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autores - Rúben Azevedo

Um testemunho inquietante (e necessário) de Primo Levi

| 13/03/2025

 

Há poucos dias, deparei-me com um artigo escrito por Primo Levi, o famoso judeu italiano que sobreviveu a Auschwitz, o qual, entre outras obras impressionantes, escreveu Se isto é um homem (1947), talvez o mais extraordinário e impressionante relato alguma vez escrito da desumanização a que os internos do campo polaco (a grande maioria judeus) estavam sujeitos. Este artigo, escrito em 1961, intitula-se “Testemunho para Eichman”[1], e está inserto num coletânea de artigos, detalhados relatórios e testemunhos das deportações e experiências nos campos nazis, intitulada Assim foi Auschwitz – testemunhos 1945-1986[2].

 ‘Como escreve Levi, “fez-se a demonstração despudorada da facilidade com que o mal prevalece”.’  Medo em Auschwitz-Birkenau – Jun-Jul 1943, de Karl Stojka

 

Neste artigo, Primo Levi argumenta a favor da necessidade de falar do horror nazi sem cessar, especialmente às novas gerações, porque, escreve ele, “A História não pode ser mutilada. Foram acontecimentos demasiado indicativos, vislumbraram-se os sintomas de uma doença demasiado grave, para que seja lícito calá-los.” (p.93)

Falar insistente e especialmente acerca dos eventos demoníacos que ocorreram em pleno coração da Europa do séc. XX, das deportações e dos campos, dos massacres e da violência insana perpetrada em nome de uma ideologia doentia, não significa, argumenta Levi, relativizar ou esquecer outros crimes que foram e continuam a ser perpretados. Pelo contrário,

“…qualquer informação que nos chegue de massacres, torturas, vagões selados, sofrimentos gratuitamente infligidos a inocentes, injustiças conscientes, todas essas informações nos dizem respeito e somos sensíveis a elas: a nossa condenação estende-se a todas. Quem quer que volte a narrar massacres de mulheres e crianças, por qualquer mão que seja, em qualquer terra, em nome de qualquer ideologia, é nosso irmão, e somos solidários com ele.” (p.92)

Tendo Levi experimentado, durante quase dois tortuosos anos, na própria carne, primeiro, o inferno da deportação, depois, Auschwitz, e tendo conhecido muitos outros que também o experimentaram, judeus e não-judeus, embora não tenham sobrevivido para o contar, ele sente que é seu dever “prestar testemunho”. E é preciso também falar das valas comuns, das crianças e mulheres perseguidas nos campos como animais selvagens, dos comboios inteiros de prisioneiros russos deixados a morrer de frio e de fome, tudo cenas relatadas, segundo o autor, por soldados italianos que combateram ao lado dos alemães na frente russa.

É preciso fazer pensar, dar que pensar, para que nunca mais o mundo dito civilizado assista a eventos semelhantes, muito menos no seu próprio seio. Porque, como diz Levi na primeira citação, e vale muito a pena repetir, “Foram acontecimentos demasiado indicativos, vislumbraram-se os sintomas de uma doença demasiado grave, para que seja lícito calá-los.” (itálico meu).

Quem estará, mesmo hoje em dia, completamente imune a tal doença? Como sabê-lo? Usando as próprias palavras de Levi num outro artigo desta mesma colectânea,

“Somos filhos dessa Europa onde está Auschwitz: vivemos nesse século em que a ciência se curvou e gerou o código racial e as câmaras de gás. Quem pode ter a certeza de estar imune à infeção?” (p.73)

Hoje, que se volta a ouvir falar, em plena Europa, e também nos EUA, em deportações, nacionalismos bacocos, guerras e rumores de guerras, não estaremos na iminência de um recrudescimento dessas “potências demoníacas” que, segundo Jaspers, filósofo, e Thomas Man, escritor (ambos alemães) explicavam o Nazismo? (é Levi que os cita no seu artigo).

E depois há a tristemente famosa “banalidade do mal”, expressão cunhada pela filósofa Hannah Arendt, precisamente no contexto do julgamento de Eichman em Israel, a mesma figura de proa do Nazismo que Levi refere no seu artigo, começando pelo título. Como escreve Levi, “fez-se a demonstração despudorada da facilidade com que o mal prevalece”. Em todos os sítios que os alemães pisaram,

“é uma brincadeira de crianças encontrar traidores e transformá-los em sátrapas, corromper as consciências, criar ou restaurar o ambiente de consenso ambíguo ou de terror explícito que era necessário para colocar o seus desígnios em prática.” (p.94)

Quer dizer, por toda a parte, foi fácil encontrar quem colaborasse com os nazis, fosse em França, fosse na Noruega, fosse na Ucrânia, fosse na Polónia. Inclusive dentro dos próprios campos, era fácil para os alemães, segundo o autor, corromper as consciências e pôr internos contra internos, judeus contra judeus. “Escolhiam-se os mais torpes, os mais violentos, os piores, e era-lhes concedido todo o poder, alimentos, roupas, isenção de trabalho, isenção da própria morte com gás, desde que colaborassem.” (p.96) E colaboravam. É evidente que podemos argumentar que, num ambiente de plena desumanização, em que o que está em causa, hora a hora, é a sobrevivência pessoal, é preciso talvez uma rara força de caráter para não soçobrar à tentação de colaborar. Seriamos nós, cada um de nós, uma vez colocados em situação idêntica, capazes de resistir à tentação?

