira abordagem recebo o poema como que uma carícia de Deus – e do poeta – face ao luto em que ainda vivo. Ligo também este poema à experiência de confinamento que todos temos vivido: “acabou a pressa e acabaram-se os segredos”, “as mentiras evaporaram-se”. Será que sim? Pessoalmente parece-me ter aprendido a viver um quotidiano com menos pressa, mas esse quotidiano ter-me-á aproximado mais de Deus? Ou simplesmente os meus pés aprenderam a “criar raízes em cada passo”? Consegui aprender Deus “no silêncio”? Ou simplesmente “a continuar” e a viver com “menos pressa”, criando “raízes a cada passo”?

A estas questões procurarei ir respondendo à medida que retomamos um certo quotidiano, um quotidiano que desejo bem diferente de antes da covid-19. Não queremos voltar “ao mesmo”. Porque as palavras… “as palavras deixaram de conseguir esconder-me. Cada palavra é um passo”, afirmo com o poeta, porque “atravessei a vida inteira para chegar aqui”, simples passos para alguém que vive de palavras e de livros em estantes com livros:

As estantes são ruas. Os livros são casas onde podemos entrar ou que podemos imaginar a partir de fora. Há livros que visitámos e há livros onde vivemos durante certas idades, conhecemos cada uma das suas divisões, trancámo-nos por dentro.

Fomos jovens durante tantos capítulos mas, de repente, um dia, apercebemo-nos de que restavam cada vez menos páginas entre o polegar e o indicador (in Regresso a Casa, Quetzal, Agosto 2020).

*  *  * 

Li muito, sim, durante estes meses, revisitando livros das minhas estantes porque era mais difícil adquirir outros. A segunda parte do confinamento tornou-se-me árida, depois da novidade que me fez inicialmente sentir bem no meu confinamento… Senti menos criatividade e, sobretudo um certo desleixo pela poesia, sempre um mau sinal… Que quererá então José Luís Peixoto dizer: “sei agora que o meu nome não me protege?” Será que a presença de Deus na minha vida não pode invalidar o meu compromisso social enquanto cidadã? Deus apenas me enquadra e me expande no seu amor e deixa-me livre para discernir o meu compromisso – num infinito pressentido por José Luís Peixoto. “Deus arde à minha frente” e “continuarei a enterrar as plantas dos meus pés neste chão sagrado”.

Este poema levou-me à presença de Deus, do inominável. E rezo, com José Luís Peixoto, que Deus “proteja o meu nome porque sozinha não posso!”

Porque Deus pede-me que continue:

Atravessei a vida inteira para chegar aqui
e, no entanto, Deus pede que continue –
pede em silêncio.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante no movimento do Graal.

 

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