Nos últimos 30 anos, um em cada três (35%) dos clérigos ordenados pela Igreja Católica no Reino Unido eram ex-clérigos que abandonaram a Igreja de Inglaterra, a Igreja no País de Gales e a Igreja Episcopal Escocesa, todas pertencentes à Comunhão Anglicana. Ou seja, das cerca de 2.000 ordenações havidas na Igreja católica, 700 dizem respeito a ex-clérigos e religiosos daquelas três igrejas. Dito de outro modo: um terço de todo o clero católico ordenado na Inglaterra e no País de Gales nas últimas três décadas veio da Comunhão Anglicana.
Este número inclui 16 ex-bispos anglicanos e dois bispos anglicanos permanentes (dados de dezembro de 2024). O estudo publicado no dia 20 de novembro foi encomendado pela Sociedade de São Barnabé, uma iniciativa católica que “remonta ao tempo da bula Apostolicae Curae (1896) do Papa Leão XIII que declarou inválidas as ordenações anglicanas e que dispunha como acolher na Igreja Católica os clérigos anglicanos que pretendiam converter-se ao catolicismo.
Investigando as causas para os dois “momentos críticos” de tais ordenações (os anos de 1994 e de 2011), o relatório lembra que em 1992, a Igreja da Inglaterra decidiu passar a ordenar mulheres, decisão promulgada em 1994. Este foi o ano de maior número de conversões (quase 160), prolongando-se o efeito dessa decisão para os dois anos seguintes, com 50 e 40 ordenações, respetivamente.
Depois, em 2011, surge um novo pico com 80 clérigos acolhidos na Igreja Católica, mais precisamente à frente de “Ordinariatos Pessoais para os fiéis anglicanos que desejavam entrar de forma corporativa na plena comunhão da Igreja Católica “, possibilidade criada pela constituição apostólica Anglicanorum Coetibus, do Papa Bento XVI, em 2009. Papa que tinha visitado o Reino Unido no ano anterior (2020).
O estudo – que pode ser obtido em PDF aqui – indica, porém, que “a dimensão da contribuição dos ex-anglicanos para a vida pastoral e sacramental da Igreja Católica no Reino Unido” é provavelmente ainda maior do que os números recolhidos permitem imaginar. Em boa parte porque “as entidades religiosas muitas vezes não são meticulosas na coleta ou divulgação de estatísticas precisas, mesmo em assuntos de grande importância pastoral” e “a Igreja Católica na Inglaterra, no País de Gales e na Escócia, de modo algum foge a essa tendência geral”.
Desafios e surpresas

Stephen Bullivant: … um terço de todas as ordenações nos últimos 30 anos são de ex-clérigos anglicanos.” Foto: O ex-padre anglicano David Waller tornou-se o primeiro bispo ordinário do Ordinariato de Walsingham. © CBCEW (ver 7MARGENS)
Mas contra o apuramento exato dos números em causa há ainda a razão ecuménica: “As dioceses anglicanas têm poucos motivos para divulgar o número de fiéis e clérigos que deixaram ou deixam a Igreja, ou para publicitar as razões que estão na base desse abandono. Enquanto isto, a Igreja Católica tem sido oficialmente muito cuidadosa, tanto naquela época (1994), quanto depois, para evitar qualquer aparência do que poderia ser chamado de ‘triunfalismo’. A Igreja Católica está sempre atenta às sensibilidades ecuménicas.”
O sítio do jornal Crux Now oferece um bom resumo do estudo, pondo em relevo as dificuldades por que passam os clérigos anglicanos que se convertem ao catolicismo. “Quase invariavelmente eles enfrentam desafios, incluindo a perda de rendimentos, das suas pensões e até mesmo das casas em que viviam (muitas vezes propriedade da Igreja da Inglaterra e destinadas a abrigar o seu clero)” e, por outro lado, acontece-lhes “entrarem em comunhão com Roma tarde na vida, frequentemente com famílias para sustentar, com pouca experiência ou capacidades profissionais fora do ministério e sem qualquer garantia de serem aceites como candidatos à ordenação”. Mesmo quando aceites, sublinha o jornal, “pode levar meses ou anos para que sejam ordenados e iniciem o ministério”.
O diretor do estudo e principal autor do relatório, o professor das Universidade St. Mary’s, em Twickenham e na Austrália, e diretor da Sociedade Bento XVI, Stephen Bullivant, disse ao Crux Now “estar surpreso com a escala e o alcance da contribuição de ex-anglicanos para o ministério católico”, confessando: “Tinha a impressão de que era um número bastante grande, maior do que as pessoas imaginavam. Mas fiquei surpreendido com o facto de que, basicamente, um terço de todas as ordenações nos últimos 30 anos são de ex-clérigos anglicanos. Penso que todos estão surpresos com isso, porque os próprios bispos só conhecem o que acontece na sua própria região.”










