Um tempo duas vezes suspenso

| 8 Abr 20

O tempo que estamos a viver está como que duplamente suspenso. Quer devido ao presente confinamento, quer por se inscrever na época pascal. A dúvida é saber em que condições vamos sair disto.

Constantino Sakellarides, antigo diretor-geral da Saúde e professor jubilado de Saúde Pública, chamou ao confinamento “tempo suspenso”. Mas estes dias constituem um tempo duplamente suspenso dado o período pascal que estamos a viver, de uma forma como talvez nunca antes sucedido. Celebrar a Páscoa longe da família alargada e, para os cristãos, fazê-lo longe da sua comunidade de fé, isto é, da sua família espiritual, trata-se duma dupla violência em termos sociais, humanos e espirituais.

Os psicólogos receiam as perturbações emocionais que podem decorrer desta experiência de quarentena, seja devido ao isolamento social imposto, quer como resultado do convívio forçado e prolongado com o núcleo familiar. Os psiquiatras vão mesmo partilhando os receios de uma pandemia de doença mental e perturbações emocionais que se seguirá à do vírus: como Pedro Afonso, que afirmava há dias que “corremos o risco de enfrentar outra pandemia: a eclosão de doenças psiquiátricas”.

Uma das heranças sociais da experiência chinesa com a covid-19 é que, nas regiões submetidas a quarentena, por todo o país, há relatos de um crescimento nunca antes visto de pedidos de divórcio, de tal modo que algumas cidades decidiram limitar o número diário de marcações. Veremos mais tarde se a tendência se confirma por cá.

Há aqui duas forças contraditórias (ou talvez não). É que, enquanto a convivência quotidiana com colegas de trabalho, assim como os tempos passados com os amigos e com a família alargada foram suprimidos, passou-se a ter de conviver com o núcleo familiar mais restrito vinte e quatro horas por dia. Por um lado, desapareceram as relações presenciais no âmbito profissional e lúdico, ficando restritas aos que coabitam, mas de modo forçado. O cansaço, a falta de mudança de registo e a sensação de aprisionamento desregularam em muitos casos o equilíbrio emocional de muitos, gerando irritação fácil, cansaço e muito provavelmente um aumento da violência doméstica como mais adiante se verá (na China parece ter triplicado). Em qualquer caso este tipo de efeitos irá projectar-se num período posterior ao levantamento do estado de emergência e das medidas profilácticas em vigor. Segundo o Jornal de Negócios: “Um estudo que se debruçou sobre os cidadãos de Hong Kong após a epidemia de SARS, em 2002-2003, concluiu que ‘um ano após o surto, os sobreviventes da SARS ainda apresentavam elevados níveis de stress e níveis preocupantes de angústia psicológica’, como depressão e ansiedade.”

Mas se falarmos das pessoas que vivem sozinhas, em particular os idosos, o problema virá por outras vias, considerando o reforço dum possível sentimento de isolamento pré-existente, agravado agora pelas limitações de sair à rua e de contactos com a vizinhança. O mesmo sucede com os idosos residentes nos lares que não podem receber visitas de familiares.

O actual confinamento sanitário tem vindo a desafiar as comunidades religiosas a uma reconfiguração da sua prática, em especial através da transmissão de serviços religiosos em directo pela internet, assim como uma presença mais significativa nas redes sociais. Porém, a Páscoa constitui-se como o pico desta nova experiência, com a agravante de ser, no caso dos cristãos, o ponto alto do calendário litúrgico. De facto, a Páscoa é a festividade mais importante do ponto de vista teológico, o que é comprovado até pela eucaristia ou Ceia do Senhor, que simbolizam a morte sacrificial de Cristo, de certa forma representada no acto litúrgico ao longo de todo o ano. Nem a guerra foi capaz de suspender os serviços religiosos como este coronavírus. Estamos, portanto, colocados perante uma situação nova, inesperada, inimaginável e de difícil gestão.

Tal como será difícil e arriscado o exercício de imaginar que reconfigurações se irão verificar nas religiões, passado o estado de emergência, mormente nas monoteístas, que têm um perfil gregário e se caracterizam por celebrações colectivas. Haverá reforço de presenças nas celebrações ou perda? Haverá maior coesão ou, pelo contrário, dispersão? Passará a haver maior necessidade de vida colectiva ou preferir-se-á o isolamento?

A verdade é que, segundo os estudos mais recentes, existe uma relação directa da prática religiosa com a felicidade, o envolvimento cívico e a saúde, um pouco por todo o mundo, sendo a participação numa comunidade local de fé considerada um factor chave. E por agora tudo isso está posto em causa por este tempo duas vezes suspenso.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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