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Um tempo suspenso. Um espaço confinado

Um tempo suspenso. Um espaço confinado

by | 20 Jul 20 | Cultura e artes, Entre Margens, Sem categoria, Sociedade, Últimas

Nas margens da filosofia (XXII)

“O que aconteceria aos homens se fossem privados de uma vivência normal do tempo e do espaço?” Foto©José Centeio

 

Ao falarmos de tempo e de espaço imediatamente nos lembramos dos muitos filósofos que escreveram sobre esta temática. De facto, dos pitagóricos aos nossos dias, o espaço, o tempo e as relações que entre si estabelecem, têm dado azo à produção de textos que se tornaram clássicos para todo o estudioso de filosofia. Com a presente pandemia a vivência do tempo e do espaço impôs-se-nos como objecto de reflexão. E Kant foi o filósofo que imediatamente associámos ao que nos tem sido dado viver durante o confinamento. Trata-se de um autor que felizmente (ainda) se mantém nos programas do Ensino Secundário e cujas noções de espaço e de tempo se tornou obrigatoriamente familiar a todo o estudante do 11º ano.[1]

Na sua Crítica da Razão Pura, Kant fala-nos do espaço e do tempo como “formas apriori da sensibilidade”, ou seja, como condições que nos permitem quer receber as sensações provenientes dos objectos que nos rodeiam, quer apercebermo-nos de situações de  simultaneidade e de sucessão.[2] O espaço e o tempo são, respectivamente, a forma do sentido externo e do sentido interno. Eles não constituem propriedades das coisas, nem relações entre as mesmas. Embora não os percebamos em si mesmos, são-nos absolutamente necessários para que o mundo circundante se nos manifeste. A noção de espaço não é extraída das nossas experiências externas pois estas só são possíveis mediante o espaço que as fundamenta. A noção de tempo é necessária para darmos conta da realidade dos fenómenos, pois é condição geral da sua possibilidade. Com o filósofo alemão ficamos cientes da importância do espaço e do tempo como fontes essenciais que nos permitem um conhecimento fenoménico do real. Sem eles seria impossível a nossa vida de relação.

O que aconteceria aos homens se fossem privados de uma vivência normal do tempo e do espaço? Se perdessem as noções de passado, presente e futuro e não identificassem o solo firme que habitualmente pisam?

É uma situação que vemos relatada num dos contos mais belos de Jorge Luis Borges, intitulado A escrita de Deus.[3] Nele, o autor relata-nos a situação de Tzinacán, mago da pirâmide de Qaholom, encarcerado numa masmorra sem janelas. Numa outra cela havia um jaguar e, nesse tempo sempre igual, o entretenimento do mago era tentar perceber a ordem e a configuração das manchas deste animal, o seu único companheiro. Privado de referências espácio-temporais, o prisioneiro foi perdendo a noção de quem era, vivendo numa vertigem permanente. Após muitos anos de meditação solitária, impôs-se-lhe como evidente a concatenação total das manchas, identificando-as com a escrita de Deus, presente em todo o Universo. Ao querer decifrá-la teve a visão de uma Roda infinita, “feita de água, mas também de fogo (…) Formavam-na, entrelaçadas, todas as coisas que serão, que são e que foram, e eu era uma das fibras dessa trama total. (…) Aí estavam as causas e os efeitos e bastava-me ver essa Roda para entender tudo, infinitamente” (pág. 218). A situação anómala de prisioneiro, privado de habitar um espaço normal e de contar o tempo, acabou por lhe conferir poderes especiais, que, no entanto, já auferia sem deles ter conhecimento. Por isso Borges o faz dizer “assim fui debelando os anos, assim fui entrando na posse do que já era meu” (pág. 218).

A recordação deste texto que muitas vezes discuti com os alunos, como motivação para uma abordagem filosófica dos conceitos de espaço e de tempo, surgiu-me ao reflectir sobre a presente situação que a covid-19 nos impôs. E apenas me refiro ao que afectou a todos individualmente, omitindo os casos dramáticos do que ocorreu em lares e hospitais.

Estarmos durante longos dias circunscritos a uma casa ou a um quarto necessariamente teve repercussão no relacionamento interpessoal. O facto de não sabermos quanto tempo deveremos passar abstendo-nos de uma convivência normal com familiares e amigos, certamente que foi, e será, causador de angústia e de perturbações. A alteração do ritmo normal das ocupações que preenchiam os nossos dias, levou-nos à criação de novas rotinas. Quantas vezes nos deitámos a altas horas sem termos dado conta de ser tão tarde. Quantas vezes acordámos a meio da noite pensando ser hora de levantar.

Na época mais dura da pandemia vivemos um tempo suspenso em que as ocupações habituais se alteraram. Assistimos ao longo de meses à intensificação de mensagens virtuais onde o WhatsApp, o Facebook, o Instagram e o Twitter substituíram o diálogo face a face e nos inundaram com notícias, memes e posts, exaustivamente enviados e reenviados. Construímos assim um tempo partilhado e não realmente vivido, ligando-nos a pessoas que, de desconhecidas, passaram a quase íntimas.  Ficámos cientes dos estados de espírito dos nossos amigos, bem como de gente estranha que continuamente nos pôs a par dos seus interesses, gostos e ocupações – os seus filhos, netos, bisnetos e diferentes familiares entraram nas nossas vidas.

Vivemos também num espaço confinado onde se evitava a reunião de várias pessoas numa mesma casa. Acabaram-se os jantares de família e de amigos, pelo perigo de juntar muita gente à mesma mesa. Disseminou-se uma atitude de cautela e de desconfiança que se estendeu a todos com quem contactamos, quer conhecidos quer estranhos. Impossibilitados de tocar, de abraçar e de beijar familiares e amigos, interiorizámos comportamentos de distância física que progressivamente nos isolaram.[4] As saídas à rua foram contabilizadas e reduzidas ao estritamente necessário. Os parques, os cafés e restaurantes passaram a ser encarados como potenciais ameaças.  Os cinemas fecharam, os concertos e espectáculos rarearam ocorrendo quase exclusivamente on line. Os amantes de futebol e de eventos desportivos ficaram circunscritos à televisão onde os estádios apareciam desertos e os jogos decorriam sem o calor do público.

Confrontada com as sequelas provocadas por um isolamento absoluto (vide conto de Borges), a presente experiência da pandemia é um episódio superável, que certamente deixa marcas, mas que, no entanto, não destrói a nossa essência enquanto humanos que somos. Esperemos que, passado este tempo suspenso e este espaço confinado, possamos construir uma sociedade mais consciente das suas vulnerabilidades e da necessidade de zelar pela Terra que habitamos – a casa comum da qual não somos donos e de cuja sobrevivência é nossa obrigação cuidar.

 

[1] Reservo para uma outra ocasião a apreciação crítica relativamente às orientações que ultimamente têm dominado o ensino da filosofia no Ensino Secundário (vide Exame de Filosofia deste ano).
[2] Imamanuel Kant, Crítica da Razão Pura, (“Estética Transcendental”), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1985, pgs. 63-87.
[3] “A escrita de Deus” in Jorge Luís Borges, Nova Antologia Pessoal, Lisboa, Difel, 1983, pgs. 215-219.
[4] Note-se que houve quem achasse positiva esta contenção de afectividade, esperando que no futuro adoptássemos saudações mais formais para com pessoas que vemos pela primeira vez.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

 

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