Um sentido para a vida humana (1)

| 27 Ago 2020

Uma escatologia que nos devolva a esperança

 “Urge conquistar um sentido para a vida dos homens.”
(Antoine de Saint-Exupery, A Paz ou a Guerra?)

“O homem é um ser confinado sem confins.”
G.Simmel, citado em Bernardo Gianni,
A cidade dos desejos ardentes

 

Precisamos de uma escatologia que nos devolva a Esperança. Precisamos de acreditar que há um Horizonte para além de todos os horizontes, nesse ponto no infinito onde os paralelos se cruzam. Um Sentido que nos coloque no caminho de uma vida mais autêntica, luminosa, verdadeiramente significativa. A vida humana é opaca e vazia se nela não existe o encanto de uma Promessa. Porque à vida humana não basta a simples manutenção, a simples sobrevivência; no coração dela há uma abertura para o Infinito, para o Absoluto, para Deus. Desta abertura vem um chamamento para uma superação continua do dado, do imediato da circunstância individual, do fragmentário, do absurdo aparente. É este o motor da nossa tão humana e inerente insatisfação, da nossa sede insaciável pela plenitude das coisas, pela totalidade, pelo absoluto do amor, da verdade, da beleza; enfim, pela plenitude de uma Perfeição intuída como radical, princípio e fim de todas as coisas.

Noutras palavras, a consciência humana parece estar radicada na realidade última, metafísica, do Real. Sendo esta realidade absoluta, infinita e ilimitada, gera-se dentro de cada consciência individual uma vocação para o universal, quer dizer, para a Plenitude do próprio Ser. Mas o indivíduo, condicionado como é aos estritos limites espacio-temporais da sua circunstância biológica, não pode jamais realizar esta plenitude a que é chamado, a não ser parcialmente. Isto é, indo da condição de indivíduo particular à de indivíduo singular – o mesmo é dizer, tornando-se pessoa.

Tornar-se pessoa é tornar-se sujeito, quer dizer, superar a condição de mera realidade objetiva ou de objeto; é reconhecer e dar a reconhecer esta verdade fundamental acerca de si próprio: ele (a sua subjetividade, o seu “eu”) é essencialmente ilimitado, pois não é objeto nem cabe apenas nos limites estritos de uma biologia. Cada um de nós, por mais que se esforce, é incapaz de conhecer toda a extensão e profundidade da sua própria subjetividade, porque ela é um universal que visa realizar-se no indivíduo particular. Dizia Heraclito: “Ninguém pode conhecer os limites da sua alma, mesmo que percorra todos os caminhos, tão profundo é o logos que a sustenta.” E parece que Pascal também dizia: “O homem é infinitamente maior que o homem.”

É esta vocação para o universal-ilimitado que, segundo creio, está na génese de toda a arte, toda a filosofia, toda a religiosidade humanas. É esta a fonte de toda a sede de Sentido que se manifesta de tantas formas. É uma vocação que é o motor, se assim podemos dizer, transcendente, da própria evolução imanente do ser humano enquanto ser social, intelectual, espiritual.

Onde reside então a nossa Esperança?

Primordialmente, julgo que temos de fazer o esforço de reconhecer a evidência intelectual, ontológica, de que o Ilimitado-Absoluto existe e está na raiz e fundamento do nosso “eu”. Só nele, portanto, nos podemos humanamente realizar, mesmo que nos pareça um estranho paradoxo a ideia de nós, seres – aparentemente – limitados, nos podermos somente realizar no sem-limites,isto é, no Ilimitado. É que se nenhum limite ou meta estritamente imanente, mundana, objetiva, nos satisfaz completamente, temos de pôr a nossa Esperança naquilo que está para além de todo o limite, naquilo que transcende todo o limite. E isto é o Ilimitado, natureza do Absoluto. Está bom de ver que este é um caminho para uma esperança ilimitada, porque a sua âncora se funda no incondicionado – o mesmo é dizer, na infinita liberdade, que é outro nome do Absoluto. A nossa esperança reside, por conseguinte, na possibilidade de consumarmos a nossa verdadeira e épica natureza, que é a de sermos absolutamente livres, à imagem do Incondicionado que é nossa origem, subsistência e destino. Mas para chegarmos aqui, temos de pôr o espiritual no centro da nossa civilização, como educação e finalidade existencial.

É da nossa natureza esperar o impossível. É humano acreditar numa esperança total, definitiva, promessa de plenitude ilimitada. É natureza e vocação humanas esperar sem limites pelo que não tem limites. Não está na natureza do Infinito satisfazer-se com nada menor que o Infinito. Santo Agostinho dizia que “A medida do amor é amar sem medida”, e também “Ama e faz o que quiseres”, porque o “amor sem medida” (i.e. sem limites) pressupõe necessariamente a liberdade ilimitada de amar. O que revela que só nos podemos de facto comprazer numa plenitude que seja ilimitada, e que se resume, no fim de contas, na ilimitada liberdade de ser.

A escatologia que nos interessa não é aquela que nos trará um fim, uma consumação da história onde acabemos completamente saciados, material ou sensorialmente, sem nada mais a fazer, dizer, pensar, criar – em suma, sem nada mais a esperar que seja à altura dos nossos sonhos maiores. Só nos interessa realmente um fim que signifique o Princípio, quer dizer, o princípio da nossa verdadeira vida, da nossa plenitude existencial, da nossa essencial liberdade.

A escatologia que é o objeto da nossa esperança ilimitada é a plenitude de Deus, princípio e fim de todas as coisas, não o tempo em que a história acabou, mas o tempo em que a história começa. Não uma resolução prosaica da história (individual e/ou coletiva), mas épica. Porque será aí que começaremos verdadeiramente a ser. O que nós desejamos profundamente é que nos seja dada razão para esperar para sempre a partir de uma existência que se revela milagre, fonte de possibilidades até aí insuspeitadas de felicidade e realização, quer agora, quer no futuro.

Onde há plenitude da verdade e da liberdade, aí estamos no fim – que é o princípio – dos tempos. E este pode ser já, agora mesmo. Aí a eternidade rompe na história para elevar à forma possível a matéria de um espaço-tempo particular, de súbito libertando o presente do seu peso esmagador, da dinâmica viciosa do seu próprio eterno-retorno, reintegrando-o assim no fio de uma qualquer tradição intemporal, irmanando-o de outros tempos de plenitude de realização humana, deste modo renovando-se como tempo de promessa aberto a um futuro virtualmente ilimitado. São tempos sem igual em que a esperança se materializa em arte, filosofia, espiritualidade e virtude ética.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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