Um refúgio na partida

| 28 Mar 20

Escultura no jardim do Woodlands Guest Lodge, Harare, Zimbabué Escultura no jardim do Woodlands Guest Lodge, Harare, Zimbabué. Foto © Luís Castanheira Pinto

 

De um lado vem aquela voz que nos fala da partida como descoberta. Um convite ao enamoramento pelo que não conhecemos. Pelo diferente. Um apelo aos sentidos. Alerta constante. Um banquete abundante em novidade. O nervoso miudinho por detrás do sorriso feliz. Genuinamente feliz. O prazer simples de não saber, de não conhecer. A perspectiva do silêncio ou da cor. Das cores. Do movimento ou do calor. De idiomas ou sabores. Uma partida que se se releva nas pequenas coisas que aprendemos. Mesmo sem notar. Esta partida procura-se. Deseja-se. Vem amiúde de mãos dadas com planos. Todo um imaginário de rostos, lugares e sensações a visitar. Venha ela.

Do outro lado chega-nos a outra voz, a da partida como despedida. Traz consigo um sentimento de perda. De sofrimento. A partida tantas vezes vista como um bilhete de apenas ida. Sem retorno. A separação que rasga, que dói. Para muitos, esta é a partida que não se deseja. Aquela a que a vida nos obriga. Tantas vezes por desespero, por medo. Ou por um instinto firme e resiliente de sobrevivência, preso a um fio de esperança no horizonte. Ouvem-se os refugiados. Os imigrantes para quem já nada mais resta senão partir. Ouvem-se aqueles que ficam para trás. As coisas que ficam para trás. Ouve-se a saudade que grita fundo. E ainda assim partimos.

Depois, há ainda uma outra voz. Talvez não tanto uma voz, antes uma caixa de ressonância. Presente, discreta, intangível. Profunda. É esta que nos revela uma outra partida. Não um movimento, um acontecimento. Antes um lugar, um espaço sem fronteiras. Talvez mesmo um Reino a explorar. Nesta partida há um refúgio. Uma distância e uma ausência que se celebram. Que nos conduzem a muitos outros encontros inexplorados. Quase sempre connosco mesmo. Um lugar de paz e inquietação, em simultâneo. Um lugar ao qual dificilmente se acede. Que exige sair em vez de entrar. Largar em vez de agarrar. Confiar em vez de temer.

Falo de mim, naturalmente. Deste lugar que habito regularmente nos últimos anos. Um lugar que conheço ainda mal. Mas onde me sinto bem. Onde me sinto presente e inteiro de cada vez que aí me encontro. É esta a partida a que muitas viagens me convidam. Ou que procuro sem saber. Como que atendendo a uma necessidade regular de oração. No sentido mais profundo que oração pode ter para mim.

Agora mesmo, em Harare (Zimbabwe), encontrei espaço para escrever este texto. Não tempo, nem uma aberta no calendário. Mas espaço. Esse lugar, esse refúgio difícil de aceder que cada partida me oferece.

Nas tantas viagens que faço – umas breves, outras longas, umas sozinho, outras em bando – todas estas partidas me habitam. Como que fazendo parte de um todo em equilíbrio. Gosto. Sinto-me abençoado. Sinto as vozes de Deus em cada uma delas.

 

Luis Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

Artigos relacionados

Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

Quem conhece o Enzo Bianchi, quem já se refletiu naqueles olhos terríveis de fogo, como são os olhos de um homem “que viu Deus”, sabe do seu caráter enérgico, por vezes tempestuoso, firme, de quem não tem tempo a perder e que por isso urge falar sempre com parresía, isto é, com franqueza, com verdade. Enzo habitou-nos a isso, habituou os monges e as monjas de Bose a isso. O exercício da autoridade, a gestão do governo e o clima fraterno da Comunidade sempre tiveram a sua marca, esta marca.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Igreja Católica contesta alteração da lei de biotecnologia na Noruega novidade

Um comité de especialistas da diocese de Oslo acusa a alteração à lei da biotecnologia, aprovada na semana passada pelo parlamento norueguês de “abolir os direitos das crianças” e “abrir caminho à eugenia”, dando a possibilidade de, mediante testes pré-natais precoces, fazer abortos nos casos em que o feto apresente patologias ou seja de um sexo diferente do desejado pelos futuros pais.

