Albufeira não comemorou o 25 de Abril – nem um cravo ao peito de alguém. Uma palavra de respeito, uma fagulha, sequer, de gratidão pelos dias vividos na sequência da mão beijada.
Este ano, a minha cidade não homenageou a revolução que devolveu oxigénio aos pulmões do país. Asfixiemos.
Na festa, perguntei pelos cravos aos escravos – traziam a resposta trancada debaixo da língua e de lá não a soltaram. Para entendê-los era necessário que ainda soubéssemos ler nos olhos.
Posso, então, dizer uns poemas de Abril. Tentei. À falta de palavras sobrou-me o malabarismo – metáfora mãe da resistência de uma arte periférica, a lembrar as minorias.
No palco, um homem canta o Bailando – e outras coisas que não sei nomear – acompanhado de teclas de domingo à tarde, só que não era domingo à tarde, era sábado e a revolução fazia anos.
Outro homem pede-lhe Zeca – a Grândola – numa tentativa desesperada de devolver as almas mortas de Gógol à sobriedade. Nem sinal de ressurreição – medo, indiferença ou urna definitiva?
O cantor do Bailando diz que não tem, não sabe, não pode – cheira a bafio ali, e parece que neva, apesar do sol.
E eu estou lá, despreparada, tão cobarde quanto o resto. E volto a casa a pedir-me explicações pela prostituição a que me condenei. A pedir-me contas pela guilhotina que não travei a tempo – pelo destino a que submeto os de amanhã, e a minha própria (e próxima) velhice.
A causa da imundice que se instala numa determinada era nunca parte nem de fora nem do abstrato, como tanto jeito nos dá que o façamos parecer. A culpa das mortes entaladas nas armadilhas bélicas não é dos instrumentos letais nem das mãos que os manobram, é da putrefação em que o espírito humano se deixou enroscar, é concreta e habita dentro de nós – de cada um de nós.

Ilustração da autora gerada com o ChatGPT a partir de foto da Câmara Municipal de Albufeira.
A culpa do tudo sei porque está no Facebook, ou porque o grunho de risco ao lado o disse numa dança de tiktok por entre filtros de vampiro, não está no iPhone atento pousado na mesa de cabeceira ou no bolso vazio de tudo o resto, está mais uma vez na putrefação do prognóstico grupal – na apropriação abusada de conceitos distorcidos pela ignorância das verdades absolutas.
E se não houver a verdade absoluta, cada verdade valerá menos, ou valerá mais – qual será a tendência vigente, valorizar o argumento particular em detenção do generalizado, ou vice-versa?
É preciso ver Deus para acreditar em Deus? É preciso ver o amor para amar, para se sentir amado? É preciso ver sangue exposto para acreditar nas feridas que a ciência empiricamente fundamenta? É preciso ver a fome para perceber que ela existe?
Mas talvez seja preciso ver o medo para lhe atribuir lógica.
Viver em sociedade e passar tão despercebido quanto um estoico, exige um esforço pessoal tremendo; ou não. Colaboremos. O monstro é duro de roer e tem os tentáculos a orquestrar classes e categorias, a hierarquia é uma pirâmide com as artérias entupidas pelo capital. Contorná-lo em nome de outra riqueza – menos material, menos individual – é missão para os Hércules da resistência.
De onde vem essa ânsia de condenação?
Ter resposta para tudo só é possível engolindo o tempo sem mastigá-lo, à bruta, arranhando a goela com suspeições cuja digestão nunca será eficaz – as certezas são indigestas.
A superfície de arbustos rolantes aos nossos olhos é, afinal, um bosque de tojos soprado pela alta velocidade de um comboio sem identidade, não existe atenção capaz de focar o que acelera.
A mulher do café tem o ecrã do telemóvel aberto na página de Facebook em que três grunhos destilam o ódio que ela sorve pelas narinas de dragão do próprio rosto, porque considera que fazer pandam lhe trará mais credibilidade. Será que ela sabe de que órgão lhe brota a ira? Penso em perguntar mas desisto dessa retórica – não funciona, já nada funciona.
Antes de sair, olho para ela, penso três vezes – talvez mais, como saber a quantidade de vezes que um pensamento ocorre? Não sou perita em cérebros e suas funções, nunca serei, cada macaco no seu galho, o conhecimento consequente dos estudos deixo-o para quem estuda – e digo, Desculpe ouvir a sua conversa mas, como falou alto, queria só dizer-lhe que estou impressionada com a quantidade de certezas que a senhora tem, bem-haja, tem mesmo razão, isto só lá vai com umas boas pazadas no lombo dos anormais.
E saí.
Alguém me diz para centrar a atenção no que vale a pena. Ainda que a velocidade do comboio esmigalhe folhas de tojos incapazes de emergir em redor dos carris, a minha indignação não vale de nada.
Já que falas em carris, é bom que saibas que eu não sou de ferro, Respondi-lhe, Eu também sinto o pânico de caminhar entre zombies e o pânico nunca foi bom conselheiro, o pânico é protecionista.
Uma amiga que fiz em Rishikesh, a Ana Cristina, dizia, às tantas e a meio de uma conversa sobre indignações, que explicar o evidente dá preguiça. E eu já nem sei se é por preguiça ou desmotivação que sou totalmente incapaz de entender a conduta vigente. Dois polos desalmados – de um lado os do é o que é, que as coisas estão escritas e cada qual tem o seu processo; do outro, as línguas bifurcadas a esguichar veneno aos quatro ventos. O resto é gente como eu, à procura das saídas de emergência do piso central de um regressado coliseu de roma.
Ana Sofia Brito é autora dos livros Em Breve, Meu Amor, O Homem do Trator e A Menina Dança em Dezembro (maio 2024). Lançou em 31 de janeiro de 2025 o livro de poesia Tempo, é autora do podcast Direito ao Grito, da Fnac, e assina a rubrica mensal E por falar em livros… no jornal Sul Informação.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










