Um novo arcebispo para Braga (7) – Miguel Bandeira: Um Templo com Francisco

| 7 Set 20

Estátua, Frei Bartolomeu dos Mártires. Braga.

Estátua de Frei Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga na época do Concílio de Trento: “Como deverá ser a figura tutelar da mitra bracarense perante o imponderável dos próximos anos?!” Foto © Eduardo Jorge Madureira

 

D. Jorge Ortiga foi nomeado arcebispo de Braga em 5 de junho de 1999, e solicitou a sua substituição em 2019, ao completar 75 anos. Estando para breve a sua substituição (já correm vários nomes de candidatos), e tendo em conta a importância da diocese de Braga no panorama católico português, o 7MARGENS lançou um curto inquérito sobre o perfil que várias pessoas da diocese desejariam ver para o novo arcebispo, em termos de qualidades humanas, sociais e eclesiais.

Num primeiro texto da série, recordámos o que se passou em 1999, quando a nomeação de D. Jorge Ortiga pelo Papa João Paulo II foi antecedida por uma movimentação de leigos da arquidiocese, no sentido de dizer que perfil deveria ter a pessoa escolhida.

A seguir, fica o sexto depoimento: Miguel Sopas de Melo Bandeira, professor.

 

Miguel Bandeira

Miguel Bandeira.

Porque repentinamente cedemos ao sobressalto dos dias. Indagar o futuro desde o imponderável, ainda que intuitivo e terapêutico no curso de uma pandemia, condiciona-nos em distanciamento reflexivo defronte da emergência da vida.

E, porém, em tempos de medo e escuridão, é sempre o amanhã, a esperança vital ao soçobro de toda a borrasca, aquilo que nos alenta, neste caso, que nos revigora, e até dá o sentido às coisas.

Porque, é verdade, no princípio destes dias nos sentimos mais todos, embora incorrigíveis, porém, próximo do perfume de algo que nos transcende, que relega para segundo plano o fator individual, que nos torna existencialmente mais frágeis e passageiros. Essa também é a condição indeclinável do pastor. Ainda que, cientes da imensa carga simbólica que a sua figura carrega para os cristãos, não enjeitando, porém, o imperativo desafiador da metáfora, numa sociedade comunicativa profundamente laicizada, e que a Igreja de hoje já não pode ignorar. Mais a mais, agora, que desfruta de uma oportunidade única e sem precedentes de consubstanciar em pleno a natureza da sua ação pastoral. O amor ao próximo.

Nestas circunstâncias, o que pode aquele que se dirige ao rebanho da primacial Igreja de Braga?! Essa comunidade de origens insondáveis, que se confunde com a dissolução do Império Romano, pelo menos no que toca ao imaginário simbólico que fazemos dele. Porque em Braga, durante muito tempo, ser romano e cristão não era mais do que as duas faces da mesma moeda. Isto é, sem nos tentarmos por outros caminhos, perguntar-se-ia hoje o que se espera dos dignatários herdeiros da bimilenária história da cidade, que jamais se libertou dessa tensão entre o pagão e cristão?! Como deverá ser a figura tutelar da mitra bracarense perante o imponderável dos próximos anos?! Com que pragmatismo inadiável o arcebispo de Braga, sobrecarregado do secularismo nobilitador dos tempos, irá interpelar o seu rebanho?! Como incorporará o rasto dos seus mártires, metropolitas, bispos e arcebispos, que o antecederam, guindados ao zénite das Hespanhas…?! Em todo o caso, o pastor de Braga, será sempre um elo mais a juntar a uma vasta cadeia. Convocado para esse difícil compromisso, também ele algo paradoxal, que acumula a rusticidade pastoril das origens com a do príncipe da tradição senhorial, e que remete para Braga, para o país, uma espécie de complexo de Santa Se(de).

