Na vila de Sobrado, Valongo

Um S. João que subverte a vida, mas (também) venera o santo

| 23 Jun 2024

Bugios recorrem à Serpe para libertar o Velho. Foto © projeto Festivity

Bugios recorrem à Serpe para libertar o Velho. Foto © Projeto Festivity

 

Há centenas de festas de mouros e cristãos que persistem na Europa e, por via da colonização, também noutros continentes, mas são raras as que não terminam com a “vitória” dos cristãos. Na que se realiza durante o dia de S. João, 24 de Junho, na vila de Sobrado, Valongo, nos arredores do Porto, são os mouros que ganham o combate simbólico, pelo menos do ponto de vista da lógica militar. Mas nem por isso aquela festa deixa de ser uma festa cristã, pautada pelo diálogo com o diferente e pela capacidade de paródia do quotidiano.

A tradição sobradense manda que as danças comecem manhã cedo, culminando num combate já perto do sol-pôr. Defrontam-se dois agrupamentos, cada qual com seus trajes próprios. Os Mourisqueiros são jovens solteiros, de barretina emplumada e espada em riste, configurando um grupo garboso e bem estruturado, sob o comando do Reimoeiro. Ao ar austero e militarizado das várias dezenas de Mouriscos, contrapõem-se as centenas de Bugios de ar folgazão, ruidoso e irreverente, todos mascarados e com largos chapéus empenachados de uma miríade de fitas multicolores, sob a liderança do Velho da Bugiada.

As danças que cada uma das formações executa ao longo do dia 24 de junho e, mais ainda, um conjunto de manifestações distintas, realizadas por outro tipo de personagens mascaradas, levam muitos a concluir que a tradição sobradense é uma festa pagã, de iniciativa e protagonismo genuinamente populares.  As tais manifestações de mascarados ocorrem em simultâneo ou nos intervalos das danças de mouros e cristãos, com destaque para as críticas aos acontecimentos do ano, também designadas entrajadas; os rituais da sementeira, realizados na sua ordem inversa; e a dança do cego e do seu moço.

Tanto as danças como as representações rituais enchem de tal forma e com tal intensidade a relação das pessoas com a festa, que facilmente se chega a marginalizar a sua vertente religiosa e, nomeadamente, católica.

Aquela que, pela sua singularidade, é conhecida como festa da Bugiada e da Mouriscada não deixa de ser também uma festa sanjoanina, de matriz solsticial, dedicada ao Santo Precursor. Como tal,  apresenta todos os ingredientes formais das festas cristãs tradicionais: uma comissão organizadora, com o seu juiz e mordomos; o arraial com noitada(s);  a missa de festa na igreja paroquial, “cantada” e com um pregador; o anúncio da constituição do ano seguinte pelo pároco; uma banca na igreja, para os devotos entregarem donativos de promessas em troca de uma pagela; procissão no exterior do templo, onde se integram as confrarias religiosas e outras organizações da comunidade cristã, assim como os portadores de ex-votos em cera e os amortalhados; e, no fim do dia, o ato de transmissão do ramo e da responsabilidade da festa à comissão seguinte.

 

O pároco e a Dança do Doce

Mourisqueiros transportam o andor de S. João. Foto © Projeto Festivity

Mourisqueiros transportam o andor de S. João. Foto © Projeto Festivity

Vista a partir da igreja matriz, esta festa pode, por isso, ser vista como uma vulgar festa de aldeia e haverá por certo quem assim a vê e vive. Mas neste S. João tudo quanto em Sobrado acontece – antes, durante e depois dos atos devocionais – adquiriu uma pujança e visibilidade tais que se tornou no principal motivo de interesse para sobradenses e forasteiros. E começa logo na missa de festa: quando a Eucaristia chega ao Sanctus, irrompe na igreja uma delegação mourisca, composta pelo Reimoeiro e os dois colaboradores seus mais importantes, todos de cabeça descoberta, e posicionam-se perto do altar da imagem de S. João. No final, entram os restantes Mourisqueiros que são quem transporta os diversos andores, na procissão que se segue.

Como é considerado falta grave qualquer Bugio ou Mourisqueiro pôr os pés em terreno do largo Passal, o amplo espaço que se abre frente ao templo, até ao final da manhã, os mouriscos, para se dirigirem à matriz, recorrem a um percurso que obriga a atravessar o que era outrora a cortinha do pároco, que dá acesso lateral ao templo. Uma vez incorporados na procissão, já o interdito se lhes não aplica.

