Os temas menos consensuais

Um sínodo ecuménico, leigos a pregar e mais lugar para as mulheres

| 28 Out 2023

Aspecto da aula sinodal, momentos antes do início das votações. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

“A proposta de convocar um sínodo ecuménico sobre a missão comum no mundo contemporâneo” é um dos pontos inovadores apresentados pelo documento de síntese da primeira sessão da XVI assembleia do Sínodo dos Bispos, que neste sábado terminou formalmente em Roma, antes da missa de encerramento que será presidida pelo Papa Francisco, a partir das 9h (hora de Lisboa) de domingo.

A ideia recebeu, entre os 344 votantes que estiveram neste sábado na aula sinodal, 321 votos a favor e 23 contra. Apenas 27 dos 273 parágrafos do texto tiveram mais de 20 votos negativos e este foi um deles, mas todos receberam uma votação superior a dois terços.

Entre outros pontos com menos adesão, estão também os relativos ao papel das mulheres, aos novos ministérios de leigos – como por exemplo, “um verdadeiro ministério da Palavra de Deus, que, em contextos apropriados, poderia incluir também a pregação”, uma função hoje reservada em exclusivo aos padres; ou a eventual atribuição da tarefa judicial a outro organismo que não o bispo para tratar os casos de abusos (ver outro texto no 7MARGENS).

Dividido em três partes e 20 capítulos, o texto recebeu também mais de 20 votos contra em questões como a moral individual e familiar (identidade de género, orientação sexual, fim da vida, situações matrimoniais difíceis, inteligência artificial), as estruturas de participação e de governo da Igreja, a linguagem da liturgia, os abusos, o racismo e o colonialismo, o celibato e a possibilidade de entregar responsabilidades nas comunidades aos padres que abandonaram o ministério.

No capítulo ecuménico, do diálogo com outras igrejas e comunidades cristãs, os parágrafos com mais oposição foram os que respeitam à hospitalidade eucarística – ou seja, a possibilidade de católicos e protestantes, por exemplo, participarem da comunhão em celebrações de outra igreja que não a sua.

O tema é sentido sobretudo por casais em que os dois membros pertencem a confissões diferentes, diz o texto, que manifesta ainda “o desejo de continuar a envolver os cristãos de outras denominações nos processos sinodais católicos a todos os níveis e de convidar mais delegados fraternos para a próxima sessão da Assembleia em 2024”. Aliás, defende a síntese, o baptismo, comum a todos os cristãos, “é o princípio da sinodalidade” e o “fundamento do ecumenismo”. Por isso, “não pode haver sinodalidade sem a dimensão ecuménica”.

Sobre os ministérios, o texto da síntese diz que há necessidade “de uma maior criatividade na criação de ministérios de acordo com as necessidades das Igrejas locais, com um envolvimento particular dos jovens”. E além do “ministério da Palavra de Deus, recomenda o estudo da “possibilidade de criar um ministério a conferir aos casais empenhados no apoio à vida familiar e no acompanhamento” de quem se prepara para casar.

 

Menos consenso sobre as mulheres

O Papa sendo saudado por bispos e mulheres: uma novidade num sínodo: o lugar das mulheres ainda é dos que enfrenta mais obstáculos. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

O papel das mulheres ditou algumas das votações com mais oposição: a alínea j) do capítulo 9, com 69 votos contra (o equivalente a 20 por cento) foi a menos consensual. Diz o texto: “Foram expressas diferentes posições relativamente ao acesso das mulheres ao ministério diaconal [que permite executar algumas das funções do presbítero, mas não celebrar a eucaristia]. Alguns consideram que este passo seria inaceitável, pois estaria em descontinuidade com a Tradição. Para outros, porém, o acesso das mulheres ao diaconado restauraria uma prática da Igreja primitiva. Outros ainda discernem neste passo uma resposta apropriada e necessária aos sinais dos tempos, fiel à Tradição e capaz de encontrar eco no coração de muitos que procuram uma renovada vitalidade e energia na Igreja. Há quem receie que este pedido seja expressão de uma perigosa confusão antropológica, aceitando-a a Igreja alinhar-se-ia com o espírito dos tempos.”

Noutro parágrafo sobre o mesmo tema, recomenda-se a continuação da “investigação teológica e pastoral sobre o acesso das mulheres ao diaconado” aproveitando “os resultados das comissões” que o Papa instituiu para o efeito. A primeira não chegou a consenso e a segunda, dizem fontes do Vaticano ao 7MARGENS, não tem reunido. “Se possível, os resultados deverão ser apresentados na próxima sessão da Assembleia”, em Outubro de 2024, diz o documento.

Phyllis Zagano, teóloga dos Estados Unidos que integrou a primeira comissão, escreveu recentemente, em texto publicado no 7MARGENS, que múltiplas fontes bíblicas e das primeiras comunidades cristãs “atestam que, de tempos a tempos e de lugar em lugar, havia mulheres que ajudavam baptizando e crismando outras mulheres, eram responsáveis pela catequese de mulheres e crianças, levavam a comunhão e ungiam mulheres doentes, tratavam das paróquias, dirigiam serviços sociais e prestavam serviço diaconal no altar”.

“Ordenar mulheres para a ordem única de diácono enviaria uma importante mensagem à Igreja e ao mundo de que as mulheres podem com efeito representar Cristo, o Senhor Ressuscitado, de que as mulheres são feitas à imagem e semelhança de Deus”, defendia a investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, uma das autoras do livro Mulheres DiáconosPresente, Passado, Futuro (ed. Paulinas).

Sobre as mulheres, e sempre nos temas menos consensuais, a síntese não fica pela questão do diaconato. “Muitas mulheres expressaram profunda gratidão pelo trabalho dos padres e bispos, mas também falaram de uma Igreja que fere. O clericalismo, o machismo e o uso inapropriado da autoridade continuam a marcar o rosto da Igreja e a prejudicar a comunhão. É necessária uma profunda conversão espiritual como base para qualquer mudança estrutural. Os abusos sexuais, de poder e económicos continuam a exigir justiça, cura e reconciliação. Perguntamos como pode a Igreja tornar-se um espaço capaz de proteger todos.”

 

Linguagem mais igualitária

Momento inicial de oração, antes da maratona de cinco horas de votação. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

A síntese pede ainda uma linguagem mais igualitária nos documentos e textos litúrgicos da Igreja, bem como “à inclusão de um leque de palavras, imagens e histórias que valorizem mais a experiência das mulheres”. E propõe que “mulheres com formação adequada possam ser juízas em todos os julgamentos canónicos”.

Nem LGBT, nem homossexualidade – nenhuma das palavras aparece no documento. O texto refere a identidade de género e orientação sexual, propondo “um discernimento partilhado sobre questões doutrinais, pastorais e éticas controversas”, dando voz não só a peritos como também às “pessoas diretamente afectadas pelas controvérsias mencionadas” – e esse “caminho deveria ser iniciado até à sessão de Outubro do próximo ano. “De diferentes maneiras, as pessoas que se sentem marginalizadas ou excluídas da Igreja por causa da sua situação matrimonial, identidade e sexualidade também pedem para serem ouvidas e acompanhadas, e para que a sua dignidade seja defendida.”

A Assembleia reafirma que os cristãos não podem desrespeitar a dignidade de qualquer pessoa e recomenda ainda, no caso particular de África, “um discernimento teológico e pastoral sobre a questão da poligamia e o acompanhamento das pessoas em uniões poligâmicas que estão a chegar à fé”.

Rever “os critérios de selecção dos candidatos ao episcopado, equilibrando a autoridade dos núncios apostólicos com a participação das conferências episcopais é outra das sugestões menos consensuais. “Pede-se também que se alargue a consulta ao Povo de Deus, ouvindo um maior número de leigos, consagrados e consagradas, e tendo o cuidado de evitar pressões inadequadas”, diz o texto, que pede ainda que se activem “estruturas e processos de verificação regular do trabalho do bispo” em campos como exercício da autoridade, a administração de bens, o funcionamento dos organismos de participação e a protecção contra qualquer tipo de abuso. “A cultura da prestação de contas é parte integrante de uma Igreja sinodal que promove a corresponsabilidade, bem como uma possível salvaguarda contra os abusos.”

Outros temas menos consensuais, mas sempre aprovados por larga maioria: “tornar a linguagem litúrgica mais acessível aos fiéis e mais encarnada na diversidade das culturas”; o reconhecimento de que, em muitos casos, a missionação foi a par com a colonização e o genocídio; o celibato obrigatório; o estabelecimento de um Conselho de patriarcas e arcebispos das Igrejas Católicas Orientais com o Papa; o reforço do Conselho dos Cardeais (C-9) “como Conselho sinodal” ao serviço do Papa; e o “aprofundamento da natureza doutrinal e jurídica das Conferências Episcopais”.

Tudo isto em nome do sentido da fé dos fiéis. Com 26 votos contra, a assembleia afirma a “verdadeira igualdade de dignidade e uma responsabilidade comum pela missão” entre todos os baptizados. “Pela unção do Espírito, que ‘ensina todas as coisas’ (1 Jo 2, 27), todos os crentes possuem um instinto para a verdade do Evangelho, chamado sensus fidei. Este consiste numa certa conaturalidade com as realidades divinas e na aptidão para captar intuitivamente o que é conforme à verdade da fé. Os processos sinodais potenciam este dom e permitem verificar a existência daquele consenso dos fiéis (consensus fidelium) que constitui um critério seguro para determinar se uma determinada doutrina ou prática pertence à fé apostólica.”

Que é como quem diz, chegando a consensos alargados sobre determinadas matérias, isso traduz o verdadeiro sentido da fé. Para o ano se verá que consensos serão possíveis.

(O texto integral da síntese está publicado na página do Vaticano, para já, apenas na sua versão em italiano.)

 

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