Um sínodo sobre a sinodalidade para dar eficácia à ideia de participação

| 10 Mar 20

Encontro do Papa com 40 indígenas da Amazónia, paralelo ao sínodo dos bispos, a 16 de Outubro de 2019: Francisco quer que os sínodos sejam processos de escuta do sentir dos fiéis. Foto © Vatican Media

 

Um curto comunicado assinado pelo secretário-geral do Sínodo dos Bispos, cardeal Lorenzo Baldisseri, e divulgado pela Sala de Imprensa da Santa Sé anunciou, sábado, dia 7, a decisão do Papa sobre o tema da próxima assembleia do Sínodo dos Bispos, que decorrerá em Outubro de 2022: Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão.

Este é um tema decisivo do pontificado de Francisco e do caminho de reforma encetado por este Papa. Mais do que decisões para mudar as coisas por decreto, Francisco tem optado por um caminho de debate, participação, diálogo, confronto de ideias e decisões conjuntas, que levem à opção conjunta por um caminho determinado.

Foi assim com o Sínodo dos Bispos sobre a família, em que milhares de pessoas e grupos responderam aos questionários preparatórios e, depois, se abriram as portas para um acolhimento mais eficaz aos divorciados que voltaram a casar, por exemplo. E foi assim, ainda de forma mais alargada, com o recente sínodo sobre a Amazónia, em que quase 100 mil pessoas da região pan-amazónica participaram em debates e iniciativas preparatórias, contribuindo para a elaboração do documento de trabalho da assembleia.

Precisamente no seu discurso de encerramento da assembleia sobre a Amazónia, o Papa já tinha dito que o tema da sinodalidade foi um dos três mais votados, nas propostas que os bispos fizeram para escolher o próximo tema. “Já progredimos muito e ainda temos que progredir mais neste caminho da sinodalidade”, afirmou Francisco na ocasião.

 

“Igreja e Sínodo são sinónimos”

Já há mais de quatro anos o Papa fizera um discurso dedicado ao tema, quando comemorou o 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos, pelo Papa Paulo VI. A 17 de Outubro de 2105, precisamente em plena assembleia sinodal sobre a família, afirmou que a sinodalidade faz parte da “dimensão constitutiva da Igreja”. Citando São João Crisóstomo, bispo do século IV e um dos mais importantes teólogos cristãos dos primeiros séculos, que dizia que “Igreja e Sínodo são sinónimos”, acrescentou que “o caminho da sinodalidade é precisamente o que Deus espera da Igreja do terceiro milénio.”

Referindo a Igreja “sinodal” como uma Igreja “de escuta, com a consciência de que escutar é mais do que ouvir”, o Papa acrescentou que o que se pretende é que, num modelo assim, “como numa pirâmide invertida, o vértice encontra-se abaixo da base”. Por isso, explicou ainda, “os que exercem a autoridade chamam-se ‘ministros’, porque, segundo o significado original da palavra, são os menores no meio de todos”.

No mesmo discurso, o Papa recordou que a palavra “sínodo” vem do grego e significa “caminhar juntos”, admitindo que este conceito é “fácil de exprimir em palavras, mas não é assim fácil pô-lo em prática”. Mas deu o exemplo do que se passou com a preparação da assembleia sobre a família: não “teria sido possível falar da família sem interpelar as famílias” e as respostas aos dois questionários preparatórios permitiram “ouvir pelo menos algumas delas a propósito de questões que lhes tocam de perto e sobre as quais têm muito a dizer”.

Com a escolha deste tema, o Papa dá, assim, “continuidade ao caminho iniciado no Concílio Vaticano II, em que se procurou corrigir a perspectiva piramidal da Igreja, que tinha como base os leigos, submetidos aos padres, estes aos bispos e todos ao Papa”, escreveu, no Jornal de Notícias, o padre Fernando Calado Rodrigues. Na sua crónica semanal no JN, este padre de Bragança acrescentava: “O Concílio propôs a perspectiva de povo de Deus, em que todos são fiéis, uns fiéis leigos e outros clérigos. Mas estes só se distinguem pelo serviço que são chamados a desempenhar em função dos outros. Retirando as consequências da reflexão conciliar, o Papa propõe agora uma inversão da pirâmide.”

A escolha deste tema trata, assim, de ir aos fundamentos de muitas opções do Papa Francisco e do seu modo de agir, precisamente quando estamos a poucos dias de se completarem sete anos sobre a sua eleição, em 2013. Além disso, o tema pode permitir também consagrar mecanismos mais eficazes de participação da maior parte dos fiéis nas estruturas de decisão da Igreja – até agora, a realização de um sínodo diocesano ou nacional, por exemplo, está sujeita a tais regras, que o clero continua dominante e a última palavra cabe sempre ao bispo. É por isso que, na Alemanha, os bispos e o Comité Central dos Católicos Alemães decidiram convocar uma assembleia designada Caminho Sinodal, de modo a não ter de cumprir as regras canónicas apertadas de um sínodo.

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