Não são estes os únicos momentos e circunstâncias em que a esfera do religioso e do profano se tocam. Uma delas é a performance quer de Bugios quer de Mourisqueiros, que é feita ao fim da tarde, no pátio interior da residência paroquial, espaço que era, outrora, o quinteiro da casa. Designada Dança do Doce, funciona como uma espécie de recepção dada pelo abade, imediatamente antes de cada agrupamento se dirigir para o respetivo castelo, para o combate entre as duas partes. Ao responsável religioso da paróquia cabe retribuir com um doce regional típico e um copo de vinho para cada dançarino. Em passado já distante chegou a evidenciar-se alguma tensão neste ponto da festa, fosse porque o pároco tinha algum desaguisado com a comissão de festas, por exemplo, ou simplesmente porque não simpatizava com esta tradição e pretendia dela desobrigar-se (sem sucesso, diga-se).

Num terreno já mais difuso e híbrido, deve referir-se também o facto de o Reimoeiro e o Velho da Bugiada benzerem os membros dos respetivos agrupamentos, quando a Dança de Entrada de cada parte se conclui junto à porta do adro da igreja. Nesse momento, Bugios e Mourisqueiros retiram, respetivamente, os chapéus e as barretinas, ajoelham e, recorrendo a água benta recolhida na pia batismal, aspergem cada participante.

Na ponta final do dia, já depois de os Mourisqueiros terem derrotado os Cristãos e de estes terem recorrido a uma Serpe ou Dragão para, num golpe de surpresa, libertar o seu Velho, feito prisioneiro, ambos os agrupamentos se despedem executando, junto à igreja, a Dança do Santo, em situação de perfeita igualdade, como estavam no princípio do dia.

 

Uma festa católica que interage com a narrativa profana

Mourisqueiros na missa, junto à imagem do santo. Foto © Projeto Festivity

Mourisqueiros na missa, junto à imagem do santo. Foto © Projeto Festivity

Destes elementos descritivos, pode concluir-se que a Festa de S. João de Sobrado dificilmente se compreenderia na sua complexidade, secundarizando ou excluindo a vertente religiosa e designadamente católica. Esta reveste-se de uma lógica específica, com a qual a narrativa profana interage e entra em diálogo, em vários momentos. Há sobradenses e forasteiros que se referenciam a esta manifestação festiva a partir da devoção a S. João, a qual não exclui e, pelo contrário, convive bem com as restantes facetas e vertentes festivas.

Importa também salientar que o religioso, no sentido mais amplo, está presente de outros modos na Festa da Bugiada e da Mouriscada. A título de exemplo, as críticas ou estardalhadas, que acompanham a Bugiada, na segunda metade da manhã de 24 de junho, podem considerar-se um excelente exemplo daquilo que o filósofo da cultura Mikhail Bakhtin designou por carnaval ou carnavalização. Sob pretexto de evocar acontecimentos e situações do ano anterior, pela sua espontaneidade, subversão de normas e protocolos, chegando à caricatura dos organizadores da própria festa e à denúncia de atitudes e comportamentos das autoridades estatais e religiosas, tais manifestações conseguem, por um dia, derrubar as hierarquias dominantes e abrir brechas para um mundo virado do avesso.

Nesta mesma linha, a festa sobradense é, ela própria, um permanente exercício da inversão da ordem estabelecida e dos princípios que a sustentam. Numa visão simplista seria lógico e apetecível tomar os Bugios pelos bons da história e os maus – a minoria invasora e diferente – como sendo os Mourisqueiros. Mas é precisamente o contrário que ocorre. Os organizados, os jovens de cara descoberta e assumida, os vencedores do combate são estes últimos, enquanto os primeiros são os brincalhões, os metediços, os que fazem a algazarra… sob o disfarce de uma máscara. Ou seja, dificilmente poderia haver uma maior inversão de lógicas.

Por tudo isso, em Sobrado, continua a fazer-se a festa, mas uma festa indisciplinada na sua ordem, criativa na sua aparente desordem, possibilitando encontrar linguagens simbólicas que contribuam para a gestão de conflitos e para a antevisão de uma vida diferente, através da paródia da vida quotidiana.

(Para ler uma breve apresentação da festa: clicar aqui; para uma perspetiva mais aprofundada: aqui.)

 

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