E acima de tudo, seremos nós hoje capazes de, perante a evidência do mal, que pode estar a milhares de quilómetros de distância ou mesmo à nossa porta, não virar a cara, não ignorar, não ficar indiferentes como se não nos dissesse respeito? Porque também é assim que o mal prevalece, com o silêncio dos bons. É assustador, de resto, o modo como o Trumpismo tem varrido, com estonteante facilidade, os EUA e agora também a Europa, onde é já fonte de inspiração para as extremas-direitas europeias, que até lhe copiam os slogans. O modo como parece fazer o seu caminho sem encontrar real oposição, e como tem arrebatado apoios nas tecnológicas, na alta finança, sendo que até as mentes brilhantes, bem-formadas e progressistas do Partido Democrata parecem ser incapazes de travar a avalanche de ignorância e obscurantismo que ele simboliza. Sendo até capaz de cativar gente competente e muito inteligente; ele, que não sabe articular um discurso coerente, objetivo e informado, e que diz tantas mentiras! É no mínimo inquietante. Faz lembrar o modo como o próprio Hitler, não obstante o caráter doentio e falso da sua ideologia, não encontrou na Alemanha ultracivilizada dos anos 30, a Alemanha que deu tantos e tão magníficos poetas, filósofos e cientistas a este mundo, real oposição intelectual e moral (antes muito pelo contrário, tendo havido até professores universitários de craveira que apoiaram, por exemplo, a queima pública de livros). É inquietante.

“Construíram-se campos diferentes de qualquer outra coisa que a humanidade tivesse concebido até então: chamavam-se campos de trabalho, ou até de reeducação, mas tinham a finalidade precisa de fazer morrer, e fazer morrer com dor.”  Ilustração alusiva aos fornos crematórios de Auschwitz, na Exposição “Auschwitz – No hace mucho. No muy lejos”, em Madrid (2018-2019); foto © Nair Alexandra

 

Deixo, para terminar, e para fazer pensar, quatro parágrafos centrais do artigo de Levi (perdoe-se-me a extensão da citação, mas julgo mesmo que vale a pena).

“Pensem: há menos de vinte anos [recorde-se que o artigo é de 1961], e no coração desta  Europa civilizada, sonhou-se um sonho demente, o de edificar um império milenar sobre milhões de cadáveres e de escravos. O verbo foi banido das praças: pouquíssimos se opuseram e foram destruídos; todos os outros consentiram, alguns com aversão, outros com indiferença, outros com entusiasmo. Não foi apenas um sonho: o império, um império efémero, foi edificado: os cadáveres e os escravos existiram.

Construíram-se campos diferentes de qualquer outra coisa que a humanidade tivesse concebido até então: chamavam-se campos de trabalho, ou até de reeducação, mas tinham a finalidade precisa de fazer morrer, e fazer morrer com dor. No entanto, mais tarde, a Alemanha tem nas mãos aquilo a que Eichmann chamava «as origens biológicas do judaísmo» (note-se o jargão zoológico: os judeus são uma raça de animais, são insectos, são um vírus, têm aparência humana por acaso, por uma misteriosa brincadeira da natureza); e então é preciso inventar algo mais rápido, mais industrial.

Portanto, os dóceis técnicos alemães põem mãos ao trabalho, projectam e constroem as câmaras de gás, encontram o veneno ideal, económico, infalível. Trata-se de um gás originalmente destinado a exterminar os ratos nos porões dos navios, que o exército das SS encomenda em quantidades desconcertantes à IG Farbenindustrie. A IG Farben despacha diligentemente as encomendas, cobra as facturas e não se preocupa mais com o assunto. Será que há uma invasão de ratos? É melhor não perguntar, para não saber: os industriais alemães salvam a consciência e lucram com o veneno.

A empresa Topf e Filhos, de Erfurt, construções em ferro (ainda existem as plaquetas nos fornos de Buchenwald: não nos de Auschwitz, que foram explodidos), aceita a encomenda de um crematório capaz de destruir 1000 cadáveres por hora. As instalações são projectadas, construídas, testadas na presença do engenheiro-chefe da empresa Topf e Filhos: entram em funcionamento no início de 1943 e trabalham a pleno ritmo até Outubro de 1944. Façam às contas.”

Isso mesmo: façamos as contas. Há que continuar a fazer as contas. Hoje e sempre.

[1] “Testemunho para Eichman”, in Levi, Primo e Benedeti, Leonardo, Assim foi Auschwitz – testemunho 1945-1986, trad. de Federico Caroti, Lisboa, Penguin Random House, 2015, pp. 91-97.
[2] Levi, Primo e Benedeti, Leonardo, Assim foi Auschwitz – testemunho 1945-1986, trad. de Federico Caroti, Lisboa, Penguin Random House, 2015.

 

Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Enigma – Noemas em torno do Mistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.

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