“Together” juntou 30 mil no Vaticano

Um rio de diferenças inundou a Praça de São Pedro com desejos de unidade e paz

| 30 Set 2023

Um pano a fazer de rio: inundar a praça das esperanças dos jovens. Foto reproduzida da transmissão vídeo do Vatican Media.

 

Refugiados, pessoas vulneráveis, freiras, jovens e participantes no Sínodo católico que na próxima semana se inicia em Roma, abriram um rio em plena Praça de São Pedro, no Vaticano. Na enxurrada provocada pelo rio, a sua água levava desejos de paz e unidade entre toda a família humana, compromissos pelo acolhimento da diversidade, apelos a quebrar fronteiras, desejos do fim das guerras. Todos trazidos para a praça por pessoas com deficiência ou quem viveu histórias de sofrimento na Ucrânia, Líbano, Indonésia, Síria, Colômbia ou Eslovénia.

O rio, um grande pano azul de algumas dezenas de metros, quis simbolizar a onda de cuidado pela criação e do alargamento da justiça e da paz proposto no encontro Together/Juntos. Nas vésperas do início do Sínodo católico sobre a sinodalidade, líderes cristãos de 20 denominações diferentes – alguns deles representando federações de igrejas – quiseram deste modo responder à sugestão da comunidade ecuménica de Taizé de rezarem “juntos” pelos participantes do sínodo, num “encontro do povo de Deus”.

Várias das confissões cristãs, sobretudo de algumas comunidades evangélicas, estavam em São Pedro pela primeira vez.

Depois de terem escutado a leitura do texto das bem-aventuranças, extraído do Evangelho segundo Mateus, as cerca de 30 mil pessoas, sobretudo jovens, que quase enchiam a Praça de São Pedro, cantaram “dá-nos a paz, Senhor”. Um longo silêncio de vários minutos caiu sobre a Praça, tornando ainda mais sereno o fim de tarde de Roma.

As diferenças, além dos cerca de 70 países representados, estavam desde logo presentes no altar; além do Papa Francisco, estavam presentes vários líderes das principais confissões cristãs: o Patriarca ortodoxo Bartolomeu, de Constantinopla; o Arcebispo Justin Welby, primaz da Comunhão Anglicana; a estoniana Anne Burhardt, secretária-geral da Federação Luterana Mundial; Elijah Brown, da Aliança Baptista Mundial; Jong Chun Park, do Conselho Metodista Mundial; e vários hierarcas de igrejas orientais (ortodoxas, arménias, sírias, coptas…), num total de duas dezenas de líderes, incluindo o Papa Francisco.

 

Simbolismos importantes

O Papa Francisco ladeado pelos outros líderes cristãos, quando todos se voltaram para a Cruz de São Damião. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

Ao longo das duas horas de vigília, vários foram os momentos simbolicamente relevantes: um coro de crianças ucranianas canta Hallelujah, de Leonard Cohen, em inglês, ucraniano e italiano; um grupo de pessoas com deficiência encenou a parábola do bom samaritano; um coro nigeriano trazia a realidade de povos onde cristãos são perseguidos ou mortos por causa da sua fé; Wael, refugiado de Alepo (Síria) contou como adoptou Itália como a sua casa e apelou a “quebrar barreiras”; Daniela, de Bogotá (Colômbia) recordou os cinco milhões de deslocados colombianos que a guerra civil provocou e que vivem fora do país; um ramo de flores e um colete salva-vidas foram depositados junto da cruz – o “Crucifixo de São Damião”, diante do qual Francisco de Assis se converteu; e evocaram-se as guerras na Ucrânia, Afeganistão, Mianmar, Paquistão, Haiti, Nicarágua, Congo, Síria, Sudão, Etiópia e muitos outros países, bem como situações como as dos refugiados, migrantes, vítimas das alterações climáticas ou “vítimas de violência, assédio e abuso, na Igreja e na sociedade”.

Uma Via Creationis recordou os momentos simbólicos da criação do mundo: os dons da luz, do céu, da terra e do mar, dos corpos celestes, das criaturas da água e do mar; das criaturas da terra. Émile, do Líbano, contou que na sua família há católicos, protestantes, evangélicos e ortodoxos: “Não há sinodalidade sem ecumenismo e não há ecumenismo sem sinodalidade.”

