Um poeta na Capela Sistina
O Papa Francisco acaba de colocar o Colégio Cardinalício em risco, ao incluir nele um poeta. Devia saber que os poetas são gente perigosa em qualquer parte, mesmo entre cardeais… O tempo o dirá.

O cardeal José Tolentino Mendonça, antes de receber os cumprimentos, na Sala Régia do Palácio Apostólico do Vaticano. Foto: Direitos reservados
José Tolentino Mendonça, o filho do pescador do Machico, chegou longe na estrutura romana. Ele é um homem europeu mas periférico, ilhéu do Atlântico com passagem pelas Áfricas mas poeta do mundo, filho de gente pobre mas intelectualmente rico, pensador e filósofo, sem deixar de ser um homem do povo, amigo dos livros – sendo arquivista e bibliotecário da Santa Sé – é ele mesmo um livro onde Deus escreve palavras arrebatadoras, humilde como poucos mas espiritualmente notável.
Tolentino faz a ponte entre a Fé e a Cultura, entre a vida quotidiana e a espiritualidade, entre a razão e a emoção, sempre em busca do homem completo iluminado por Deus. E fá-lo com uma humildade tocante que não deixa ninguém indiferente. Mostrou em Lisboa que se pode ser um grande pastor tendo apenas uma pequena capela a cargo.
Ao respeitar o ser humano que não tem fé religiosa, fazendo uso da sua capacidade de escuta, e com ele dialogando, Tolentino demonstra que um cristão pode ser ainda hoje alguém parecido com o Nazareno, e que a verdadeira fé não coloca à distância os que não pensam nem sentem como ele. Comprova assim que mais vale construir pontes do que muros e que a luta espiritual não é “contra a carne e o sangue” (Efésios 6:12), no dizer de S. Paulo, pelo que a genuína fé cristã não precisa de cavar trincheiras contra os “inimigos”, nem de promover cruzadas contra os novos “infiéis”.
De resto, a grande missão não passa pela defesa da Fé ou por atacar quem não a tem ou a preserva de forma diferente: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mateus 28:19,20). Como se vê, o mandato limita-se a discipular, baptizar e ensinar, mas nunca à força.
O novo purpurado compreende que o Evangelho não é uma imposição mas uma proposição, segundo a missão entregue por Jesus Cristo aos discípulos: “E se em qualquer cidade vos não receberem, saindo vós dali, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles” (Lucas 9:5). Confia firmemente no livre arbítrio e no princípio do binómio liberdade/responsabilidade inscrito na natureza humana.
Tenhamos presente, enquanto realidade histórica, que são os poetas que mudam o mundo, pois como Gedeão escreveu e Manuel Freire cantou: “o sonho comanda a vida” e “sempre que o homem sonha o mundo pula e avança”.
Homero deu corpo a uma narrativa fundacional dos antigos Gregos enquanto povo, Vergílio fez o mesmo com os latinos, Shakespeare marcou o seu tempo e as artes para sempre, Salomão ficou na história hebraica e universal com o seu poema de amor à Sulamita, Goethe esculpiu magistralmente o grande drama da existência humana no seu Fausto (1808). Rimbaud ainda hoje impressiona na simbolização da sua busca espiritual, antes de morrer muito jovem, Camões ousou organizar a alma portuguesa desde os tempos do Império, e Federico García Lorca, cuja obra e memória sobreviveu ao seu assassinato pelos franquistas, inspirou gerações na resistência à ditadura espanhola.
Segundo Maurice Blanchot, o acto poético faz com que a linguagem deixe de ser instrumento e revele a sua essência, que é a de “fundar um mundo”. Isto é, a mesma essência do pensamento, que funda as coisas e a realidade humana.
Em qualquer caso, Tolentino fará a diferença no Colégio Cardinalício. “És a Poesia!”, ter-lhe-á dito o Papa momentos antes da imposição do barrete cardinalício. Qual menino entre os doutores será um poeta entre cardeais mais velhos, sem deixar de ser também um doutor das palavras e da Palavra, pois foi nestas que encontrou o sentido da sua vida.
A acreditar no que disse Ludwig Wittgenstein: “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu próprio mundo” (Tratado Lógico-Filosófico, 1921), então Tolentino é uma figura universal. E se “a primeira invenção da palavra não veio das necessidades, mas sim das paixões”, como defendeu Jean-Jacques Rousseau (Sobre a Origem das Línguas, 1781), pode dizer-se que o novo cardeal português é um homem de grandes paixões.
Talvez de paixões aparentemente contidas, mas paixões.
NOTA: Teresa Toldy (TT) citou aqui no 7MARGENS o meu artigo da semana passada “A desvairada parvoíce do politicamente correcto”, desenvolvendo a partir daí o seu texto “O politicamente incorrecto”. Porém, no meu entender, os leitores que apenas leram o texto de TT sem ter lido o meu, poderão ficar com uma impressão errada da minha posição. Importa por isso esclarecer:
- A temática do meu texto resumia-se apenas ao racismo, mas TT mistura no seu texto outras questões, como a violência doméstica e os direitos humanos em geral. Quem costuma ler os meus textos sabe bem o que penso sobre sexismo, violência doméstica e direitos humanos.
- O meu texto parte de duas situações reais, factuais, que TT nem sequer menciona no seu texto, ficando nós sem saber a sua opinião sobre os mesmos.
- TT não deve ter lido o meu texto com atenção, visto que, a certa altura do mesmo, afirmei claramente “Só que enquanto estes Torquemadas da treta se vão entretendo com os casos fabricados, esquecem-se de lutar contra o verdadeiro racismo que continua entranhado no tecido social.” Tal frase, só por si, é um evidente libelo contra o racismo. Se TT afirma que existe racismo em Portugal, então está de acordo comigo.
Mais. O meu texto dizia, mais adiante: “O cristianismo primitivo, inspirado por Jesus, levantou uma bandeira contra toda a espécie de racismos (…)” Creio que isto responderia a qualquer dúvida ainda existente.
- Escreve TT: “É possível que “o ridículo mate”, mas a violência doméstica mata muito mais (…)”. Quando utilizei a metáfora “o ridículo mata” referia-me obviamente (como se depreende pela leitura do meu texto) às situações de Justin Trudeau e de Bernardo Silva, sobre as quais o artigo é construído. Descontextualizar tal frase para a associar (nem que seja em termos comparativos) à praga da violência doméstica não parece correcto. É como misturar água com azeite.
- No fundo – e como se vê – ambos estamos de acordo. No meu artigo quis chamar a atenção para algumas intervenções ridículas que podem prejudicar a justa luta social e cultural contra o racismo. Já TT preferiu enfatizar a outra face da moeda, com que estou de acordo no essencial. Mas uma vez que citou o meu nome e o meu texto, achei por bem clarificar a minha posição, antes que chegue a ditadura do “politicamente correcto”, embora talvez não fosse necessário. Mas nestas coisas nunca se sabe.
José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.
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