Um protestante português no Sri Lanka

| 14 Mai 19 | Entre Margens, Newsletter, Últimas

Frontispício da primeira edição da tradução do Novo Testamento, feita em Batávia por João Ferreira d’Almeida

A sua base foi Batávia, atual Jacarta (Indonésia), mas trabalhou três anos no Ceilão (hoje Sri Lanka) como missionário. Sobre ele, diz José Tolentino de Mendonça que é “um dos nomes cimeiros da língua portuguesa e um clássico de excelência”. João Ferreira d’Almeida é o responsável pela obra literária mais divulgada de sempre na língua de Camões, com quase 200 milhões de exemplares distribuídos da tradução da Bíblia de sua lavra. Mas é, em simultâneo, um dos mais desconhecidos autores ou literatos de todo o espaço lusófono.

 

Ainda a propósito dos bárbaros ataques que surpreenderam – ou não! – os cristãos que celebravam a Páscoa deste ano de 2019 no Sri Lanka, a Taprobana cantada por Camões (de onde surgiria o Ceilão português), vale a pena recordar um entre tantos outros portugueses que por lá passou, perdido desde a adolescência nesse longínquo Oriente no não menos longínquo século XVII. Para uma nação com quase metade do território de Portugal mas com mais do dobro da sua população, a diversidade, sob o ponto de vista étnico mas também religioso, não é novidade, mas infelizmente continua a não ser sinónima de tolerância, se convivência fosse pedir muito.

Os próprios cristãos agora atacados indiscriminadamente em Colombo, sem cor nem bandeira, também nem sempre foram o padrão de uma convivência que se pudesse apelidar de pacífica. Mais de um século depois de os franciscanos portugueses terem iniciado a evangelização daquele território, também ali chegaram as missões protestantes, por via da Igreja Reformada, mais concretamente a partir de 1652, presença esta que se intensificou quando a ilha caiu em poder dos holandeses em 1656. O tal português, de que começámos a falar, foi João Ferreira Annes d’Almeida (1628-1691), convertido à fé calvinista desses mesmos holandeses e que chega como missionário a Ceilão em 1658, aqui permanecendo apenas três anos.

Mas quem foi este misterioso português protestante, ainda para mais pastor e missionário, coisa ainda mais rara há mais de três séculos? Acredita-se que tenha nascido em 1628 numa ainda pequena povoação, pertencente desde o século XIX ao concelho de Mangualde, de seu nome Torre de Tavares. Não se conhece quem foram os progenitores ou mesmo outros membros da família de parentesco mais próximo, com exceção da figura de um tio, padre católico romano, e que por morte de seus pais, quando Almeida era ainda criança, o terá passado a educar, na cidade de Lisboa.

Através das suas doutas mãos, o jovem Almeida terá passado por várias disciplinas do saber, entre as quais certamente o Latim, que lhe viria a ser muito útil na principal obra da sua vida: a primeira tradução completa da Bíblia para a língua portuguesa. Sem se conhecerem razões, se por vontade dele ou de terceiros, se só ou acompanhado, Almeida acaba por abandonar a capital do Reino em 1640-1641, em data bem próxima à restauração da independência nacional. Encontramos, assim, este adolescente, com apenas 12-13 anos de idade em Amesterdão, na Holanda, de onde parte passado pouco tempo para o Extremo Oriente, e de onde não mais regressaria ao rincão natal.

É o próprio Almeida que nos faz saber que em 1642 já se encontrava em Malaca (Malásia), depois de passar algum tempo em Batávia, atual Jacarta, capital da Indonésia. Quando viajava de Batávia para Malaca, chegou às suas mãos um livreto em castelhano, da autoria do também tradutor bíblico Cipriano de Valera, no qual eram apresentadas as principais doutrinas da fé reformada em contraposição com o catolicismo romano. Após a leitura desse texto, intitulado Differença da Christandade, Almeida viria a converter-se ao protestantismo, tornando-se parte da Igreja Reformada Holandesa, cuja pregação foi realizada em português naquela região a partir de 1633, sendo apenas extinta em 1808.

De 1642 a 1651, Almeida permaneceu em Malaca envolvendo-se com a comunidade protestante através de visitas a doentes, apoio a marinheiros e viajantes que ali aportavam, ensinando as crianças a ler e a escrever, ao mesmo tempo que iniciava a primeira tradução da Bíblia. Este notável feito aconteceu quando Almeida tinha ainda 14 anos! Terminado este período, Almeida regressa a Batávia, onde inicia os seus estudos teológicos junto dos pastores holandeses da Igreja Reformada.

