AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Cinema

Um relógio que já não marca o tempo

| 07/06/2021

Anthony Hopkins: “Vivemos, coleccionamos coisas, pensamos que somos importantes e no fim tornamo-nos crianças outra vez”, diz o ator, a propósito do filme Pai, em que é protagonista. Foto: Direitos reservados.

 

Num artigo publicado no suplemento ípsilon, do jornal Público de 7 de Maio, por causa do filme Pai, vem destacada esta frase provocadora dita por Anthony Hopkins, o actor: “Nascermos é a grande blague. Vivemos e depois morremos. Mel Blanc, o tipo que fez Bugs Bunny, disse: ‘That’s all folks!’ Foi o seu epitáfio. Vivemos, coleccionamos coisas, pensamos que somos importantes e no fim tornamo-nos crianças outra vez.”

Começo por aqui porque é assim que o filme termina: Anthony sentado na beira da cama, a chorar no ombro da sua cuidadora que o abraça, como se fosse o colo da mãe. E a gente fica parada, engasgada, como se tivesse um nó na garganta, sem saber o que dizer, a não ser talvez perguntar-se: como será comigo? Como será com os mais velhos que me rodeiam?

Mas não se trata de um filme piegas. Nada disso. É um filme incómodo, forte, duro, labiríntico, fascinante e magnificamente realizado, que exige uma grande atenção do espectador.

Demoramos tempo a conseguir entender o que se está a passar, se é que o conseguimos verdadeiramente. No princípio tudo parece normal e lógico. Até que nos apercebemos que não saímos nunca da mesma casa, da casa que é a cabeça do pai. A certa altura somos nós que estamos baralhados, sem saber onde estamos e quem é quem. Só no final percebemos que vivemos durante uma hora e trinta e sete minutos na cabeça daquele homem idoso já dominado pela demência. É incrível a realização, como é incrível a interpretação.

O filme é uma viagem – quase tão dolorosa para nós como para a filha, sobretudo – pela mente demente de Anthony. E nós ficamos perdidos à procura de encontrar uma lógica para aquela sucessão de caras e situações, de intenções e emoções, de repetições e obsessões. Às vezes parece verdade, mas logo a seguir já não. Estamos tão perdidos quanto ele.

A mestria do filme está em envolver-nos de tal modo que tanto nos colocamos na pele do pai como no terrível e angustiante lugar da filha. Mas é mesmo ela que nos mostra o quanto sofre ou é o retrato que o Pai nos faz dela nalguns momentos de lucidez? Alguma vez saímos da cabeça de Anthony? Eu não sei responder.

Sei apenas que é um filme obrigatório que se vai agarrar de tal modo a cada um de nós que não mais se apagará da memória. Pelo filme em si. Pelas interpretações. Pelo medo de que um dia nos aconteça o mesmo. Porque já vivemos alguma situação semelhante. O filme expõe diante de nós, de maneira crua e implacável, a extrema fragilidade do ser humano, seja ele quem for. Mostra “na perfeição a mudança súbita e inexplicável de estados de espírito: a transição inesperada da simpatia para a crueldade, da teimosia para a súplica, da confiança para a insegurança”. Fala de todos nós.

O Pai é a versão para cinema de uma peça de teatro escrita pelo próprio realizador (Florian Zeller), nascida de uma história pessoal vivida por ele: “Fui criado pela minha avó, que foi uma mãe para mim, e ela começou a sofrer demência quando eu tinha 15 anos”, conta ele (ípsilon).

Anthony Hopkins é, mais uma vez, superlativo no papel, pela autenticidade que consegue. Fica-lhe muito bem o Óscar que recebeu. Mas seria muito injusto não destacar a filha (Olivia Colman) na sua luta por se manter ao lado do pai.

Um filme que nos espelha a todos.

 

O Pai, de Florian Zeller
Com Anthony Hopkins, Olivia Colman e Mark Gatiss
Drama; M/12; 2020, cor, 97 minutos

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar).

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Perseu declara-se vítima

Testemunho

Perseu declara-se vítima novidade

Escrevo como sobrevivente de abuso sexual na Igreja. Estive calado trinta e seis anos. Sou acompanhado há mais de oito. Não escrevo para defender a instituição, e nada lhe devo. Defendo duas coisas apenas: os sobreviventes e a Graça. [Testemunho de um sobrevivente de abuso sexual na Igreja Católica].

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia

Padre da Obra da Rua morreu

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia novidade

O padre Telmo Ferraz, da Obra da Rua, celebra cem anos de vida e missão. Membro do clero da Diocese de Bragança-Miranda, nasceu no Mogadouro a 25 de novembro de 1925 e começou cedo o seu sacerdócio de rebeldia e compromisso social. Denunciava a tragédia humanitária provocada pelas condições péssimas em que viviam quantos davam a vida na construção de barragens naquele Trás-os-Montes longínquo e abandonado dos anos 1950. [Texto de Tony Neves]

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.