Mas, se o estigma do legado romano estreita as expectativas da margem de atuação individual, dir-se-ia, dissipa qualquer veleidade providencialista, por outro lado, e muito pragmaticamente, não deixa também de o convocar para estar à altura do seu tempo. É esse, talvez, nos dias que correm, o primordial desafio do antístite de Braga. Pelo seu exemplo individual, para além do arauto de preocupações, do traçar de caminhos a trilhar, será o de conseguir levar as ovelhas a encontrarem-se, a questionarem-se a si próprias. Tocar a multidiversidade do que o rodeia, por mais apartadas que hajam reses do rebanho. Tudo, mas tudo, deverá interessar ao pastor!

Intuímos assim, que o desígnio de um arcebispo é mais do que o de um mero perfil eclesial, como se mimetizássemos um candidato a líder político, ou o ceo de uma prestigiada empresa. Até porque o pastor perdeu o ascendente e o potentado que, no passado, significava para o rebanho, quando não, viu-lhe fugir a unicidade de conduta do pastoreio. Tal como a aldeia, circunscrita, e feita à sua medida, não existe mais. Diríamos, mesmo, que mais importante do que o pastor é a cidade a que este se dirige, onde vive… O modo como está disposto a relacionar-se com essa realidade cada vez mais complexa.

Por fim, e a propósito da releitura de uns velhos recortes, que a teimosia insiste em guardar, recupero uma crónica[1] já com alguns anos que, acidentalmente, exprime o essencial do que queremos partilhar.

Inevitavelmente invocando o Papa Francisco, a referência urbi et orbi que desperta todas as consciências, que nos empolga a participar. Sobretudo, pelo seu testemunho pastoral, assente na “lógica da experiência”, que vai para além dessa visão dicotómica e redutora entre um pastor “progressista ou conservador, pró ou contra”, exigindo outro tipo de compreensão para a qual “ainda não estamos todos preparados”. Do mesmo modo, como acrescenta o cronista citado, evocando o antecessor, Bento XVI, insuspeito eclesiástico, à Igreja urge demarcar-se de “uma religiosidade indiferente”, que rejeite a “pastoral de cabotagem”, i.e., feita à vista. Uma Igreja defensiva e reativa, apenas preocupada com “as estruturas, cargos e funções”, sem criatividade, ousadia, ou despojamento, ao invés do que (re)clamam e (des)esperam as nossas sociedades envelhecidas e “desistentes de si próprias”.

Um Templo com Francisco…

 

Amanhã: depoimento do grupo de Braga do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais.

Depoimentos já publicados: Alexandre Gonzaga (jornalista), Ana Maria Pinto (militante da LOC/Movº de Trabalhadores Cristãos), Luís António Santos (professor universitário), Deolinda Machado (professora e militante da LOC/MTC) e grupo de Mire de Tibães do Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crianças.

 

Nota
[1] – Elias Couto, in Igreja Viva (Diário do Minho) de 19/IX/2013, “Questões para a Igreja em Portugal” (parte – I)

 

Precisamos de nos ouvir (21) – Luísa Ribeiro Ferreira: Um confinamento na companhia de Espinosa

Precisamos de nos ouvir (21) – Luísa Ribeiro Ferreira: Um confinamento na companhia de Espinosa novidade

Recebi do 7MARGENS um convite para escrever sobre a minha experiência desta pandemia, partilhando a fragilidade da condição que actualmente vivemos. Respondo recorrendo a Espinosa, o filósofo com quem mais tenho dialogado e que durante o presente confinamento revisitei várias vezes, quer por obrigação (atendendo a compromissos) quer por devoção (a leitura das suas obras é sempre gratificante).

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Crónica

Os Dias da Semana – Cacofonia

Os Dias da Semana – Cacofonia novidade

É cruel a guerra pelos dois ou três minutos de fama nos media; é feroz o combate por visualizações, partilhas e comentários nas redes sociais. A atenção é um bem escasso que é preciso disputar sem piedade. A intensificação da concorrência oferece uma cacofonia deplorável.

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Peditório digital da Cáritas entre 28 de fevereiro e 7 de março

O peditório nacional da rede Caritas vai pela segunda vez decorrer em formato digital, podendo os donativos ser realizados, durante a próxima semana, de 28 de fevereiro a 7 de março, diretamente no sítio da Cáritas Nacional ou por transferência bancária.

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