Concluída a sua formação em 1654, e depois de estagiar durante dois anos, Ferreira de Almeida é ordenado, tornando-se assim o primeiro pastor protestante português, dois séculos antes do estabelecimento das primeiras comunidades reformadas em território metropolitano. Após a sua preparação, Almeida, juntamente com sua esposa, Lucrécia Valcoa de Lemos – de quem viria a ter uma filha e um filho de nome Mateus – e com o seu colega Baldaeus, parte para o sul da Índia e Ceilão, onde os três missionam durante vários anos em diversas localidades da região.

Em maio de 1663, Almeida regressa a Batávia, de onde já não sairia. Assume o pastorado da Igreja Reformada de Batávia, de língua portuguesa, onde se iria manter quase até ao seu falecimento, provavelmente ocorrido em agosto de 1691. Foi durante este último período em Batávia que Almeida viria a assistir à primeira edição do Novo Testamento, por si traduzido para português. Esta obra foi impressa na Holanda, em 1681, mas o destino final dos exemplares produzidos era o Extremo Oriente, onde as diversas comunidades de língua portuguesa já deveriam conhecer a obra de Almeida, pelo menos desde 1654. Almeida traduziu ainda a maior parte do Antigo Testamento, mas o seu falecimento impediu-o de ir além do livro de Ezequiel.

O restante viria a ser vertido para português por um pastor holandês, seu sucessor na igreja em Batávia, Jacobus op den Akker. Com a edição do Antigo Testamento (Tomo I em 1748 e Tomo II em 1753) completar-se-ia a edição da “Bíblia de Almeida” mais de 60 anos depois do falecimento do seu grande obreiro.

João Ferreira Annes d’Almeida é, pois, caso raro na história dos feitos e das obras de Portugal e dos portugueses. Dos mais prolixos autores, tradutores e divulgadores da língua portuguesa no século XVII, é ele o responsável pela obra literária mais divulgada de sempre na língua de Camões – mas também de D. Dinis, Vieira, Pessoa ou Saramago, e ainda de Amado, Pepetela, Mia Couto… – com os seus quase 200 milhões de exemplares distribuídos da tradução da Bíblia de sua lavra em mais de 2.500 edições. Mas é, em simultâneo, um dos mais desconhecidos autores ou literatos de todo o espaço lusófono. Ausente da grande maioria dos compêndios de história ou de antologias da língua lusa, Ferreira de Almeida é, no dizer do poeta e bispo José Tolentino de Mendonça, “um dos nomes cimeiros da língua portuguesa e um clássico de excelência”.

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Núncio que era criticado por vários bispos, deixa Lisboa por limite de idade

O Papa Francisco aceitou nesta quinta-feira, 4 de Julho, a renúncia ao cargo do núncio apostólico (representante diplomático) da Santa Sé em Portugal, Rino Passigato, por ter atingido o limite de idade determinado pelo direito canónico, de 75 anos. A sua acção era objecto de críticas de vários bispos, embora não assumidas publicamente.

Arcebispo da Beira lamenta que o Papa só visite Maputo

O arcebispo da Beira (Moçambique) lamenta que o Papa Francisco não visite, em Setembro, a zona directamente atingida pelo ciclone Idai, em Março: “Todos esperávamos que o Papa chegasse pelo menos à Beira. Teria sido um gesto de consolação para as pessoas e uma forma de chamar a atenção para as mudanças climáticas e para esta cidade, que está a tentar reerguer-se”, disse Cláudio Dalla Zuanna.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia 

Entre margens

“Albino não morre, só desaparece”? E se fôssemos “bons samaritanos”?

A primeira frase do título não é nova, nem em Moçambique, nem fora do país. Lembrei-me dela, quando li/vi que o secretário-geral da ONU, António Guterres visitou Moçambique, em Julho último. Desse périplo, dois eventos prenderam a minha atenção: a sua ida à Beira, para se inteirar das consequências do ciclone Idai, e o seu encontro com pessoas com albinismo, e onde destacou que ninguém pode ser descriminado por causa da sua aparência física.

Refugiados e salgalhada de desinformação

O objetivo deste texto é combater alguns mitos, facilmente derrubáveis, sobre a questão dos refugiados com meia dúzia de dados, de forma a contribuir para uma melhor e mais eficaz discussão sobre o tema. Porque não acredito que devamos perder a esperança de convencer as pessoas com os melhores dados e argumentos.

Cultura e artes

Sete Partidas

A Páscoa em Moçambique, um ano antes do ciclone – e como renasce a esperança

Um padre que passou de refugiado a conselheiro geral pode ser a imagem da paixão e morte que atravessou a Beira e que mostra caminhos de Páscoa a abrir-se. Na região de Moçambique destruída há um mês pelo ciclone Idai, a onda de solidariedade está a ultrapassar todas as expectativas e a esperança está a ganhar, outra vez, os corações das populações arrasadas por esta catástrofe.

Visto e Ouvido

"Correio a Nossa Senhora" - espólio guardado no Santuário começou a ser agora disponibilizado aos investigadores

Agenda

Parceiros

Fale connosco