Um sentimento misto

| 17 Out 21

Solidão. Abusos

“Talvez não precisemos de fazer mais, mas comunicar melhor. Não ter receio de assumir os nossos erros. Não alimentar a impunidade pelo sentimento de vergonha que o pecado do irmão gera em nós.” Foto © Sam Moqadam / Unsplash

 

No trabalho ou em qualquer outra responsabilidade todos desejamos que tenham confiança em nós e no discernimento que fazemos das coisas. Quantas pessoas não fazem a menor ideia da rede complexa de relacionamentos que estão em jogo e que, por detrás dos silêncios, existe uma visão do todo cuja compreensão exige tempo para a assimilar, não um tweet. Assume, aqui, importância, desenvolver uma cultura da confiança em quem assume determinadas responsabilidades. Caso contrário, ninguém poderia reconhecer em ninguém a responsabilidade que assume. Por outro lado, há quem use esta cultura da confiança para evitar comunicar a verdade por não saber que repercussões terá. Conhece o risco que uma má interpretação da verdade à luz dos olhos mundanos pode gerar com fracturas injustas irreparáveis. Nesse sentido, sobrevivem os comunicadores mais aptos. Aqueles que estão cientes de que comunicar é comunicar-se. Entre as notícias dos abusos de menores em França pelos membros da Igreja Católica, e o silêncio que muitos se queixam dos bispos de Portugal, eu tenho um sentimento misto.

“Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.” (Mt 25, 45). Quando um sacerdote ou leigo ou professor ou treinador abusa de um menor, fisicamente ou psicologicamente, na revelação cristã colocada na boca do próprio Jesus no Evangelho de S.Mateus, é a Jesus que o fazem. Ou seja, seria um pecado ao mais alto nível do ponto de vista espiritual. Um pecado que me faz lembrar como nos tribunais eclesiásticos se conclui que um matrimónio nulo significa que nunca existiu. Logo, em relação aos sacerdotes questiono se não terá acontecido o mesmo. Um sacerdote que abusou de Jesus num menor é sacerdote?

Quando um pai ou mãe abusam de um filho, a filiação não é posta em causa por ser biológica. Mas no caso de um catequista, animador, professor ou treinador, ou qualquer outra pessoa que lida com menores e não tem uma relação biológica com esses, o crime coloca em causa a sua vocação. Reconheço que os casos que envolvem membros da Igreja são graves porque demonstram não reconhecerem Jesus no menor. Por outro lado, muitos dos menores não possuem a inocência de outros tempos, e há menores adolescentes que podem originar falsas acusações por padecerem, também eles, de alguma patologia psicológica, com dupla personalidade e afins. Por isso, todos os casos de abuso de menores devem ser analisados por especialistas de diversas áreas, com reserva e cuidado para evitar mais danos do que aqueles que já existem. Por isso compreendo a razão de não se comunicar muito os casos em análise, pois o povo tem a mania de ser especialista em tudo e faz de juiz quando não tem qualquer competência para isso. Basta pensar no caso de Paulo Pedroso e da Casa Pia com desfecho dez anos depois a favor da inocência do político. Mas aqui, a comunicação é fundamental.

Numa era da informação como a nossa, o silêncio significa suspeita, independentemente das pessoas nada terem para dizer. É o desafio desta era em que as notícias falsas que levantam falsos testemunhos são mais partilháveis do que as notícias verdadeiras. Em 2018, um estudo realizado por investigadores do MIT centrado no Twitter mostrou como as notícias falsas são mais difundidas pela pessoas do que pelos bots (algoritmos informáticos que simulam pessoas) e até mais depressa do que as notícias verdadeiras. Daqui se compreende que não seja fácil à Igreja portuguesa comunicar o que se está fazer em relação à tutela de menores e à quantidade de casos investigados por recearem abrir um filão de oportunismo de falsas notícias. Talvez pensem que nada ou pouco dizendo implica deixar de haver matéria para isso, mas pode ser um tiro no pé.

Se nada comunicarmos, ou se o pouco que comunicamos desvaloriza o que acontece em Portugal, são o início de suspeita nesta era da informação em que vivemos. Depois, como podemos alertar para se olhar também para os crimes cometidos em outros âmbitos da actividade com menores, menos relacionados com a vida espiritual, se não formos o exemplo daquilo que se faz para garantir a Igreja como um espaço que reconhece em cada criança a presença de Jesus e, por isso, cuida da sua formação e pessoa sabendo que caminha em terreno sagrado?

Talvez não precisemos de fazer mais, mas comunicar melhor. Não ter receio de assumir os nossos erros. Não alimentar a impunidade pelo sentimento de vergonha que o pecado do irmão gera em nós. Não deve ser fácil a um bispo reconhecer que um membro da Igreja da sua diocese cometeu tal atrocidade contra Jesus, mas também não é fácil a um pai ou mãe assumir que o seu filho é drogado ou roubou. Mas enquanto um filho será sempre um filho, será que um sacerdote o foi alguma vez? Será que leigo alguma vez foi cristão? Porém, quantas vezes nos esquecemos de que por detrás daquele que comete o crime está uma pessoa, cuja verdade sobre a sua vida, que a levou por maus caminhos, pode ser mais dura do que pensamos. Só o amor cura. E no amor e oração encontraremos a inspiração criativa para comunicar a verdade sem medo de falhar, mas contando com isso. Pois, só falhando, reconhecemos que tudo o deu certo não foi por mérito nosso, mas de Deus em nós e entre nós.

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra; para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos.

 

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