Revelação em Almeida

Um tesouro artístico: as pinturas murais de Malhada Sorda Almeida

| 14 Abr 2024

Pinturas da Igreja matriz de Malhada Sorda

Pinturas da Igreja matriz de Malhada Sorda. Foto © Diocese da Guarda/Joana Pereira.

Convidado pela Diocese da Guarda e pela Fundação Família Luzia Esteves Pinheiro a pronunciar-me sobre a iconografia de alguns painéis de pintura mural surgidos na igreja matriz de Malhada Sorda (Almeida), foi com surpresa que me deparei com um conjunto iconográfico raro, investido de singular qualidade artística. 

Segundo notas publicadas por Paula Figueiredo em 2018, tais obras surgem num lugar de culto com origens medievais, já mencionado na primeira metade do século XIV, embora com um orago distinto. Em 1321, a igreja de São João de Malhada Sorda, incluída entre as igrejas do termo de Vilar Maior, estava dependente do bispado de Ciudad Rodrigo, juntamente com as paróquias dos concelhos de Castelo Rodrigo, Almeida, Castelo Bom, Sabugal e Alfaiates. Essa dependência só mudou em meados do século XV, passando a integrar o bispado de Lamego. Só muito mais tarde passou a fazer parte da diocese da Guarda. 

Não sabemos quando o orago da igreja foi mudado. É possível, todavia, que tal tenha sucedido no momento em que a igreja medieval foi reconstruída e, provavelmente, ao tempo em que as pinturas agora postas em evidência foram executadas. 

Pinturas da Igreja matriz de Malhada Sorda. Foto © Diocese da Guarda/Joana Pereira.

Pinturas da Igreja matriz de Malhada Sorda. Foto © Diocese da Guarda/Joana Pereira.

Tal como foi divulgado pela imprensa no passado dia 11 de abril, os painéis centrais de um conjunto de pintura mural que atingiria 13 ou 14 cenas, espelham a iconografia do novo orago, o Arcanjo São Miguel. Esse acervo – alvo de várias mutilações (algumas delas particularmente nefastas para a leitura integral do programa iconográfico), em resultado da instalação do retábulo barroco, em talha dourada – remonta a duas épocas distintas, embora não muito distantes no tempo. A parte mais antiga e central, um retábulo fingido, evidencia uma “modernidade” gótica, bem patente nas molduras ornamentais e mesmo na maneira usada no desenho das figuras e do contexto urbano e paisagístico. Já os painéis laterais – os melhor conhecidos até ao momento – são posteriores, mostrando já particularidades que comprovam uma adesão a alguns pontos salientes da arte “ao romano”, bem evidente nas molduras que rodeiam as “histórias”. Ainda assim, parece-nos defensável que tudo foi executado em menos de meio século, tempo que pode ter começado em finais do século XV, tendo entrado pelo reinado de D. João III adentro. Mostra bem o quanto o gosto, tantas vezes “bilingue” (para usar um adjectivo tão caro ao historiador espanhol Fernando Marías), foi evoluindo nesse “longo século XVI”, inclusive em contextos mais periféricos.

Como tivemos oportunidade de afirmar na notícia difundida pela agência Lusa e por alguma comunicação social, as obras mais raras de um ponto de vista iconográfico são aquelas que representam São Miguel Arcanjo e as suas aparições ou milagres, radicadas em textos medievais, nomeadamente na Lenda Dourada (séc. XIII), do bispo de Génova, Jacopo de Varazze. Se o painel central, com o Príncipe das Milícias Celestiais, tem um carácter icónico enquanto “imagem”, já as cenas que o rodeiam são narrativas (ou “histórias”) suas. Uma observação preliminar leva-nos a defender que se referem aos acontecimentos sobrenaturais ocorridos em Itália, no Monte Gargano. Temos ali, bem explícito, o chamado “Milagre do Boi”, mas também poderá estar ali a aparição do Arcanjo ao bispo de Siponto, que lhe pede a proteção contra os napolitanos, ainda pagãos; e a deslocação de todas as autoridades da cidade à igreja dedicada a São Miguel, agradecendo a sua intervenção sobrenatural, que lhes garantiu a vitória sobre os inimigos e a sua posterior conversão. Uma quarta cena existia sob esta, mas ainda não foi possível identificá-la. Não andará longe do carácter destas três. Poderia existir ainda uma quinta cena por debaixo da imagem central. 

Pinturas da Igreja matriz de Malhada Sorda. Foto © Diocese da Guarda/Joana Pereira.

Pinturas da Igreja matriz de Malhada Sorda. Foto © Diocese da Guarda/Joana Pereira.

Tal como já havia sido notado por Luís Urbano Afonso, as cenas laterais – apresentando em parte momentos narrados no Génesis – reflectem influência das gravuras de Michael Wolgemut, que acompanham a Crónica de Nuremberga, de Hartmann Schedel, editada em 1493. Esse sopro do Norte da Europa nota-se, também, no ciclo iconográfico de São Miguel, embora de forma mais subtil, sem haver, contudo, um decalque das obras gravadas em final do século XV. Surge, todavia, mesclado com a influência das gravuras produzidas por outros artistas setentrionais, do mesmo período. 

O desenho das figuras e, sobretudo, das paisagens urbanas e naturais levou-nos, todavia, ao reconhecimento de outras parecenças. Assim chegámos às marcas mais salientes de algumas das pinturas que integraram o retábulo-mor da Catedral de Ciudad Rodrigo, hoje salvaguardadas nos Estados Unidos da América, na University of Arizona – Museum of Art de Tucson. Não temos, por agora, elementos comprovativos que nos permitam uma afirmação taxativa, mas devemos notar que nas pinturas de Malhada Sorda se apresentam estilemas vários compagináveis com aqueles que se notam nesse retábulo espanhol, pintado e instalado a menos de 40 quilómetros de distância, na antiga sede episcopal do território onde se incluiu a aldeia que hoje faz parte do concelho de Almeida. Com tábuas atribuídas a Fernando Gallego (1470 – 1507) e a um mestre que assinou “Bartolomeus” numa obra patente no Museu do Prado, em Madrid, é possível que as pinturas murais da igreja de São Miguel, aqui em apreço, tenham saído da oficina ou das mãos de um seguidor directo desse último artista, que deixou obra também em Trujillo e Sigüenza.

No decurso dos trabalhos de limpeza, conservação e restauro destas obras de arte, cuja importância ninguém negará, contamos confirmar – ou eventualmente infirmar – estas hipóteses de trabalho, no decurso de um breve estudo que iremos dedicar a este conjunto pictórico. Sublinhamos a necessidade de se dar o devido relevo a este património, no âmbito da recuperação integral do interior da igreja de São Miguel de Malhada Sorda, patrocinado pela Fundação Família Luzia Esteves Pinheiro.

 

Ruy Ventura é historiador de arte (CHSC – Universidade de Coimbra) e organizador de Por Mim Fora – antologia de poemas de Sebastião da Gama, publicada no dia 10 pela Officium Lectionis [ver 7MARGENS].

 

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