O sírio Wael tomou a sua experiência de refugiado para dizer: “Muitas vezes, construímos muros que nos separam uns dos outros, marcando certos indivíduos como ‘nós’ e outros como ‘eles’, levando-nos à armadilha da exclusão e a um sentimento enganador de superioridade.” Por isso pediu: “Acredito que abraçar um ‘nós’ mais amplo é a chave para a paz. Vamos quebrar fronteiras e celebrar o valor de nossa humanidade compartilhada enquanto apreciamos as nossas origens únicas. Não importa de onde viemos ou no que acreditamos, todas as pessoas merecem paz e respeito. Devemos rejeitar preconceitos, estereótipos e preconceitos. Em vez disso, abraçar a beleza e a riqueza das nossas diferenças.”

Daniela tomou também a realidade do seu país: “A construção da paz, na minha experiência, não é a expressão de concordar uns com os outros, mas de caminhar juntos ouvindo, reconhecendo e aprendendo o que muitas vezes nos é desconhecido. Por isso, ‘o outro’ é um dom neste caminho, capaz de nos ensinar novos métodos de convivência.”

 

“Antes de ser protestante, sou cristã”

Juliette: “Antes de ser protestante, sou cristã e a Igreja é una, seja católica, protestante, evangélica ou outra” Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Três horas antes, na Basílica de São João de Latrão, decorreu um tempo de oração de louvor, preparado, além da comunidade de Taizé (Borgonha, França), também pela comunidade Chemin Neuf, com origem em Lyon (igualmente em França) e várias comunidades protestantes e evangélicas.

Muita música que levava os participantes a fechar os olhos numa atitude de oração, a erguer ou baixar os braços, a cantar ou mesmo a saltar. Também aqui, muitos protestantes, evangélicos, luteranos e outros.

“Antes de ser protestante, sou cristã e a Igreja é una, seja católica, protestante, evangélica ou outra”, disse ao 7MARGENS a francesa Juliette Colas, 23 anos, que acaba de finalizar o curso de Direito, justificando a razão de estar ali, para rezar por uma iniciativa da Igreja Católica. “Se nos pedem para vir rezar, venho”, acrescentava, contando que viveu durante um ano na Casa da Unidade, que reunia católicos, protestantes e evangélicos. “É preciso mudar a Igreja a partir do exemplo de cada um”.

A polaca Makgorzata Nastrozna, 21 anos, integra uma comunidade católica e vem de Gdynia/Gdansk. Enquanto se camta, ela ergue os braços, soletra todas as letras e música. “Só juntos podemos ver que há um Deus e só juntos percebemos que o amor é o caminho.”

Makgorzata Nastrozna: “Só juntos.” Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Em São Pedro, na sua homilia no final da celebração ecuménica, o Papa referiu de novo a ideia de caminhar juntos como significado da palavra “sínodo”, para se referir depois à tripla importância do silêncio – para a vida do crente, da Igreja e do diálogo ecuménico.

“Num mundo cheio de ruído já não estamos habituados ao silêncio; aliás, às vezes temos dificuldade em tolerá-lo, porque nos coloca diante de nós mesmos”, afirmou o Papa. “O silêncio, na comunidade eclesial, torna possível a comunicação fraterna, na qual o Espírito Santo harmoniza pontos de vista.” E finalmente o silêncio, acrescentou, é “fundamental para a oração, da qual começa o ecumenismo e sem a qual é estéril.”

No final, dois jovens ofereceram aos líderes religiosos presentes algumas sementes para plantar, representando os “dons concedidos pelo Espírito Santo às diversas tradições”.

Antes de terminar a vigília, o arcebispo anglicano de Cantuária convidou todos a rezar a oração do Pai Nosso na sua própria língua. A babel linguística transformou-se, de novo, numa manifestação de unidade.

Em Roma, caía a noite, a oração continuou com cânticos meditativos à volta da cruz, e os rostos manifestavam-se felizes. Juntos.

 

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Clero de Angra pede “incremento da pastoral vocacional” assente no “testemunho do padre”

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Reconhecendo que o contexto da Igreja universal “é caracterizado pela descredibilização do clero provocada por diversas crises, pela redução do número de vocações ao sacerdócio ministerial e pela situação sociológica de individualismo e de crescente indiferença perante a questão vocacional”, os representantes do Clero diocesano de Angra (Açores) defendem o incremento da “pastoral vocacional assente na comunidade, sobretudo na família e no testemunho do padre”.

Por uma transumância outra

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Este texto do Padre Joaquim Félix corresponde à homilia do Domingo IV da Páscoa na liturgia católica – último dia da semana de oração pelas vocações – proferida nas celebrações eucarísticas das paróquias de Tabuaças (igreja das Cerdeirinhas), Vilar Chão e Eira Vedra (arciprestado de Vieira do Minho).  

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