Vaticano transformado em colónia de férias no mês de julho

A pensar nos funcionários da Santa Sé que têm filhos pequenos, o Papa Francisco decidiu abrir aos portas do Vaticano para receber as crianças durante o mês de julho. A organização da colónia de férias ficou a cargo do Governatorato e será animada pela comunidade de Salesianos do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha novidade

Pode parecer estranho, mas é verdade: muitas pessoas na Alemanha, em particular as mais jovens, nunca conheceram judeus, a não ser pelos livros de História. Para aumentar a exposição e o contacto com esta comunidade, que atualmente corresponde a menos de 0,2% da população daquele país, o Conselho Central de Judeus lançou o projeto “Conhece um Judeu”, que vai apresentar judeus a não judeus e pô-los a conversar.

É notícia

Entre margens

Violência contra as Mulheres: origens novidade

Olhando para os dados neste contexto de pandemia, mais uma vez dei por mim a pensar de onde virá a persistência estrutural do fenómeno da violência doméstica e de género, esta violência que assenta num exercício de poder exacerbado, descontrolado, total, de alguns homens em relação às suas companheiras, em que elas não são mais do que um objeto de posse sobre o qual se pode tudo.

Credo novidade

O Deus em que acredito não é pertença de ninguém, não tem registo, é sem patente. É polifónico, é um entrecruzar de escolhas e de acasos, de verdades lidas nos sinais dos tempos, de vida feita de pedaços partilhados e também de sonhos.

Vem Espírito Santo e renova a face da Igreja

Em abril de 2013, nas Jornadas de Teologia da Caridade, subordinadas ao Tema “A força evangelizadora da caridade”, promovidas pela Cáritas Espanhola, em Salamanca, conheci, ao tempo, o arcebispo de Tânger, Santiago Agrelo Martínez. Fiquei fascinado pela profundidade do seu pensamento, pela simplicidade no trato e pela suas coragem e clarividência pastorais.

Cultura e artes

Diálogos com Paulo Freire

Trata-se de dois livros inspirados na filosofia de Pauloreire, a quem de há largos anos chamo meu “Mestre”: o primeiro, de Christopher Damien Auretta, Diz-me TU quem EU sou: Diálogo com Paulo Freire. O segundo, do mesmo autor com João Rodrigo Simões: Autobiografia de uma Sala de Aula: Entre Ítaca e Babel com Paulo Freire (Epistolografia).

“Travessia com Primavera”, um exercício criativo diário

O desafio partiu da Casa Velha, associação de Ourém que liga ecologia e espiritualidade: um exercício artístico e criativo diário, a partir da Bíblia. Sandra Bartolomeu, irmã das Servas de Nossa Senhora de Fátima, apaixonada pela pintura, aceitou: “Algo do género, entre a oração e o desenho – rezar desenhando, desenhar rezando ou fazer do desenho fruto maduro da oração – já emergia em mim como um apelo de Deus, convite a fazer do exercício do desenho e da criação plástica meio para contemplar Deus e dar concretude à sua Palavra em mim”, diz a irmã Sandra. O 7MARGENS publica dez aguarelas resultantes desse exercício.

A poesia é a verdade justa

“A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha”, escreve Sophia de Mello Breyner na sua Arte Poética III. Foi destas palavras que me lembrei ao ver o filme Poesia do sul coreano Lee Chang-dong, de 2010

Hinos e canções ortodoxas e balcânicas para a “Theotokos”

Este duplo disco, Hymns and Songs to the Mother of God reúne, como indicado no título, hinos bizantinos (o primeiro) e canções tradicionais (o segundo), dedicados à Mãe de Deus. O projecto levou três anos a concretizar, entre a recolha, estudo e gravação, como conta a própria Nektaria Karantzi na apresentação.

Sete Partidas

Retrospectiva

Regresso algures a meados de 2019, vivíamos em Copenhaga, e recupero a sensação de missão cumprida, de alguma forma o fechar de um ciclo ao completarmos 10 anos de vida na Dinamarca e nos encontrarmos em modo de balanço das nossas vidas pessoais, profissionais e também da nossa vida interior. Recordo uma conversa com uma querida amiga, onde expressei desta forma o meu sentimento: “a nossa vida aqui é boa, confortável, organizada, segura, previsível, mas não me sinto feliz.”

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco