Um Sínodo para todos

| 5 Fev 2022

Nathalie Becquart

“Ajudou-me muito ouvir Nathalie Becquart, a primeira mulher que terá direito de voto no sínodo, numa intervenção no forum do Centre Sèvres, a universidade dos jesuítas em Paris.” Fotografia captada do vídeo.

 

Ultimamente, na minha comunidade, o Sínodo da Igreja Católica sobre a sinodalidade tem sido tema recorrente das nossas conversas. Cada uma de nós (somos cinco) vai vivendo esse caminho de maneiras diferentes, nos grupos que acompanha, na paróquia e nas conversas com outros. A partir da (ainda) pequena experiência que temos, vão surgindo diferentes formas de encarar este caminho sinodal. Para alguns é uma oportunidade de viver e de fazer Igreja, uma oportunidade de participação e de construção da Igreja com que tantos sonham. Outros vivem-no com desconfiança e muitas perguntas: será que o que dissermos vai ser tido em conta? Afinal serão os bispos e o Papa quem tomarão todas as decisões. Também há aqueles que preferem respostas mais “intelectuais” e menos baseadas na sua própria experiência. E, finalmente, há outros que se mantêm indiferentes e que nem se questionam sobre a importância da transformação da Igreja.

Pessoalmente, percebo todas estas reações, sei que é um processo longo este que estamos a começar e que nem sempre será fácil de viver. Também tenho perguntas sobre como vai evoluir, sobre os resultados que terá, sobre onde nos vai conduzir. Mas acredito que o que vivemos agora – porque já estamos em sínodo – seja um passo de abertura ao Espírito que nos quer desinstalar e transformar.

Ajudou-me muito ouvir Nathalie Becquart, a primeira mulher que terá direito de voto no sínodo, numa intervenção no forum do Centre Sèvres, a universidade dos jesuítas em Paris.

Depois de a ouvir, se tinha esperança neste sínodo, com mais esperança fiquei…

Neste tempo em que nos vemos confrontados com tantos desafios a nível da sociedade (e da Igreja!), a sinodalidade aparece como oportunidade de escuta e de diálogo que pode levar a nossa Igreja a uma maior encarnação na realidade em que vivemos. Uma encarnação que vai pedir de todos muita abertura e muita escuta. Sim, é disto que se trata, dizia-nos Nathalie Becquart, de nos ouvirmos uns aos outros, de partilharmos, de deixarmo-nos tocar pelo que outros pensam, mesmo que seja diferente da nossa perspetiva. Não se trata de discutir ou de debater, trata-se de falar a partir do que cada um vive e ouvir a partir do coração de cada um.

Depois, sim, haverá os votos, haverá as decisões… haverá, talvez, uma exortação apostólica do Papa, mas o mais importante será o que todos puderam dizer, o percurso feito.

Agradeço muito esta intuição do Papa Francisco, fruto de muitos passos anteriores, agradeço esta visão de Igreja Sinodal, que, nas palavras de Nathalie Becquart, é uma Igreja Povo de Deus, que se vive como Povo de Deus no meio dos povos da Terra.

Todos somos convocados para este Sínodo que já está em caminho! Peço ao Senhor que nos dê o Seu Espírito, que nos faça caminhar juntos e que todos tenham voz neste sonho de tantos. Peço que todos se sintam implicados, todos… sem excluir ninguém, para que o Evangelho continue a ser realmente a boa notícia que faz viver cada homem e cada mulher de hoje.

 

Clara Lito é religiosa da Congregação das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, neste momento a trabalhar em Paris; a seguir pode ver-se o vídeo, em francês, com o debate referido no texto. 

 

 

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